domingo, 29 de março de 2015

Ahtrim Ayon - Miyazaki BlackFox - Uma conversa interessante

 Miyazaki sentia a irritação e o medo lhe consumindo. Seus sentidos de Kitsune lhe avisavam que possivelmente haveria uma catástrofe na guerra. Guerra esta que não precisaria ocorrer se a idiota da Thaisa não tivesse resolvido libertar o lobo burro. Fenrir BlankLycan. Esse ser já tinha causado problemas demais ao se envolver com Miku, a que deveria ser a herdeira dos BlackFox e levá-los a uma era de poder e supremacia. Quem sabe eles finalmente ascenderiam à Dinastia sob a liderança dela. Tudo por água abaixo, por causa de um cachorro burro.
Irritado demais para qualquer tipo de meditação, ele decidiu interrogar o prisioneiro mais uma vez. Mesmo que fosse inútil para conseguir mais informações, pelo menos ele poderia desestressar-se com o traidor. Angelinus Bittencourt. Aquele maldito poderia ter ficado do seu lado quando lhe pediu para ficar de olho em sua neta, mas ao invés disso, ele a abençoa com dons antigos e a leva até o túmulo de Fenrir. Levantando-se, pôs-se a andar pela mansão que era o templo BlackFox, sempre em direção das celas de contenção.
E sempre que chegava nesse local, seu estômago se revirava. Sempre fizera o maior e melhor dos esforços para que ninguém interferisse nos desejos dos BlackFox ou dos Brahmani. Sempre fora um servo fiel, eliminando qualquer ameaça a qualquer um dos seus iguais ou superiores, como um verdadeiro protetor. Os cadáveres dos seus inimigos ainda jaziam em suas celas para servir de exemplos aos que viriam futuramente. Então ele não podia limpar a sujeira das celas, para que o aviso permanecesse.
Ao entrar na cela de Angelinos, o fedor de urina e sangue seco atacou suas narinas com força, enquanto a massa disforme de carne ferida e imobilizada tentava se encolher para evitar novamente as torturas e machucados que poderia sofrer. Miyazaki precisava admitir, o garoto era durão. Mesmo tendo arrancado pedaços de carne das pernas e jogado sal e pimenta nas feridas, mesmo sendo chicoteado incessantemente e tendo pregos enfiados incessantemente nos braços, ele se recusava a falar o que sabia sobre Thaisa e os planos dos BlankLycan.
— E então, Angelinus. Você vai querer conversar abertamente, ou terei de extrair as memórias diretamente do seu cérebro? Lembre-se, eu não tenho o hábito da clemência com meus inimigos, quem dirá com traidores.
— Eu jamais vou contar qualquer coisa que ponha a Thai em perigo. Você não obterá respostas de mim. — entre gemidos e engasgos com o próprio sangue e saliva, Angelinus desafiava a ira do líder das Kitsunes, e ele pagou o preço.
Com um ruído seco, as garras de Miyazaki rasgaram o ar e laceraram a carne da criança a sua frente, enchendo o ambiente de dor, gritos e sangue. Sem alterar a expressão, Miyazaki olhava para Angelinus com desprezo e pena. Em seu íntimo, não queria que a criança tivesse que sofrer tanto mas se fosse piedoso com um traidor, perderia todo o respeito e autoridade que tinha conquistado arduamente para chegar ao posto de líder do clã.
— Vamos tentar novamente. Eu quero conversar com você, apenas. Não vim para te torturar ou te interrogar, a menos que você me force a isso. Apenas estou me sentindo irritadiço e cansado. Preciso de uma boa conversa e você é perfeito para isso.
Angelinus olhava para o seu antigo líder através dos olhos inchados e das lágrimas de sangue que jorraram nos últimos dias. Sua garganta estava tão seca que mal podia retorquir e agonizar, porém, se deu ao trabalho de tentar manter uma conversa educada com Miyazaki. Responderia o mínimo necessário para economizar fôlego e força. Precisava acreditar que John viria resgatá-lo com Thaísa.
— Melhor assim. Então, Angelinus, diga-me o que pretende fazer com sua amiga. Você parecia ter planos interessantes para ela quando entregou a Wild de mão beijada.
