sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ahtrim Ayon - Vini Dokkedal - O Lar dos Pilares

Entrar no Hall era uma honra que não deveria ser concedida a mim. Afinal, ali tinham coisas que eles poderiam sentir falta quando eu me for, mas pelo visto Niel confia em mim um pouco mais do que eu consideraria saudável para pessoas normais. E é assim que começa a caminhada para um local onde os bailes são eternos e as asas são delicadas e sutis. Da primeira vez que fui “convidado” para um dos Bailes do Hall, fiquei realmente perdido na quantidade de tesouros e de objetos preciosos que eu poderia adquirir.
Quando cheguei, a porta abriu-se com um rangido que indicava o tempo que levou para outra pessoa que não fosse um anjo pôr os pés naquele lugar. Isso realmente era desapontador. Pensei que mesmo com todas as dicas, os Ladrões ainda são inúteis sem mim e meu time. Quando cheguei ali, havia uma garota e eu a conhecia de vista. As vezes ela visitava locais que eu não me atrevia, e saia viva. Isso era um feito a ser considerado.
– Então você está aqui também? Pensei que Niel tivesse escolhido seus confidentes a dedo. Muito me assusta ele pensar em você como alguém que “merece a incrível honra e responsabilidade de ter acesso permitido no divino Hall dos Anjos.” – eu precisava tirar uma com a cara dela, mesmo sabendo que uma luta aqui me deixaria em desvantagem.
– Como se vossa mercê fosse em absoluto melhor do que eu. Seria evidente a qualquer olho que vê, mas é válido ressaltar que a diferença gritante entre nós e a mesma que pode ser encontrada entre uma poça de chuva miserável e ridícula e um oceano de poder vasto e impiedoso. Portanto, se deseja ainda ter uma cabeça no pescoço, sugiro que você não repita seus comentários indevidos sobre minha pessoa, e retrate-se comigo imediatamente pela sua ofensa anterior. – Emma Vongan era alguém difícil de lidar, com seu temperamento irritável e facilmente provocado. Isso explicava porque ela não tinha muitos parceiros em sua vida, assim como explicava porque eu amava tanto sua ironia refinada e sua falta de paciência. Um perfeito alvo para o bullying.
– Me desculpe, poderia repetir? Acho que dormi enquanto você fazia seu discurso aborrecido. Sinceramente, conversar com você é um desafio interessante, pois a cada palavra, a pessoa corre o risco de dormir e acordar com hipotermia causada pelo seu hálito refrescante. – e esse era o máximo que eu chegaria de provoca-la por hoje. Eu tinha amor ao meu corpo, e sabia que Niel não iria gostar de nós dois lutarmos logo ali. Quando as portas se abriram, eu pude ver em seus olhos a promessa: “mais tarde, bebê.”
Avançamos juntos pelo que deveria ser o Hall em sua forma mais humilde. Lia e Dayse já nos esperavam ao lado de uma figura magrela e alta, quase tão alta quanto eu. Seu rosto mostrava preocupação, mas ele me reconheceu de imediato quando adentrei no recinto, o que o tornou uma massa nebulosa de emoções. Acho que dei um bug no sistema mental do guri. Mas francamente, que esperaria que um Ladrão, um reles humano, poderia causar tanta confusão no Baile dos Cinco e voltar a mostrar as caras para todos? Eu deveria estar preocupado? Com toda a certeza, mas não ia ser divertido morrer de véspera.
Esperei que Niel nos apresentasse para as pessoas presentes e quase consegui ouvir os comentários maldosos de Emma sobre meu manto, ou minha aparência. Ela não era lá uma das mais bonitas também, aquela yuki-onna maldita. Elevei meu ego para ignorar até mesmo os pensamentos do magrelo e me dirigi ao anfitrião:
– Niel, posso ter uma palavrinha com você? A sós?
– Certamente. Vamos ao meu escritório. – o rosto dele expressava seu desagrado com a ideia do que eu poderia querer conversar a sós com ele. Provavelmente ele deveria estar pensando que eu iria pedir guarita por mais algum crime estúpido, como roubar um banco ou contrabandear animais raros.
Subimos as escadas até os aposentos privados de Niel, e ainda esperei que ele abrisse a porta para mim, apenas para irritá-lo levemente. Preferia conversar com ele enquanto ele expressasse emoções sobre mim, porque era muito tedioso ter de compartilhar minhas experiências e pensamentos com uma estátua de resposta inteligente. Uma vez dentro dos aposentos, deixei-o trancar a sala e me lancei em sua cadeira confortável atrás de sua mesa, e coloquei meus pés em cima do móvel, me inclinando para trás e sorrindo ironicamente.
– Suas boas maneiras não melhoraram com as aulas particulares da Ordem? Pensei que vocês fossem ladrões de alto nível, como seu mestre. O que você quer de mim dessa vez? Dinheiro? Mulheres? Diga seu preço, e eu vejo se posso cobri-lo. – o anjo de cabelo prateado e da única asa negra estava bem chateado. Era melhor eu pô-lo a par de tudo rápido.
Pois é, Niel Brokenhawk. Soube que você foi um zero à esquerda durante o Baile dos Cinco. Pensei que o todo poderoso Anjo Negro fosse alguém que pudesse acabar com aqueles Tenebrae bem fácil. Ao invés disso, eu tive que sumir com os pilares da festa e esperar pelo melhor com aqueles malucos do outro mundo. Inclusive, você está mandando um desses malucos para a morte certa em Layan. Sabe tão bem quanto eu que ele não tem o mínimo de treinamento ou força para restaurar as pessoas da cidade antes de Abaddon conseguir o que quer que ele esteja procurando.
– Ora, não seja ridículo! Loo tem todo o potencial e o treino que eu e Dayse pudemos… Espere um minuto. Você está dizendo que roubou os Cinco Pilares que sustentam toda a nossa realidade? Está dizendo que você está em posse dos cinco objetos mais poderosos que se tem ciência da existência e os mantém escondidos debaixo dessa capa? Você é louco? Tem alguma ideia do que sua Ordem pode estar tramando com isso agora mesmo? – Niel surtara, como eu previ.
– Relaxa bem ai, Niel. Eu não sou idiota de confiar na Ordem do Ladrão do Manto Negro para esconder algo tão poderoso quanto os cinco pilares. Por isso, eu os tirei desse plano e os conectei dentro de cinco pessoas do mundo humano. Como nosso mundo está diretamente ligado ao seu mundo, eles serão pilares a longa distância.
Pronto, Niel começou a gritar e fazer um escândalo. Eu pacientemente aguardei até que ele estivesse totalmente refeito do choque. Mas poxa, ele deveria esperar algo assim, afinal, ele disse que deveríamos nos desfazer de algo para conseguirmos novas coisas. Ás vezes, ele é confuso, mas sempre tem razão no final. Olhei novamente para o anjo e decidi por bem, pegar uma bebida. Achei que seria a melhor oportunidade para encher a cara de graça antes de ir na missão suicida. Niel jogou-se na cama e irrompeu em uma crise nervosa, com tremores e choro.
– Ei, não fica assim. Só porque o Tempo, o Espaço, o Destino, a Harmonia e a Fantasia estão dentro de pessoas vivas e com consciência, não quer dizer que deixaram de ser os pilares de sustentação mundial. E outra, foi ele quem indicou essas pessoas, então não teremos problema nenhum. – servi duas taças e entreguei a com maior conteúdo para o anjo. Ele parecia realmente abalado.
– Se isto vazar, você e seu primo serão condenados a fogueira, Vini. Tem noção do quanto isso é grave? Não faz a mínima ideia, né? Como sempre, vocês fazem algo e não tem a mínima ideia do que foi feito que pode afetar os outros mundos e as outras pessoas. Como você acha que isso nos ajuda? Só coloca todos em perigo!
– Niel, eu confio nele. Você também deveria confiar, pelo menos um pouco. Ele nos ajudou tanto no passado e ainda ajuda. E nem ao menos pede reconhecimento. Acho que dessa vez, ele merece todo o crédito. Então, eu tenho que dar uma de fodão agora para me redimir depois.
– Roubando tudo o que sustenta nossa realidade e que torna possível a coexistência dos planos sem que esta dimensão entre em colapso com outras dimensões do multiverso? Se você não for queimado vivo, eu realmente virarei sua prostituta de luxo! – Niel gritava exasperado. Gostei da ideia de ter Niel como meu puto. As riquezas e o poder envolto nisso, me fazia sorrir só de pensar.

