Ahtrim Ayon - Demetria Scarvenger - O Pedido de Ryan
Algumas vezes, o tempo e o espaço são
intransponíveis mesmo que se tente dobrá-los durante uma vida. Outras vezes,
basta ter um dom, e eles se curvarão à sua vontade. No meu caso, eu tenho um
dom. Um dom que se não for dominado e controlado, pode colocar em perigo todas
as pessoas que eu amo. E eu estou disposta a impedir que isso aconteça, custe o
que custar. Acho que não nos apresentamos devidamente. Tudo bem, eu vou tentar
ser mais educada, e colocar-me como uma pessoa que você pode conhecer.
Você pode me chamar de Demetria Scarvenga. Na língua
nativa dos homens, eu sou o que se pode chamar de “planinalta” ou
“planeswalker” na versão mais usual. Graças a isso, eu tenho o poder de viajar
entre as dimensões. Não, isso não é algo que você possa conseguir com treino e
dedicação. Você nasce com esse dom ou morre sem ele. Minha mãe era uma
planeswalker, assim como meu avô, meu bisavô e assim por diante. Sim, isso é
genético e hereditário, então se você é como eu, você tem alguém da sua família
que também é ou foi um planeswalker.
Atualmente, eu estou tentando me situar do que está
acontecendo na cidade de Trexter. Bem, Trexter é uma cidade extremamente
conhecida por sua formidável tecnologia e seu desenvolvimento no ramo da
tecnomagia. Eu estou hospedada na pousada “Forja e Fogo” perto da saída norte
da cidade. Por ser afastada do centro e meio pé de chinelo, é relativamente
barata. Eu não pretendia ficar mais do que uma semana, mas parece que as questões
aqui começaram a exigir minha atenção por bem mais do que sete dias.
Eu tinha ido tomar um banho relaxante para esfriar a
cabeça, já que meus problemas eram grandes e poderiam envolver uma guerra civil
sem precedentes. Eu realmente não queria que isso acontecesse. Porque, sabe, é
chato ter que lidar com pessoas se matando pelos motivos certos, que dirá pelos
errados. Quando sai do banheiro e entrei no quarto, percebi um tablet na minha
cama. Corri até a porta e verifiquei as trancas. Tudo em ordem. OK, a paranoia
estava assumindo. Decidi ver o tablet. Má ideia. Uma mensagem pré-gravada
fez-me tomar uma decisão.
Resoluta, eu decidi que tinha que encontra-lo. Se
ele sabia mais do que tinha contado na carta, então era imperativo que eu fosse
falar pessoalmente sobre o assunto o quanto antes, não importando quem pudesse
tentar me impedir. Ryan era um cara super legal quando eu saí daqui, mas
atualmente, ele está passando a imagem de um babaca. Pelo menos ele teve a
decência de mantar entregar a correspondência no mundo humano. Agora,
levanto-me da cama, e me arrumo para possivelmente encontrar um sociopata.
Vesti-me com minha roupa habitual, peguei minha
espada, meu escudo e fui para o centro da cidade. Uma das áreas mais nobres
possíveis, já que abrigava a Corregedoria de Controle e Manutenção da cidade.
Era lá que o Triunvirato mantinha residência. Era o melhor lugar possível para
encontrar Peter Hollow, Lucian Folks… E Ryan Vicenzo. Dirigi-me resoluta para
lá, certa de que esse obstáculo eu venceria, mesmo que custasse caro.
Chegando à porta, fui até o scanner de corpo e
deixei-me ser escaneada, enquanto fazia o reconhecimento de digitais e retina e
deixava minhas armas em um compartimento para pegar posteriormente. Uma voz
computadorizada chegou aos meus ouvidos dizendo meu nome, meu ID e outras
informações menos cabíveis agora. Um crachá foi emitido de um buraco na parede
e exibia um logo que ao ser pressionado, mostrava um holograma 3D de mim mesma,
com meus dados para confirmação.
– Bem vinda, senhorita Scarvenga! Posso lhe ajudar
em alguma coisa? – uma guia loura, esbelta e bem maquiada veio até mim, com um
sorriso educado e uma prancheta na mão. – Meu nome é Mabel, sou a androide
responsável por guiar os convidados pelo complexo governamental. Diga-me um destino
e eu a levarei até lá.
– Leve-me ao escritório de Ryan Vicenzo. – disse eu,
sem meias palavras. Odiava aquelas máquinas que só serviam para atrapalhar com
seus floreios e rodeios.