— Você… Você sabia que a W-wild pertencia… A ela p-por direito! — a criança tentava desesperadamente manter-se acordado em meio a fome, a sede e o cansaço que o dominavam.
— Sim, eu lembro disso. A Wild pertencia ao Akihiko Vulpis-Canis, um Dai-Youkai que desapareceu antes de poder assumir seu posto como Líder do Clã. Seu Clã entrou em guerra pouco tempo depois e isso culminou com a extinção dos Vulpis-Canis. Dizem que somente aquele que tenha o poder de um Vulpis-Canis pode controlar a Wild perfeitamente. Você por algum acaso achou que minha neta tivesse esse potencial todo?
— A… A Wild não… É sua pra mantê-la escondida… De seu dono! — cuspiu o menino, certo de que a punição não tardaria. Dito e feito. Miyazaki penetrou suas garras na carne de seu abdomen, retorcendo lá dentro, e fazendo o menino gritar.
— Dobre sua língua, garoto! Não gosto de ter de machucar você, mas faço o que for necessário para manter a paz entre os meus.
Retirando suas garras bem lentamente de dentro do menino, e limpando os vestígios de sangue, suor e carne nos cabelos imundos do mesmo, Miyazaki parecia considerar algo em sua cabeça. Como se uma ideia perturbadora tivesse surgido e fosse a solução que ele tanto esperava, mas dependia do quanto ele estava disposto a sacrificar para isso.
— Agora me responda, Angelinus. Por que você deu a Wild para minha neta? Ela tem poder para controlar aquilo? Explique-me seus motivos para roubar um poder tão ancestral e entregá-lo nas mãos de uma garota tão fraca como ela?
— Ela vai suceder Miku e Fenrir como líder do Clã um dia, e você sabia disso. — respondeu ele fracamente.
— Mas ela consegue usar a Wild perfeitamente?
— Não, ela ainda não usou 10% do poder da Wild.
— E o que me garante que ela não controlará perfeitamente o poder da Wild até a guerra?
Angelinos olhou diretamente nos olhos de Miyazaki e respondeu ásperamente.
— Nada nem ninguém nesse mundo pode prever o quanto ela evoluirá com Wild dentro dela, até o momento que ela o entregar para o verdadeiro dono.
— Então não tenho escolha. — o homem dos cabelos negros levantou-se e caminhou para a porta. — Eu recorrerei ao mesmo poder que a idiota da Miku recorreu. Porém, eu não perderei o controle como ela, e sairei vitorioso dessa guerra.
E sob os gritos apavorados de Angelinus, ele saiu do quarto e fechou a cela, enquanto se encaminhava para um local pouquíssimo usado dentro do templo. O antigo altar profanado, utilizado apenas em rituais sombrios e que causavam extrema degeneração em que os fazia. Se era o preço que ele devia pagar, pois que seja. Começou a entoar os cânticos e clamar em busca de ajuda, executando o ritual com todo o seu poder. Quando terminou, uma figura negra surgiu do altar profano e com olhos perturbadoramente amarelos, olhou para Miyazaki e esperou.

— Olá, Abaddon. Gostaria de lhe pedir um imenso favor.  

sábado, 28 de março de 2015

Ahtrim Ayon - Ryan Vicenzo - O início do Triunvirato

 Algumas amizades duram para sempre e outras vão embora no piscar de um olho, ou no acender de uma lâmpada. Porém, existem também aquelas amizades que você sabe que vão durar pela vida inteira, mesmo que você seja morto, suba mais que os outros ou se afaste completamente deles. As vezes simplesmente não importa o que você faça, eles estarão lá por você, de braços abertos, cheios de amor e compreensão. É mais ou menos assim que é minha amizade com Lucian Folks e Peter Hollow.
Meu nome é Ryan Vicenzo, e conheci esses dois no dia que entrei para o Instituto de Pesquisa Científica Especial e Desenvolvimento Aplicado, um nome chique para Escola de Tecnomagos. Eu estava chegando em meu quarto, que dividiria com mais três pessoas. Na verdade, eu tinha passado para a Elite dos Quatro, que eram as quatro melhores notas durante o exame de admissão, e os detentores dessas notas morariam juntos para crescerem e se desenvolverem igualmente e em equipe.