– Pois que seja então, Niel. Só vim mesmo lhe dar este aviso. Se quiser algo a mais, além das explicações, sabe meu preço e onde me encontrar. Agora vamos embora desse quarto, meu caro anfitrião. Afinal, é deselegante deixar tais ilustres visitas sozinhas com os convidados. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Ahtrim Ayon - Zien Masashi - Meu Último Baile

        

Quando que tinha apenas meus saudosos 15 anos de mocidade, eu era o membro mais velho da minha família, contudo o mais fraco também. Isso meio que não me importava, pois eu era feliz. Apesar de ser o mais fraco, eu estava sendo treinado diariamente para assumir meu posto como futuro governante e patriarca da Família Masashi. Somos realmente pessoas bem distintas, com traços ainda mais distintos, mas eu acho que eu sou o que parece mais normal da minha família toda. Mas depois eu comento isso, por agora você deve estar interessado no Baile dos Cinco.
Pois bem. O Baile dos cinco é uma ocasião muito divertida que acontece uma vez por ano, e é responsabilidade das cinco Dinastias realizar esse evento tão valoroso para a população. Veja bem, nosso mundo é sustentado por cinco pilares, que consistem em cinco objetos que acumularam e concentraram efeitos mágicos ao longo das eras, em que o criador Periculum se afastou de nós. Nós, Masashi, a família dos Dai Maou somos responsáveis por um desses pilares, e as outras dinastias são responsáveis por outros pilares com outros conceitos. 
Enfim, voltando ao que importa, hoje à noite será o Baile dos cinco, e eu e meus irmãos estaremos prontos para festejar como a vida é boa e como a união e amizade das famílias tem perdurado e há de perdurar ainda mais. Eu estava no meu quarto junto dos meus irmãos Aylan e Harum, vestindo meu terno enquanto Aylan invocava seus serviçais zumbis para vesti-lo e Harum tentava se amarrotar dentro de um terno que apesar de bom no comprimento, ficou exageradamente grande na largura. Sério, meu irmão deve ter uns dois metros, e pesa no máximo 50 kg.
– Acho que esse terno vai precisar de ajustes de última hora. Aylan, pode pedir a algum zumbi dar uns pontos pro Harum? – perguntei eu. Como sempre, ser o cara fraco que não tem poderes sempre tinha a vantagem de que eu terminava de me vestir primeiro.
– Tá bom, mas eu não sei se terá quem alcance os ombros dele – disse o pequeno. Aylan tinha a aparência de uma criança de dez anos de idade, e parecia que ele não cresceria mais que isso.
Alguns zumbis foram invocados e ajudaram Harum a adequar o traje ao seu corpo esquelético. Terminamos de nos vestir, fomos para o quarto das meninas e as encontramos fabulosas em suas vestimentas. Chiru, Dusk e Dawn pareciam que estavam prontas para se encontrar com alguém da realeza de tão belas que se aparentavam. Cheguei no quarto e as convoquei para irmos logo para a Catedral do Baile.
Ao chegarmos no imenso hexágono de cristal leitoso, com teto unido em uma ponta central, entramos para o ambiente mais luxuoso que veríamos no decorrer do ano: paredes de cristal branco leitoso com janelas escavadas cobertas de metal brilhante trabalhado em arabescos. O chão era um mosaico de vários tons de mármore e granito. Do centro do teto, pendiam tecidos que tinham as cores e as insígnias das Dinastias, cinco ao todo. Havia uma fonte feita de taças cristalinas de onde jorrava um líquido espumante que mudava de cor ao ser tocado por mãos humanas, ao fundo tinha uma mesa enorme, com diversos pratos que não paravam de se reencher sempre que esvaziavam, e lado esquerdo, tinha um palanque que servia de palco para apresentações musicais e o centro era uma perfeita pista de dança para quem tinha coordenação motora para isso.
– Nossa, o baile está mesmo mágico esta noite. Eu adorei tudo o que fizeram aqui. – Chiru mostrava seu encanto no tom de voz, e seus olhos brilhavam refletindo o brilho do lugar.
– É, tá tudo muito lindo, mas eu quero comida, e agora eu vou pra mesa do buffet. Se precisarem de mim, estarei percorrendo as delícias culinárias do local. – Harum devia ser magro de ruim, pois comer mais do que ele era impossível.
– Não vá comer demais! – eu tinha certeza que ele não me daria ouvidos.
Entramos no recinto, Dusk com cara de tédio, Dawn com cara de brava e eu com meu sorriso tímido, mas Chiru já estava linda no meio do baila, e tinha encontrado seu melhor amigo de infância: Klaus Brahmani, um garoto de outra dinastia. Ambos já estavam dançando lindamente ao som da música agitada. Eu vi Dusk se afastar para cumprimentar velhos amigos de família, os Morgan Blake. Charlie e Alice estava esperando o primeiro bebê, então eu deveria ter ido cumprimenta-los também, mas preferi ficar no meu canto antes de acontecer alguma coisa.
Dawn repentinamente se juntou ao Harum na mesa de comes e bebes, enquanto um menino extremamente pálido da idade da Dawn a puxou para dançar. Seus cabelos brancos e olhos vermelhos como sangue não mentiam: ela estava dançando com Eli Einslaw. Só vi Dawn se movimentar sorrateiramente até um grupinho de garotas que devia estar amaldiçoando ardentemente minha irmãzinha e sussurrar alguma coisa que fez todas se apavorarem.
– Boa noite, Zien. Tudo bem com você? – perguntou-me um garoto gordinho, que eu reconheci como amigo da Dawn: Solem Arleckrew. – Você viu a Dawn por ai? Ela disse que dançaria uma música comigo.
Coitado do garoto. Minha irmãzinha cabeça quente dançando uma música lenta? Acho que não. Mas decidi não falar nada. Fui apontar para onde ela estava, mas a mesma tinha sumido. Tentei olhar pelo salão, mas só a achei alguns momentos depois voltando da varanda. Achei um pouco estranho ela estar com a cara vermelha, mas tudo bem. Nada demais. Indiquei a direção dela e fui na fonte de bebidas tentar achar algo para me dar coragem. Pelo canto dos olhos, vi um casal muito animadinho sair da varanda depois de um tempo. Chiru e Klaus. Decidi ignorar isso, afinal não é da minha conta.
Depois de um tempo, só vi a convocação de todos os futuros regentes para o Palanque. Comecei a tremer de ansiedade. Podem dizer o que quiserem, mas eu estava apavorado. Sou tímido mesmo, mas subi no palanque com todo o suor do mundo, mesmo naquele clima fresco. Assumi meu posto, e esperei Klaus Brahmani, Solem Arleckrew, Eli Einslaw e Ludmila Roukusou. Quando nos juntamos, pudemos enfim começar o discurso de união das dinastias, completávamos as frases um do outro no improviso para provarmos nossa união e confiança no próximo.
Mas foi ai que alguma coisa deu terrivelmente errado. Eu não conseguia soltar meu pilar ou mover minhas mãos, e isso estava me deixando completamente inquieto. Algo estava realmente errado, e isso se tornou mais evidente quando uma espécie de eletricidade negra começou a sair do pilar de Klaus, infectando todos os outros pilares. Logo nenhum de nós conseguia soltar seu pilar, nem conseguia se mover. Meu desespero foi tamanho que só me lembro de alguma coisa brilhante saindo de minhas mãos enquanto eu gritava alguma besteira qualquer.
Logo, uma força invisível me atirou contra a parede e isso doeu como nunca. Acho que doeu em todos os outros também, pois todos foram atirados por alguma coisa também. Só conseguia me lembrar de os pilares se juntando no tento e girando velozmente, abrindo um portal para algo escuro e sombrio. Queria ter ficado acordado mais tempo, mas algo parecia ter me paralisado e me forçava a dormir. Usei minha força de vontade para me manter acordado, mas me arrependi disso imediatamente.
Um sentimento horrível se instalou no meu peito, como se eu pudesse sentir algo literalmente perfurando meu corpo até se instalar. Quando olhei para o buraco novamente, estava saindo algo de lá de dentro, como uma fumaça negra, mas que emanava algo muito maligno. Só me senti desfalecer por alguns momentos, e em meus momentos out, fui visitado por algo que parecia uma sombra de um rosto, feita de fumaça negra, mas deformada para parecer algo tão assustador e brutal que fez meu coração parar por alguns segundos.
– Então, Zien Masashi. Você ainda tem a vã esperança que esse mundo pode ser salvo. Você testemunhou nosso poder. Nós abrimos um portal para o seu mundo através dos pilares que vocês tanto julgam intocáveis. Se podemos fazer até isso, o que acha que nos impede de matarmos todos aqui presentes e assumirmos Ahtrim Ayon? – sussurrou aquela coisa para mim.
– V-vocês só tiveram sorte. Não existe ninguém que consiga tocar naquela magia sem carregar o sangue da dinastia. Vocês não tem nem como pegar nos pilares, sem nossa ajuda. – eu estava tremendo tanto, estava tão assustado que nem conseguia manter um tom de voz decente.
A coisa riu, e continuou a debochar de mim, demonstrando seu poder abissal. Mas era algo que ia além dos abismos mais profundos que eu já considerava. Era algo realmente maligno, sem nem mesmo uma luz interior, e algo assim só podia vir dos Tenebrae. Uma raça tão antiga quanto a criação dos planos. Ninguém jamais teve poder suficiente para destruir uma civilização inteira, e o único que conseguiu peitar aquelas coisas se foi a muito tempo.
– Vocês não vencerão. Ainda existem pessoas que podem por vocês no cercadinho e fazê-los implorar pela mamãe. E eu vou pessoalmente atrás deles. Vocês verão. Vocês serão exterminados para sempre. – dessa vez, eu fui bravo. Eu consegui me manter firmo o suficiente para fazer aquele Tenebrae vacilar. Esse foi o timing perfeito para jogar uma esfera de plasma do meu recém-descoberto poder nele e quebrar aquele controle mental.
Quando voltei a mim, eu sabia o que fazer, mas precisaria de algum planinauta para me ajudar. Charlie estava perto de mim, e eu vi, várias formas fumacentas tentando matar as pessoas. Todos ali tinha, dificuldade de lutar contra aquelas coisas ancestrais. Eu me levantei, enquanto Dusk e Dawn tentavam inutilmente me proteger, mas algo revirou meu estômago como se dissesse que era melhor eu desistir. Ignorei isso e caminhei até os pilares.
Charlie veio atrás de mim, numa tentativa de me proteger, mas ao me olhar nos olhos, ele soube que eu estava certo e que aquilo precisava ser feito. Ele se transformou em sua forma luminosa e passou a rodear o Tenebrae mestre com uma rapidez assustadora, enquanto eu me concentrava com os pilares e condensava meu poder através deles, até a dor se tornar insuportável no meu corpo. Tudo aquilo recém descoberto era muito imprevisível e eu não sabia como lidar.
Quando finalmente terminei de concentrar tudo o que tinha, vi Charlie preso por garras de fumaça presas nele enquanto o ser soltava uma baforada de sombras em seu rosto, e eu soube que era a hora certa. Charlie deve ter entendido, pois quando eu liberei meu poder, conduzi através do corpo do Charlie e ele quebrou a dimensão ao meu redor, levando tudo com ele de volta para a dimensão dos Tenebrae. Mas esvaziar meu poder teve uma consequência: minha alma ficou presa entre a dimensão dos Tenebrae e a minha dimensão, e só tive tempo de pedir desculpas antes de afundar no leito do esquecimento.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A Dama D'Água