– Sinto muito, o Sr. Ryan não deseja ser incomodado.
Gostaria de ir a outro lugar?
Só me faltava essa! Agora tenho que lidar com
líderes políticos fechados para visitas? Eu mesma que não vou ficar aqui para
aturar isso. Peguei um micro biochip de programação avançada e pluguei no local
da primeira vértebra da coluna cervical. Assim que o fiz, o chip se liquefez e
adentrou na pele falsa, fazendo os olhos da mesma revirarem. Com um sorriso
satisfeita, olhei para ela, agora sob meu comando.
– Leve-me ao escritório de Ryan Vicenzo, agora
mesmo! – repeti, demonstrando urgência e autoridade na voz.
– Certamente, mestre Scarvenga. – a androide começou
a me guiar pelo complexo, desativando protocolos de segurança e explicando a
situação da forma mais racional possível para os seguranças robóticos e
não-robóticos.
Levou menos de dez minutos para que eu estivesse na
porta do escritório dele. Após três leves batidas, a voz de Ryan permitiu a
entrada e a porta se destrancou, permitindo que eu entrasse no escritório. Controlei
a ansiedade crescente dentro de mim e comecei a pensar em como enfrentar a
criatura à minha frente. Com um suspiro, adentrei no escritório de cabeça
erguida, pronta para encarar o monstro.
– Por favor, deixe o que veio entregar e vá embora.
Tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar ouvindo suas lamúrias. –
a voz entediada de Ryan falou com um aceno despreocupado, de costas para mim em
sua confortável poltrona de espaldar alto.
– Infelizmente para você eu não vim deixar nada. Eu
vim atrás de você em pessoa, Ryan. Preciso saber o que está acontecendo com
você. Você não é mais o mesmo e isso me preocupa. – sentei-me na poltrona de
convidados, do outro lado da larga mesa de mogno escuro decorada com miniaturas
dos projetos dele. Peguei um que me empolgava especialmente quando ainda éramos
crianças e dei corda.
O giro da cadeira dele foi lento e preguiçoso, como
um leão comendo a caça trazida pelas suas leoas. Eu realmente me senti como um
pedaço de carne sendo abatido. Olhei para aquele cabelo castanho brilhante que
me fascinava quando criança. Aquela boca rosada, aquele rosto triangular e
pálido, os olhos tão castanhos que eram calorosos, mas hoje só emanavam frieza
e vazio.
– Demi. Você por aqui? Pensei que tinha ido embora
quando concluiu a formação no IPCEDA. Veio me visitar com que intuito? Matar a
saudade de mais de dez anos que tem ficado entre nós? – o tom ácido nas
palavras dele assustou. Aquele decididamente não era o Ryan que eu conhecia.
– É, Ryan, eu vim aqui pra te dar um abraço, um
beijo e um pedaço de queijo. Só porque eu posso viajar entre as dimensões e
você não. Sou tão sua amiga que vim atrás de você para te entregar uma pedra da
lua quando estive por lá. Vamos parar com as formalidades, pois tenho assuntos
sérios a tratar. – rebati eu com a mesma acidez e sarcasmo que ele usara.
O projeto de esferas gravitacionais ainda tinha
corda quando ele digitou um comando na mesa, e trancou a porta, e desativou
todo o sistema de segurança e vigilância da sala. A partir daquele momento, eu
estava completamente isolada do mundo e de qualquer forma de vida que não fosse
o Ryan. Isso conseguia ser mais assustador do que viajar para um plano
desconhecido e enfrentar criaturas tenebrosas.
Com um dedo, Ryan parou uma das esferas e fez o
sistema de gravitação perfeita entrar em colapso, desativando o protótipo. Ele
me olhou profundamente, como se analisasse o que deveria me contar e o que
deveria omitir. Com um suspiro, ele se levantou da poltrona e seguiu até um
armário de cristal esculpido, onde pegou uma garrafa e dois copos cristalinos.
– Apesar de tudo que estão dizendo de mim por ai, eu
não sou mal-educado a ponto de esquecer o costume de brindar o retorno de uma
velha amiga. – ele pôs um dos copos a minha frente e serviu ambos com um
liquido rosa espumante. Não pude evitar sorrir ao ver aquilo. – Champanhe de
Cereja. Você costumava me aporrinhar a paciência o tempo todo por isso quando
criança.