Eu estava nervoso, é claro. Nunca antes tinha tido companheiros de quarto, ou sequer amigos. Porém, ao chegar na porta do aposento, a ficha caiu e decidi que deveria fazer agora o que nunca mais faria na vida: tentar me enturmar. Respirei fundo e abri a porta apenas para dar de cara com uma confusão gigantesca lá dentro. Aparentemente dois meninos gritavam um com o outro por algo quebrado no chão. Com uma olhada rápida, consegui discernir alguns microchips, metal retorcido, um pouco de resina e fluidos energéticos complexos, além de uma pequena base de circuitos.
— Ei, vocês estavam construindo um minibot? — disse eu, bem empolgado por conhecer pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu.
Na verdade, eu construí o minibot, e esse energúmeno débil mental acéfalo quebrou ele metendo o pé! — disse o menino com cabelos bem aparados e olhos acinzentados.
— Você deixa suas coisas pelo chão e espera que os outros andem olhando pra baixo pra não pisar em nada seu? Sinto muito, mas você devia ser mais organizado e ter mais cuidado com seus brinquedos. — respondeu o outro de olhos incrivelmente azuis e cabelos longos bagunçados. — A propósito, meu nome é Peter Hollow, e o estressadinho ali juntando os cacos de robô é o Lucian Folks.
Me permiti saborear o momento. Duas pessoas que certamente gostavam de robótica, física, matemática, química, bioquímica e tudo o mais que uma criança poderia querer. Mesmo quando eu e a Demétria saíamos juntos, ela sempre precisava ir embora repentinamente, e agora, eu tinha uma companhia estável. Qualquer criança com treze anos gostaria disso. Entrei no quarto e admirei o ambiente sobriamente decorado: a sala de estudos e o laboratório ocupando todo o andar inferior, e as escadas para as quatro suítes no andar superior. Eu estava no paraíso.
— Muito prazer. Meu nome é Ryan Vicenzo, e espero que possamos ter uma boa convivência durante os próximos anos.
— Cuidado com o que deseja, que você pode conseguir. — uma voz altamente irônica falou isso atrás de mim. Virei-me e encarei o nosso último colega de quarto — Pelo visto vocês já se conheceram e se apresentaram. Bem, a título de educação: meu nome é Devon Ackles, satisfação em conhecer.
A figura atrás de mim estava vestindo um impecável terno branco, com cabelos e olhos bem vermelhos. Parecia ser mais novo do que eu e os outros, mas não deixei isso ser meu julgamento. Ele entrou no recinto carregando uma valise e arrastando uma mala que facilmente dobrava a minha, e não esperou que falássemos nossos nomes. Apenas subiu para os quartos e por lá ficou. Quem diria que até no paraíso existem pessoas tensas.
— Dizem que esse menino foi o quarto colocado, mesmo sendo mais jovem do que nós. Acho que seria um erro subestimá-lo. — Lucian tinha terminado de recolher os pedaços de robô e jogá-los em cima de sua bancada. Com uma precisão metódica, ele começou a reparar o que sobrou de seu invento e salvar pelo menos uma parte.
— Bem, seja como for, seria interessante você largar isso e ir se preparar para as aulas. Ouvi dizer que o professor Lawliet odeia quem chega atrasado. O mini-curupira lá em cima também deve estar se arrumando. Ryan, eu te mostro onde é o seu quarto para você desfazer suas malas. — e pegando minha mão, Peter me puxou para cima a fim de me mostrar o quarto.
Mal tive tempo de arrumar minhas coisas e o sinal tocou convocando todos nós para assistir as aulas do dia. A primeira aula era Criptografia Avançada, com o professor Lawliet. Devo dizer que ter aulas com um programa de computador era, no mínimo, inusitado. Mas um programa de computador que tem emoções e consegue me fazer rir com piadas virais é bem melhor. Porém, quando ele passou um trabalho para que trios de alunos fizessem IA's vivos e humanizados, a coisa pegou, e foi mais sério ainda quando ele decidiu os times.