Ao se dar conta estava acordando em uma cama de dormitório, seu corpo parecia perfeitamente bem, isso o surpreender, sem dor no ombro ou joelho, curioso passava a mão por ele todo e sentindo as mudanças, assustado levantou rapidamente da cama, indo em direção do espelho mais próximo, que estava logo a frente, em um banheiro no quarto. Ao se olhar notou que não só sua visão estava perfeita, mais todo o seu rosto e corpo.
Junto com essa sua nova visão a aparência estava mais nobre, como se toda a sua postura tivesse mudado até o seu rosto, que adquiriu traços mais finos e fortes. O seu cabelo brilhava como ouro negro, agora se derramava em seu rosto, de pele limpa, onde traços de espinha não existiam. Valorizando toda a nobreza de sua aparência estava sua íris, que brilhava como ouro liquido, ondulando em tons dourados.
Logo que voltará do banheiro, Raul pôde observar com clareza o quarto em que estava, ele era amplo e com diversos beliches, separados por guarda-roupas. Ele logo achou em sua cama a chave para o seu, que continha roupas, utilidades e uma caixa de madeira. Dentro da caixa havia uma espécie de celular.
Ligando o aparelho ele descobriu o nome dado a tal, “M. Cosmos ID” e passou por p uma série de tutoriais que vinha no aparelho, Raul logo viu que o ID, como havia nomeado, possuía uma plataforma flexível, aliada a opções que faziam os melhores celulares que ele havia avisto parecerem rústicos.
Pela simplicidade do dispositivo que constava com sua tecnologia, Raul aprendeu facilmente a usá-lo, tendo acesso a diversas informações da Academia, como localização dos prédios, horários das aulas e refeições. Segundo eles estavam liberados até o dia seguinte quando começariam as aulas para os novatos.
Perdido lá, resolveu se guiar por seu instinto mais básico, a fome, indo em direção da primeira máquina de lanche que achou no dormitório e devorando uma maçã, um chocolate e uma barra de cereal, que para ele pareceram excessivamente bons.
Com o lanche feito ainda eram 10 a.m, pensou que os outros alunos já deviam estar explorando a academia, então continuou a andar por lá. Ocorreu dele pensar chamar Cecil, porém não tinha noção de onde seu amigo estava. Um pouco confuso com toda a história Raul decidiu sair então para conhecer a academia.
Nunca em toda a sua vida ele havia visto construções como aquelas, elas pareciam exalar magia, seja por detalhes em cristais, símbolos ritualísticos e harmonia com o ambiente, Raul entendia isso com clareza, afinal seu pai era engenheiro civil e sua mãe era arquiteta, então ele foi obrigado a escutar até sua adolescência tudo sobre tais, desde como se projetavam até a coloca-los em pé.
Conforme ia observando as construções, ele observava os estudantes, eles usavam uniformes e insígnias diferentes, assim como possuíam a diversidade de uma instituição Global como aquela e ainda mais mágica por traços únicos entre os estudantes, desde orelhas de animais a chifres. Ao longo ele via que captava alguns olhares, assim como se deixava levar por algumas presenças, que ali levavam magia até em seu andar.
Raul caminhou até achar um lago com água cristalina e profunda, onde parecia ficar já distante da academia, ele não percebeu o quanto havia andado, mais gostou do ambiente e em pensamentos intermináveis sobre a magia, aquele parecia ser um lugar perfeito para começar a usa-la.
Lembrando da apresentação, ele se concentrou como pareceu que os estudantes dela fizeram, fechou os olhos, tentava esvaziar a mente e então expandi-la. Todo aquele ambiente contribuía para isso, ele sentia como se ele fosse o professor aquele lago, que isolado contribuía para sua paz de espirito.
Ainda concentrado ele estendeu a mão, esperando algo, de fogo a raio ele esperava disparar com a sua concentração, assim se focava. Em um momento ele pareceu se dispersar do mundo e se postar perante a um grande tesouro, porém logo foi puxado a realidade. Essa conquista ficou em sua mente, que parecia fazer ele tentar mais animadamente.
O tempo passava e com isso ele sentia mais cansaço , sem nenhum resultado e irritado ele tentou apelar um pouco para os clichês. Logo lembrou de quando era criança e tentava fazer o kamehameha. Isso o empolgou um pouco, o fazendo se concentrar para isso.
– KAMEHAME...- Ele sentiu sua energia fluir, logo se sentia empolgado, de olhos fechados para focar-se.
Quando estavas prestes a falar sua última sílaba ele pareceu acordar, com uma risada um tanto alta, seguida de um comentário.
– Sério que você estava tentando isso? Homens são tão idiotas, isso foi hilário, vai direto para o MagickTube – Com seus olhos azuis como o mar e um cabelo negro e curto molhado, Silena olhava Raul parada em cima d’água com um sorriso debochado.
Ele olhava na direção do lago para encarar a jovem, em sua face estava estampado um misto de espanto e vergonha, que o fazia ficar quase vermelho, enquanto ela o encarava de volta.
– Sim, eles criaram aqui uma versão pirata do youtube para vídeos de magia e sério agora você vai tentar o que? Se for os meteoros de Pégaso eu ao menos apoio – Ela falava de forma brincalhona, enquanto ainda encarava Raul com um sorriso irônico.
Essa situação atingira ele de forma mais intensa que uma surpresa, logo ele mudou a face de bobo, que parecia não saía de seu rosto de forma alguma, para sentir o sentimento de vergonha crescendo e esmagando o peito dele, como se para ele aquilo fosse o lado mais cruel da moeda.
– Ei não apareça assim, quem é você por acaso, o mestre dos magos? - Raul falava, agora com um sorriso sarcástico e sem conseguir esconder a raiva na sua voz. – Não saia por aí fazendo isso, você estava atrapalhando o desenvolvimento das minhas técnicas secretas. Agora terei que me retirar desse lugar – Continuava Raul, desorientado perante a um novo orgulho que sentia agora, antes somente o comentário sarcástico bastaria.
Deixando Silena para trás, ele saiu em um passo rápido em direção da Academia, quando ouviu:
– Até mais Goku – Gritava Silena, parecendo rir mais alto com o deboche.
Oque antes seria só uma brincadeira para Raul o estava inflando como razão de ódio por aquela garota, aumentando seu passo ele tira o celular do bolso, se surpreendendo com a mensagem que aparecera