– Nem vem, você era tão criança quanto eu. – peguei o
copo de champanhe e brindei com ele, aos velhos tempos, onde as crianças podiam
brincar e beber champanhe de cereja sem álcool como se fosse refrigerante.
Foi aí que as coisas começaram. Ryan bebeu tudo em
uma golada só, e ao fazer isso me olhou orgulhoso, como se isso provasse alguma
coisa. Eu dei alguns goles, saboreando a bebida e vi meu antigo amigo revirar
os olhos e cair no chão completamente nocauteado. Foi quando o mundo começou a
não fazer mais sentido. Tudo o que eu via, era formado por bits. E onde estava
o Ryan, agora eu via uma massa de dados escurecida.
– Essas coisas ainda precisam de muito pra chegar
perto do verdadeiro. – olhei ao redor procurando de onde vinha aquela voz no
meio daquele caos de dados. O que eu vi foi a sombra de um homem. Ryan estava
ali, feito de bits como resto do mundo, porém mais humano do que até mesmo eu. –
Oi, Demetria.
– Ryan? Mas como…? Porque…? O que…? Explicações são
bem vindas, sabia? – levantei-me da cadeira, já refeita do choque. Cheguei mais
perto do Ryan de pixels e tentei tocá-lo, só para que ele se desfizesse em
dados e se remontasse.
– Agradeceria se não fizesse isso de novo. Dói,
sabia? – disse ele, com o que eu supus que fosse um sorriso. Com certeza esse
era o MEU Ryan. – Eu estou preso em um lugar chamado Cyberzona, e meu tempo
está se esgotando. No dia que eu fui sequestrado, fizeram algo comigo para me
trancar aqui. Lawliet não consegue abrir um portão para o mundo normal e eu
estou aqui quase morrendo. Essa pessoa que você viu no meu escritório, é um
clone que fizeram de mim para destruir minha reputação e incitar uma revolta na
cidade, criando caos e guerra. Os responsáveis por isso, eu ainda não sei quem
são, mas a guerra civil provavelmente vai ser responsabilidade dos Earl Grey.
Lawliet disse que tem uma garota dentro do Instituto que pode nos ajudar, seu
nome é Kellyanne. Você precisa entrar em contato com ela. O diretor Magnus
também pode ser de ajuda para nós, agora eu tenho que ir. Boa sorte, Demi. Se
eu sobreviver, você paga garrafas de champanhe para mim até o dia nascer.
O mundo se refez novamente em matéria sólida, o Ryan
de bits sumiu e o Ryan de carne parecia estar acordando. Como um raio, eu
voltei para minha cadeira na frente dele e encenei uma cena minha me levantando
da cadeira e ajudando-o a se jogar novamente na poltrona. Ele parecia que tinha
bebido vários barris de álcool destilado, de tão bêbado que ele estava.
– Ryan, você está muito bêbado para continuarmos
essa conversa. Eu vou deixar você aqui sozinho e depois nos falamos. – despedi-me
com beijo na testa dele e esperei ele destravar a porta sem que eu precisasse
hackear todo o sistema do complexo. Quando ouvi o som da porta destravando, fui
embora a passos lentos e calmos, sendo conduzida por Mabel.
Na saída, peguei novamente minhas armas e retirei o
micro biochip que implantei na androide, deletando todas as memórias daquela
ocasião e reimplantando a programação original. Claro, fiz um back-up no chip e
fui embora ainda me controlando para não chamar atenção. A lua já ia alta no
céu e eu calculei que deveriam ser mais ou menos umas nove e pouco. Ainda tinha
mais um lugar que eu tinha que ir antes de voltar ao meu quarto e dormir.
Com a pouca força que me restava, caminhei
sorrateiramente até uma parte da cidade mais barra pesada. O mesmo local onde
tinham sequestrado Ryan. Se os Earl Grey sabiam disso, então a garota deveria
se encontrar com eles o quanto antes. Eu só espero ser discreta e que ninguém
note a loucura que vou fazer. Cheguei numa das paredes do beco e olhei bem para
a câmera, antes de pegar uma latinha e grafitar o muro com o símbolo dos
Sofocratas.
– Agora é com você, Kellyanne. Espero que você seja
tão inteligente quanto eu penso que você seja. – disse eu, guardando a latinha
de spray e me encaminhando de volta para a pousada, tentar dormir um pouco e
descobrir como tirar Ryan dessa saia justa.