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ahtrim Ayon - Demetria Scarvenger - O Pedido de Ryan

Algumas vezes, o tempo e o espaço são intransponíveis mesmo que se tente dobrá-los durante uma vida. Outras vezes, basta ter um dom, e eles se curvarão à sua vontade. No meu caso, eu tenho um dom. Um dom que se não for dominado e controlado, pode colocar em perigo todas as pessoas que eu amo. E eu estou disposta a impedir que isso aconteça, custe o que custar. Acho que não nos apresentamos devidamente. Tudo bem, eu vou tentar ser mais educada, e colocar-me como uma pessoa que você pode conhecer.
Você pode me chamar de Demetria Scarvenga. Na língua nativa dos homens, eu sou o que se pode chamar de “planinalta” ou “planeswalker” na versão mais usual. Graças a isso, eu tenho o poder de viajar entre as dimensões. Não, isso não é algo que você possa conseguir com treino e dedicação. Você nasce com esse dom ou morre sem ele. Minha mãe era uma planeswalker, assim como meu avô, meu bisavô e assim por diante. Sim, isso é genético e hereditário, então se você é como eu, você tem alguém da sua família que também é ou foi um planeswalker.
Atualmente, eu estou tentando me situar do que está acontecendo na cidade de Trexter. Bem, Trexter é uma cidade extremamente conhecida por sua formidável tecnologia e seu desenvolvimento no ramo da tecnomagia. Eu estou hospedada na pousada “Forja e Fogo” perto da saída norte da cidade. Por ser afastada do centro e meio pé de chinelo, é relativamente barata. Eu não pretendia ficar mais do que uma semana, mas parece que as questões aqui começaram a exigir minha atenção por bem mais do que sete dias.
Eu tinha ido tomar um banho relaxante para esfriar a cabeça, já que meus problemas eram grandes e poderiam envolver uma guerra civil sem precedentes. Eu realmente não queria que isso acontecesse. Porque, sabe, é chato ter que lidar com pessoas se matando pelos motivos certos, que dirá pelos errados. Quando sai do banheiro e entrei no quarto, percebi um tablet na minha cama. Corri até a porta e verifiquei as trancas. Tudo em ordem. OK, a paranoia estava assumindo. Decidi ver o tablet. Má ideia. Uma mensagem pré-gravada fez-me tomar uma decisão.
Resoluta, eu decidi que tinha que encontra-lo. Se ele sabia mais do que tinha contado na carta, então era imperativo que eu fosse falar pessoalmente sobre o assunto o quanto antes, não importando quem pudesse tentar me impedir. Ryan era um cara super legal quando eu saí daqui, mas atualmente, ele está passando a imagem de um babaca. Pelo menos ele teve a decência de mantar entregar a correspondência no mundo humano. Agora, levanto-me da cama, e me arrumo para possivelmente encontrar um sociopata.
Vesti-me com minha roupa habitual, peguei minha espada, meu escudo e fui para o centro da cidade. Uma das áreas mais nobres possíveis, já que abrigava a Corregedoria de Controle e Manutenção da cidade. Era lá que o Triunvirato mantinha residência. Era o melhor lugar possível para encontrar Peter Hollow, Lucian Folks… E Ryan Vicenzo. Dirigi-me resoluta para lá, certa de que esse obstáculo eu venceria, mesmo que custasse caro.
Chegando à porta, fui até o scanner de corpo e deixei-me ser escaneada, enquanto fazia o reconhecimento de digitais e retina e deixava minhas armas em um compartimento para pegar posteriormente. Uma voz computadorizada chegou aos meus ouvidos dizendo meu nome, meu ID e outras informações menos cabíveis agora. Um crachá foi emitido de um buraco na parede e exibia um logo que ao ser pressionado, mostrava um holograma 3D de mim mesma, com meus dados para confirmação.
– Bem vinda, senhorita Scarvenga! Posso lhe ajudar em alguma coisa? – uma guia loura, esbelta e bem maquiada veio até mim, com um sorriso educado e uma prancheta na mão. – Meu nome é Mabel, sou a androide responsável por guiar os convidados pelo complexo governamental. Diga-me um destino e eu a levarei até lá.
– Leve-me ao escritório de Ryan Vicenzo. – disse eu, sem meias palavras. Odiava aquelas máquinas que só serviam para atrapalhar com seus floreios e rodeios.
– Sinto muito, o Sr. Ryan não deseja ser incomodado. Gostaria de ir a outro lugar?
Só me faltava essa! Agora tenho que lidar com líderes políticos fechados para visitas? Eu mesma que não vou ficar aqui para aturar isso. Peguei um micro biochip de programação avançada e pluguei no local da primeira vértebra da coluna cervical. Assim que o fiz, o chip se liquefez e adentrou na pele falsa, fazendo os olhos da mesma revirarem. Com um sorriso satisfeita, olhei para ela, agora sob meu comando.
– Leve-me ao escritório de Ryan Vicenzo, agora mesmo! – repeti, demonstrando urgência e autoridade na voz.
– Certamente, mestre Scarvenga. – a androide começou a me guiar pelo complexo, desativando protocolos de segurança e explicando a situação da forma mais racional possível para os seguranças robóticos e não-robóticos.
Levou menos de dez minutos para que eu estivesse na porta do escritório dele. Após três leves batidas, a voz de Ryan permitiu a entrada e a porta se destrancou, permitindo que eu entrasse no escritório. Controlei a ansiedade crescente dentro de mim e comecei a pensar em como enfrentar a criatura à minha frente. Com um suspiro, adentrei no escritório de cabeça erguida, pronta para encarar o monstro.
– Por favor, deixe o que veio entregar e vá embora. Tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar ouvindo suas lamúrias. – a voz entediada de Ryan falou com um aceno despreocupado, de costas para mim em sua confortável poltrona de espaldar alto.
– Infelizmente para você eu não vim deixar nada. Eu vim atrás de você em pessoa, Ryan. Preciso saber o que está acontecendo com você. Você não é mais o mesmo e isso me preocupa. – sentei-me na poltrona de convidados, do outro lado da larga mesa de mogno escuro decorada com miniaturas dos projetos dele. Peguei um que me empolgava especialmente quando ainda éramos crianças e dei corda.
O giro da cadeira dele foi lento e preguiçoso, como um leão comendo a caça trazida pelas suas leoas. Eu realmente me senti como um pedaço de carne sendo abatido. Olhei para aquele cabelo castanho brilhante que me fascinava quando criança. Aquela boca rosada, aquele rosto triangular e pálido, os olhos tão castanhos que eram calorosos, mas hoje só emanavam frieza e vazio.
– Demi. Você por aqui? Pensei que tinha ido embora quando concluiu a formação no IPCEDA. Veio me visitar com que intuito? Matar a saudade de mais de dez anos que tem ficado entre nós? – o tom ácido nas palavras dele assustou. Aquele decididamente não era o Ryan que eu conhecia.
– É, Ryan, eu vim aqui pra te dar um abraço, um beijo e um pedaço de queijo. Só porque eu posso viajar entre as dimensões e você não. Sou tão sua amiga que vim atrás de você para te entregar uma pedra da lua quando estive por lá. Vamos parar com as formalidades, pois tenho assuntos sérios a tratar. – rebati eu com a mesma acidez e sarcasmo que ele usara.
O projeto de esferas gravitacionais ainda tinha corda quando ele digitou um comando na mesa, e trancou a porta, e desativou todo o sistema de segurança e vigilância da sala. A partir daquele momento, eu estava completamente isolada do mundo e de qualquer forma de vida que não fosse o Ryan. Isso conseguia ser mais assustador do que viajar para um plano desconhecido e enfrentar criaturas tenebrosas.
Com um dedo, Ryan parou uma das esferas e fez o sistema de gravitação perfeita entrar em colapso, desativando o protótipo. Ele me olhou profundamente, como se analisasse o que deveria me contar e o que deveria omitir. Com um suspiro, ele se levantou da poltrona e seguiu até um armário de cristal esculpido, onde pegou uma garrafa e dois copos cristalinos.
– Apesar de tudo que estão dizendo de mim por ai, eu não sou mal-educado a ponto de esquecer o costume de brindar o retorno de uma velha amiga. – ele pôs um dos copos a minha frente e serviu ambos com um liquido rosa espumante. Não pude evitar sorrir ao ver aquilo. – Champanhe de Cereja. Você costumava me aporrinhar a paciência o tempo todo por isso quando criança.
– Nem vem, você era tão criança quanto eu. – peguei o copo de champanhe e brindei com ele, aos velhos tempos, onde as crianças podiam brincar e beber champanhe de cereja sem álcool como se fosse refrigerante.
Foi aí que as coisas começaram. Ryan bebeu tudo em uma golada só, e ao fazer isso me olhou orgulhoso, como se isso provasse alguma coisa. Eu dei alguns goles, saboreando a bebida e vi meu antigo amigo revirar os olhos e cair no chão completamente nocauteado. Foi quando o mundo começou a não fazer mais sentido. Tudo o que eu via, era formado por bits. E onde estava o Ryan, agora eu via uma massa de dados escurecida.
– Essas coisas ainda precisam de muito pra chegar perto do verdadeiro. – olhei ao redor procurando de onde vinha aquela voz no meio daquele caos de dados. O que eu vi foi a sombra de um homem. Ryan estava ali, feito de bits como resto do mundo, porém mais humano do que até mesmo eu. – Oi, Demetria.
– Ryan? Mas como…? Porque…? O que…? Explicações são bem vindas, sabia? – levantei-me da cadeira, já refeita do choque. Cheguei mais perto do Ryan de pixels e tentei tocá-lo, só para que ele se desfizesse em dados e se remontasse.
– Agradeceria se não fizesse isso de novo. Dói, sabia? – disse ele, com o que eu supus que fosse um sorriso. Com certeza esse era o MEU Ryan. – Eu estou preso em um lugar chamado Cyberzona, e meu tempo está se esgotando. No dia que eu fui sequestrado, fizeram algo comigo para me trancar aqui. Lawliet não consegue abrir um portão para o mundo normal e eu estou aqui quase morrendo. Essa pessoa que você viu no meu escritório, é um clone que fizeram de mim para destruir minha reputação e incitar uma revolta na cidade, criando caos e guerra. Os responsáveis por isso, eu ainda não sei quem são, mas a guerra civil provavelmente vai ser responsabilidade dos Earl Grey. Lawliet disse que tem uma garota dentro do Instituto que pode nos ajudar, seu nome é Kellyanne. Você precisa entrar em contato com ela. O diretor Magnus também pode ser de ajuda para nós, agora eu tenho que ir. Boa sorte, Demi. Se eu sobreviver, você paga garrafas de champanhe para mim até o dia nascer.
O mundo se refez novamente em matéria sólida, o Ryan de bits sumiu e o Ryan de carne parecia estar acordando. Como um raio, eu voltei para minha cadeira na frente dele e encenei uma cena minha me levantando da cadeira e ajudando-o a se jogar novamente na poltrona. Ele parecia que tinha bebido vários barris de álcool destilado, de tão bêbado que ele estava.
– Ryan, você está muito bêbado para continuarmos essa conversa. Eu vou deixar você aqui sozinho e depois nos falamos. – despedi-me com beijo na testa dele e esperei ele destravar a porta sem que eu precisasse hackear todo o sistema do complexo. Quando ouvi o som da porta destravando, fui embora a passos lentos e calmos, sendo conduzida por Mabel.
Na saída, peguei novamente minhas armas e retirei o micro biochip que implantei na androide, deletando todas as memórias daquela ocasião e reimplantando a programação original. Claro, fiz um back-up no chip e fui embora ainda me controlando para não chamar atenção. A lua já ia alta no céu e eu calculei que deveriam ser mais ou menos umas nove e pouco. Ainda tinha mais um lugar que eu tinha que ir antes de voltar ao meu quarto e dormir.
Com a pouca força que me restava, caminhei sorrateiramente até uma parte da cidade mais barra pesada. O mesmo local onde tinham sequestrado Ryan. Se os Earl Grey sabiam disso, então a garota deveria se encontrar com eles o quanto antes. Eu só espero ser discreta e que ninguém note a loucura que vou fazer. Cheguei numa das paredes do beco e olhei bem para a câmera, antes de pegar uma latinha e grafitar o muro com o símbolo dos Sofocratas.

– Agora é com você, Kellyanne. Espero que você seja tão inteligente quanto eu penso que você seja. – disse eu, guardando a latinha de spray e me encaminhando de volta para a pousada, tentar dormir um pouco e descobrir como tirar Ryan dessa saia justa.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ahtrim Ayon - Satsuki versus A Raposa

Aparentemente, Satsuki não era a pessoa mais habilidosa com animais naquela região. Isso ou ela tinha libertado um espírito furioso, antigo e poderoso que seria capaz de matar todos que estivessem por perto. Não, com certeza ela apenas não tinha habilidade com animais. Com um cajado na mão direita e um escudo na direita, a garota tentava domar aquela coisa enorme que vinha em sua direção. Correndo nas quatro patas, com nove caudas balançando ao vento, boca espumando vermelho e olhos brilhando com um azul frio assassino. 

O Nogitsune cercou-a, com aquele olhar terrível, parecendo dois globos cheios de fogo-fátuo. Era como se um estudasse ao outro, tentando descobrir as fraquezas e as fortalezas do outro. Tinham certeza que o mínimo movimento errado, e quem quer que estivesse atento, levaria a vantagem que seria fatal. Satsuki parecia ter sido consumida pelo horror. O pelo cinzento da raposa-demônio, aqueles leves rosnados de nojo, tudo aqui contribuía para a menina se sentir como se estivesse próxima do seu ultimo combate.

- Você é forte, sacerdotisa. Eu realmente tenho que admitir, você está me cansando mais do que eu pensei que conseguiria - grunhiu o Nogitsune, com maus modos. Satsuki sentia a instabilidade da situação. Precisava fazer aquele demônio voltar para seu cajado antes que a situação se tornasse irreversível.

A raposa avançou para abocanhá-la, mas a menina era ágil e desviou para o lado com um rolamento. A garota aproveitou o momento de distração e tentou aplicar um golpe com o cajado nas costelas da adversária. Um ganido escapou da boca do demônio e a menina aproveitou esse sinal para investir com mais ataques, girando o cajado em suas mãos, tendo bom aproveitamento do comprimento da arma e do poder espiritual que a mesma possuía contra aquela criatura.

Apesar do monstro ter levado vários golpes, ele não era tão fraco como quisera fazê-la acreditar. Com uma agilidade surpreendente, a criatura se pôs afastada do alcance do cajado e soltou um grunhido que poderia ser reconhecido como um riso de escárnio em outros tempos, entre seus semelhantes. Com os dentes a mostra, a raposa eriçou todas as caudas e soltou um fogo índigo que não parecia ter calor, mas era muito doloroso. 

Antes que a menina percebesse, seu escudo e seu cajado estavam longe e agora ela se encontrava paralisada pela agonia e ouvia as passadas silenciosas do Nogitsune na grama seca. De alguma forma, ela sabia que não sairia viva dali. Sua vida tinha sido breve e fugaz, e agora iria morrer de alguma forma brutal para um espírito maligno que ela pensara ter condições de controlar. Quando viu o Nogitsune perto dela, tentou se arrastar para longe, mas não conseguia se mexer de maneira alguma.

- Você não vai a lugar nenhum, querida. Você perdeu contra mim, e sabe meu preço. Você me pagará com sua vida! - Satsuki sentiu a dor dos dentes e das garras percorrendo seu corpo, consumindo sua carne, seu sangue e suas vísceras como se fossem um banquete. A dor era tanta que ela queria desmaiar, mas a misericórdia não existia ali. Quando a criatura se fartou, deixando um restolho como corpo para ela, Satsuki viu seu rosto com olhos de fogo-fátuo. 

- Não se preocupe, jovem sacerdotisa. Eu gosto de usar a aparência de minhas vítimas por um tempo, até arrumar uma nova vítima. Mas ainda tem uma coisa que eu quero fazer com você. - A garota viu seu cajado voando até as mãos do monstro, e ele não era afetado pela energia do mesmo. O demônio levantou-se, empunhando o cajado e olhando para ela com um sorriso sádico e desferindo um golpe em sua cabeça, esmagando seu crânio e sua esperança de viver mais um dia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ahtrim Ayon - As Lágrimas de Lumiel

Lumiel estava ficando esgotado. Parecia que quanto mais derrotava aqueles capangas, mais eles surgiam, como formigas saindo de um formigueiro para matar o que quer que fosse seu inimigo. No caso, ele não era um inimigo, e eles muito menos eram formigas. Arfando, curvou o corpo para frente, apoiando-se na lança. Sentia um cansaço aterrador, e sua visão começara a embaçar.
Ouviu os passos de novos asseclas de Abaddon correndo em sua direção, provavelmente carregando mais daquelas seringas com líquido preto. Quantas agulhadas com aquele troço ele já levara? Dez? Quinze? Mais de vinte? Quem sabe. Seu corpo registrava apenas um cansaço sem fim, percorrendo suas veias, enquanto os homens envoltos em togas púrpura esfarrapadas. Lumiel sentiu sua lança sendo tirada de suas mãos e arremessada ao longe.
Mãos indelicadas o seguraram grosseiramente e puxaram seus cabelos para que olhasse para o altar. Seus dois irmãos estavam lado a lado com o altar entre eles. Cada qual dentro de sua prisão energética, tentava se libertar desesperadamente, e tudo o que conseguiam, era gastar suas forças sem retorno. Era uma situação desesperadora, onde ele não sabia o que fazer para salvar a todos.
- Finalmente estamos face a face. Esse dia demorou, mas agora você está em minhas mãos. - grasnou uma voz pavorosa, surgindo do altar arrepiando os pelos da nuca de todos os presentes. Abaddon se anunciara.
- Você nunca terá o que procura em mim. Eu jamais servirei ao seu propósito. - respondeu Lumiel, com sua voz meio grogue e cansada. Ele parecia estar lutando contra algo que mais ninguém via.
- Você não terá luta. Você não terá querer. Você só terá a mim, quando acabarmos de nus unir. Nossa união será indestrutível, e tão poderosa que ninguém nesse ou nos outros mundos ousará nos desafiar! Eu finalmente terei o poder infinito! - rugiu o altar. De seu centro, algo começou a vazar. Parecia um tipo de catarro gosmento preto, com um leve reluzir púrpura.
A gosma surgia do altar, como se fosse uma fonte para aquela matéria fétida e nojenta. Em pouco tempo, a gosma estava escorrendo do altar e descendo as escadas como um piche fedorento. Os irmãos de Lumiel gritavam e batiam nas paredes de suas barreiras, tentando quebrá-las e salvar o jovem. Tudo isso parecia cada vez mais inútil diante daquela presença. Abaddon continuou avançando, até estar diante de Lumiel, como uma grande poça de piche rodeando-o.
- Juntos, seremos o ser mais poderoso que o multiverso já viu. Veja, o poder absoluto está diante de você. Pegue-o, e vamos governar o mundo e além! - Abaddon queria fundir-se ao garoto, com tudo o que podia querer.
- Se você deixar os meus irmãos e minha família em paz para sempre, eu me junto a você! - mesmo nessas situações, o menino só pensava no bem estar daqueles que amava.
Se aquela massa disforme tivesse rosto, Lumiel poderia jurar que Abaddon tinha sorrido. O piche criou tentáculos e avançou no jovem, consumindo seu corpo, enquanto se fundia como um simbionte. Lumiel se sentiu consumido pela maldade e corrupção que residia naquela gosma infame, e quando menos esperou, sentiu que estava fora do corpo. Viu que Abaddon tinha expulsado sua alma de seu corpo, e agora encarava-o com olhos vazios e mortos.
- Agora que já tenho seu corpo, sua alma só irá servir para mais uma coisinha: me alimentar! - com um movimento das mãos, Lumiel sentiu sua alma se transformar em pó e ser sugada como alimento por aquele monstro em forma humana. - Obrigado Lumiel. Farei bom uso de seu rosto! - e com uma risada maligna, a consciência do garoto silenciou para sempre.

Ahtrim Ayon - A Ambição de Cecil

Cecil sempre fora conhecido por sua inteligência espantosa e habilidade de estudar as coisas, mas nada na vida tinha sido tão desafiador quanto aquele grimório. Existia algo sobre aquelas páginas que ele não conseguia deixar de temer. As forças escondidas ali eram suficientes para que outras pessoas o desaconselhassem de estudar, mas ele era persistente (ou teimoso, tanto faz).
Faziam meses que ele dedicava sua vida noturna a estudar aquelas páginas e toda noite, acabava por amaldiçoar o avô por não ter deixado instruções claras de como ler aquele maldito livro. Queria ele que pelo menos uma vez, seus olhos lessem perfeitamente as palavras e seu cérebro decodificasse a escrita, traduzindo perfeitamente o que estava ali. Soltou um longo bocejo antes de virar a página, esgotado pela leitura de três parágrafos.
- É inútil. Mesmo depois de vários meses, eu não consigo descobrir nada de você. Parece até que você não quer que eu te desvende. Você deve estar me enlouquecendo, porque eu estou falando com um grimório de mais cem anos. - Cecil pensava alto, tentando entender o que significava as palavras na oitava página. Parecia loucura, mas essas oito páginas eram os rendimentos de vários meses consecutivos de sono perdido.
Porém, dessa vez, algo diferente ocorreu com o grimório. As páginas voltaram até o início, até a página onde estava escrita em tinta negra, as palavras "Este diário pertence à Calisto Corleone". Um arquejo escapa dos lábios de Cecil, pois ele conseguira ler sem nenhum problema uma das frases do livro. Mesmo sendo uma das que ele nunca tenha dado atenção, ele conseguira ler sem nenhum problema e isso era o que contava.
A página virou e ele continuou conseguindo ler o que estava escrito nas páginas, com a mesma facilidade de antes. Era como se todo o trabalho duro e esforço estivesse sendo recompensado com a revelação de um segredo incrível. O menino estava maravilhado com o que estava lendo, finalmente descobrindo alguns segredos, que se decodificavam diante dele. Parecia a visão do paraíso, que se abria para ele majestosamente.
- Você não deveria estar lendo esse livro especificamente. Ainda é muito novo para isso, Cecil - sussurrou uma voz, vinda de dentro do livro. Apesar de ser um sussurro, era audível, forte, intenso e austero. O menino, porém, estava tão vidrado nos segredos que lhe eram revelados, que ele não se deu conta ou não ligou para o que a voz falou. Não se ocupou nem em dar uma resposta decente.
- Cecil! Preste atenção quando seu avô falar com você! - repreendeu-lhe a voz, enquanto as páginas viravam, revelando novos segredos. O garoto nem piscou, mas respondeu com um grunhido qualquer. Estava absorto naquelas revelações, de tudo o que pensava que sabia ou que achava que conhecia.
Uma luz dourada começou a emanar das letras do grimório e inundou o cômodo mal-iluminado e simplesmente decorado. Cecil estava tão vidrado no que o livro lhe contava, que não percebeu que começara a flutuar com o livro a sua frente, virando a página lentamente para lhe revelar mais segredos ainda. O garoto sentiu uma mão tocando em seu ombro esquerdo e apertando, mas não tirou os olhos do livro. Aquele toque gélido parecia aterrador, mas Cecil sabia que não seria machucado.
- Está na hora de parar com isso, garoto. Conhecimento é uma arma poderosa, e nem todos os mortais como você, estão capacitados a obtê-la. - disse a voz do homem, tentando despertar o menino de seu transe. Nada se provava efetivo.
- Eu quero conhecer mais. Eu quero saber tudo. Eu quero saber ainda mais sobre tudo mesmo depois de saber o máximo! - disse o menino, com os olhos brilhando de tanta felicidade. Mal sabia ele do perigo. Sua cabeça absorvia cada vez mais conhecimento, tornando-o cada vez mais sábio e consciente do mundo à sua volta. Mas tudo tem um preço.
A cabeça de Cecil começava a latejar com uma dor chata, que se fazia presente na testa, como se sua visão estivesse reclamando da luminosidade. Mas ele não ligou para a dor. Ele queria apenas mais conhecimento, mais sabedoria e inteligência para viver. Sua busca não o levaria para a glória eterna, como ele descobriria em pouco tempo. Sua cabeça começara a doer para realmente incomodar. O menino tentou relevar, mas a dor não permitiu.
- Eu lhe avisei, Cecil. Conhecimento é a arma mais perigosa de todas, e você não estava pronto para ela. Sua mãe nunca esteve e agora, você também nunca estará - falou a voz, com desgosto e amargura.
- Faça parar! Eu lhe imploro, faça parar! - gritava Cecil, tentando desviar o rosto, fechar os olhos, qualquer coisa. Seus olhos estavam tão grudados na direção do livro que nada disso era efetivo.
- Sinto muito, meu neto. Você está sozinho. - e com isso, o velho se foi, deixando o garoto sozinho no quarto.
A dor dentro de seu crânio era insuportável. Parecia que seu cérebro estava sendo esmagado como massa de modelar. O garoto se recusava a emitir um único som que fosse, mas chorava pela dor abusiva que sentia. E não conseguia fechar os olhos, nem parar o fluxo constante de informações que chegava na sua cabeça. A tortura se prolongou até o momento que o menino soltou um grito de agonia horripilante, e caiu no chão, com os olhos abertos e vidrados, com um líquido cinzento escorrendo pelo nariz, boca e ouvidos. O excesso de informação tinha derretido o cérebro do menino. O grimório se fechou e flutuou de volta à mesa, como se nada tivesse a ver com aquilo.

Ahtrim Ayon - Sophie e o Rosto do Abismo

Sophie estava confusa. Tinha acordado extremamente cedo aquela noite para nada? Os Mazashi eram uma família séria, e não se dispunham a brincadeiras. Se a tinham chamada àquela hora imprópria no comando, a garota estava certa de que boa coisa não seria. Ainda sonolenta, a ela caminhava pelo ambiente marmorizado e ricamente decorado do Comando, tentando colocar na mente que tudo estava bem e que não seria nada grave.
Ao chegar na sólida porta de carvalho escuro, a jovem deu um três leves batidas com a aldrava de ouro branco polido. Aquele lugar fora assustador quando mais nova, mas agora eram apenas belos, frios, distantes e familiares. A porta se abriu rangendo e a arrancou de sua nostalgia. Recompôs o rosto concentrado e espantou o que restava do sono, e entrou na sala, saudando educadamente seus superiores.
Permitiu-se um segundo de surpresa. Os Mazashi tinham reunido toda a cúpula dos grandes ali, e a tensão era tão poderosa que a Sophie sentiu encurvar-se alguns centímetros. Ela detectou os guardiões mais proeminentes de cada família vassala: Johnny Raven, guarda costas pessoal de Chiru Mazashi; Jack Reghier, comandante da inteligência dos Mazashi; Sparrow Frey, o guardião de Aylan Mazashi; e mais alguns dos poderosos que ela não conhecia. Sophie sentia-se minuscula por ser inferior a todos em poder, mas ser a familiar da matriarca da família, Lilian Mazashi.
A mesma se encontrava ali, e sorriu ao ver que a jovem garota estava um pouco desconfortável com a presente situação. O marido dela, Hellser Mazashi estava concentrado, fazendo um símbolo na mesa de reunião, que a ela reconheceu como sendo um feitiço de observação. Até mesmo o herdeiro estava ali, Harum Mazashi. Eles eram muito amigos, mas nesse momento, ele parecia sério e concentrado, então não quis falar com ele. O que quer que fosse, era muito mais importante que a amizade.
- Finalmente - clamou Hellser, quebrando a tensão e assustando alguns dos presentes - Senhores, creio que já nos demoramos demais. Vou explicar a situação a vocês sem mais delongas. Um antigo inimigo, que nossa família selou a muito tempo está voltando para esse mundo.
"Não falamos seu nome, mas todos aqui sabem a quem estou me referindo. Ele foi o responsável pela nossa quase extinção. Duvido que algum dos presentes queira passar com isso, então eu estou reunindo apenas os meus servos de maior confiança para interceptarmos a ameaça e selarmo-as de novo bem longe de nós. Esse feitiço irá nos mostrar a localização exata dele, para que possamos ir contra-atacar. Estejam preparados, pois assim que soubermos, deveremos partir"
Sophie estava completamente abismada. Ele estava voltando? Tudo o que ela ouvira foram histórias, e em todas elas, nunca terminara bem quando Ele encontrava outro que estava ligado aos Mazashi. Seu padrinho contara para ela tudo o que sabia, e sua mãe a mantivera a salvo dos pesadelos quando seu pai morreu. Mas agora era real. Tão real, que ela estava se tremendo. Forçou o auto-controle em si mesma. Não podia perder a cabeça nesse momento crítico. Hellser já começara a entoar os cânticos de ativação do feitiço, e ela precisava se preparar para reconhecer o local e partir.
Porém, alguma coisa começou a dar terrivelmente errado. Hellser já não conseguia controlar o feitiço com seus cânticos, e raios negros começaram a sair do símbolo desenhado na mesa, atingindo as paredes e deixando marcas pretas de fuligem. Um cheiro forte de ozônio começou a tomar conta do ar, e outra fragrância, ainda mais inebriante, porém mais fétida. Ela sabia o que estava por vir, e seu primeiro instinto foi se interpor entre o que quer que estivesse saindo do símbolo e sua protegida para a vida toda, Lilian.
Uma risada de congelar o sangue varreu o aposento e uma forma feita de pó negro e uma espécie de gosma começou a se formar, criando um perfeito manequim de corpo humano. Sophie sabia o que era aquilo, e seu coração parou por alguns momentos. Estava diante do maior horror que um Mazashi já tinha enfrentado. Quase sentia seu peito sendo oprimido pela pressão mágica. Os raios negros ainda iam soltos, acertando tudo o que podiam, deixando marcas pretas de fuligem nas paredes alvas.
- Você! Como? Quando foi que você chegou aqui? Isso não é possível! - gritava Hellser, com seu poderoso fogo em prontidão, disparando jatos poderosos contra o inimigo. Inútil. Nada funcionava. Aquela coisa estava ali e não estava ao mesmo tempo. Nada acertava, nem mesmo o fogo infernal de seu senhor.
- Eu nunca cheguei aqui. Você que queria me ver, e agora está me vendo. - retrucou a forma, com uma voz que pareciam unhas num quadro negro. Os ouvidos de Sophie estavam próximos do sangramento, e todos na sala congelaram quando ouviram aquilo. Eles o tinham trazido por meio de um simples feitiço de observação? Isso era impossível. Mas Ele estava ali, vivo e "sólido".
Os raios negros começaram a acertar algumas pessoas. Sortudos como Jack, Johnny e Frey se salvaram, mas quem era atingido por aquele poder absurdo, começava imediatamente a derreter como se tivesse sido exposto ao calor de milhares de sóis. Zoe viu várias pessoas que conhecia e respeitava derreter como um sorvete num dia quente. O cheiro de corpos queimados estava começando a queimar seu nariz e fazer seus olhos lacrimejarem. Hellser estava lutando com todas as forças, e Lilian parecia ter entrado em transe.
A garota ainda viu Harum ser retirado aos gritos de protestos pelos poucos sobreviventes da sala, enquanto o pai lutava pela vida e a mãe continuava em estado vegetativo. Até a hora que a "Sombra" virou-se para ela e sorriu. No minuto seguinte, Sophie viu estacas negras indo em direção dela. A única coisa que ela ainda tinha a fazer, era se proteger. Com seu poder, invocou uma barreira contra as estacas, mas o poder daquele monstro era abissal.
Só ouviu o som de vidro se rachando e percebeu a dor excruciante percorrendo seu corpo, enquanto Hellser gritava seu nome. As estacas tinham quebrado sua barreira como se fosse feita de papel-seda. Ela não conseguia se mover, mas seus olhos voltaram-se diretamente para o rosto sem face e viu o reflexo de um rosto. Ela arregalou os olhos por ver aquele rosto, sentindo o choque e a traição mais forte do que a dor. O rosto dele ficou gravado em sua mente quando a ultima estaca perfurou sua testa e obscureceu sua visão para sempre.

Contos de Ahtrim Ayon

Ahtrim Ayon - Sinopse

Já imaginou que louco seria se você tivesse a habilidade secreta de viajar entre os planos do multiverso? Pois é, creio que não. Poucas pessoas passam seu tempo imaginando como seria a própria vida caso pudesse apenas estalar os dedos e estar em um lugar diferente a cada dia, independente e livre. Espera ai, agora você se interessou? Quer entrar nesse mundo? Bem, eu também quero entrar. Acontece que somente algumas pessoas tem isso, como você vai acompanhar na história. Se está lendo isto, já deve ter lido sobre "A Morte de Sygin", e se não leu, clique aqui.

Sim, em outros mundos, você pode encontrar criaturas como aquelas. Então é preciso ser corajoso para dominar esse poder, aprender as artes místicas e entrar em combate. Se você está certo de que tem essa capacidade, então venha. Eu lhe conduzirei por esse novo mundo, te mostrando tudo o que você precisa saber, e também te contando a história de importantes planinautas que marcaram esse e outros mundos. Você está pronto? Quer embarcar nessa viagem? Então venha comigo, e não se preocupe. Não vai doer... Muito.

Ahtrim Ayon - A Morte de Sygin

Sygin corria que nem uma louca, apavorada do que quer que estivesse perseguindo-a. Aquele monstro tinha matado toda a equipe da elfa com uma facilidade tão assustadora, que ela própria estava considerando que o destino mais fácil era se entregar para a morte. E como se não tivesse amanhã, ela corria, cada vez mais rápido, querendo se distanciar o mais rápido possível do louco sanguinário.

O som da floresta estava ressonando em seus ouvidos, num silêncio tão profundo que pareciam notas musicais. A garota estava esbaforida e ofegante, mas estava aliviada por ter certeza de que estava longe daquele massacre. As cenas ainda estavam frescas em sua memória, como o sangue estava em suas roupas, ensopando seu corpo. O cheiro de morte tinha grudado fundo em sua pele, em seu cabelo. Sygin sentia seu interior se estilhaçando com a potência assassina daquele monstro. Desesperada, a menina sentou no chão e começou a chorar compulsivamente, soluçando de desespero.

O escuro ajudava a encobrir as lágrimas brilhantes, que escorriam pelo seu rosto, se misturando ao pó, o sangue e sujeira de guerra. A elfa sabia que continuar ali era um pedido explícito para a morte, mas ela estava tão cansada. E tinha colocado uma distância enorme de onde estava até o campo de batalha. Não queria pensar naquilo, mas os gritos ainda ecoavam em sua mente, assim como o rasgar de carne, e o som do sangue espirrando. O cheiro podre de morte, e o "rosto" dele. Se é que se pode chamar aquilo de rosto.

Tentando retomar o equilíbrio e a força de vontade, Sygin se levantou e enxugou as lágrimas que teimosamente ainda tentavam escapar da contenção de seus olhos. Com o auto-controle reforçado, a garota tentou prosseguir com sua viagem, mas algo chamou a sua atenção. Não era bem um som, mas sim a falta dele. Até a floresta silenciosa, que antes tinha um que de acolhimento, agora estava com uma clara intenção assassina e ameaçadora. Assim como ele.

Com toda a sua força de vontade, Sygin se preparou para a ultima batalha. Sabia que não tinha força para mais nada. Se sentia esgotada, tanto física quando mentalmente. Não conseguia lançar mais magias, e seu arco tinha ficado longe, assim como as flechas. Ela encararia seu destino na unha. Respirando fundo, ouviu atentamente, para ver onde vinha aquela ameaça e encontrou um leve ruído. Virou-se com toda a coragem para encarar um esquilo. Momentaneamente confusa, permitiu-se aliviar-se do medo que estava sentindo, e decidiu que estava ficando paranoica.

Porém, quando se virou para encarar o caminho de partida, seu coração quase parou. Arregalou os olhos para o sorriso psicótico que se encontrava à sua frente, envolto por uma armadura de metal pesada, e um manto vermelho em farrapos, fedendo a cadáveres, e o capacete ocultando a face do demônio. Com um passo assustado para trás, ela tropeçou e viu que o mesmo flutuava alguns centímetros do chão.

Com o coração aos saltos, ela viu o horror ensanguentado estender a mão em direção a ela, até que ele segurou o rosto da elfa com sua mão direita e aproximou a boca do ouvido da mesma. Sygin estava gelada como um ice berg e tremia mais do que se é possível pensar. Quando o mesmo estava tão próximo para que o fedor de sangue fizesse os olhos da garota arderem e lacrimejarem, ela ouviu apenas um único som.

- Kushi!



O grito de Sygin varreu a floresta, como se a mesma estivesse recebendo as dores do inferno no próprio corpo. Ninguém jamais soube exatamente o que aconteceu com ela, mas no nascer do sol, alguns viajantes estavam passando pela estrada e encontraram as poucas partes reconhecíveis da garota. Os boatos do Horror Ensanguentado percorreram inúmeras cidades, contando como ele matara Sygin Collaerium, a última descendente da mais nobre linhagem de elfos.