— As divisões foram feitas aleatoriamente pelo meu sistema central, então não fiquem chateados se vocês acabarem ficando em equipes com pessoas que não conhecem. — a voz robotizada de Lawliet vibrou através dos computadores holográficos da sala, e enumerou os trios. Qual não foi minha surpresa ao ficar com Peter e Lucian. Devon ficou com uma garota chamada Helen Ciracces e um cara chamado Wendel Grey. — Vocês tem uma semana para fazer o programa, escrever o book de passos e realizar uma apresentação interativa com o programa.
O resto do dia foi normal, com professores passando um amontoado cada vez maior de deveres de casa e trabalhos. As poucas aulas que eu não tinha com Lucian, Peter e Devon foram as aulas extras, que não tinham dever de casa, o que era um alívio. Quando cheguei a noite, Peter estava em sua mesa, comendo de uma caixinha de comida temática, Lucian estava trabalhando em algum tipo de design e Devon estava ausente.
— Trabalhando no design do nosso programa de IA?
— Sim. Tô tentando definir uma cara para o nosso projeto, mas nada parece muito agradável esteticamente, e também mandei o Sr. Desgrenhado ficar longe do desenho, pra ver se não me atrapalha nem suja o projeto.
— Quando precisar de ajuda, estarei terminando o frango xadrez e o arroz primavera. Juro que serei paciente com seus chiliques. — Peter e Lucian realmente se odiavam. Acho que cabia a mim ser o ponto de equilíbrio.
— OK. Bem, Peter, pare de comer isso aí e venha nos ajudar. Se você sabe escrever, vamos precisar de um roteiro para a criação do projeto. Lucian, não vamos desenvolver o design agora, precisamos primeiro desenvolver os algoritmos de personificação, e é nisso que você vai trabalhar. Eu vou começar a planejar coisas como a nossa apresentação, o que nos propomos a fazer e as funcionalidades do programa. Se estipularmos pelo menos três horas nesse processo, poderemos ver qual é mais fácil e mais difícil e assim nos dedicarmos juntos ao mais difícil e deixar o mais fácil pro final.
E assim passamos a maioria dos dias da semana seguinte: organizando teoremas, criando designes, integrando a matriz da IA e incorporando a psique humana dentro da criação, com idade mental e personalidade, coisas básicas. Mal tínhamos tempo para ver Devon durante esse tempo, mas ele parecia levar bem mais calmamente seu projeto. Supús que seus parceiros não brigaram pela cor dos cílios nem discutiram o sexo dos anjos, obrigando o projeto a ter a aparência e nome andróginos. Finalmente, depois da penosa semana de trabalho, o projeto Darcy estava concluído, e sim, tive o cuidado de escolher um nome andrógeno para evitar mais brigas.
— Cara, nem acredito que finalmente concluímos essa porra! Fui obrigado a sobreviver de café e energético durante as últimas noites, mas valeu a pena. A Darcy ficou foda. — entre um bocejo e outro, Peter falava o que podia.
— Nem me fale. Nunca tive tanto trabalho quanto dessa vez. Já tinha criado IA's antes, mas basear todo o sistema operacional na psique humana e incorporar emoções dentro da cadeia de resposta inteligente foi completamente impossível. Mas o Darcy agora deve ser o melhor projeto que existe nessa escola. — e Lucian retrucava como nunca.
Tentei me manter neutro o máximo que podia, evitando até de sexualizar Darcy, referindo-me apenas como “a criatura”. Continuei segurando firmemente o pen drive que a criatura estava guardada e rezei para que eles não começassem a discutir no meio da apresentação. Chegamos a aula do professor Lawliet e vimos que todos já tinham formados seus grupos e estavam lutando contra o tempo para fazer os acabamentos nos seus devidos programas. Devon estava sentado displicentemente com seus amigos, conversando e discutindo sobre a vida, e muito me admirava que eles não estivessem surtando por causa do programa.
— Sejam bem-vindos, alunos! Vamos iniciar a aula de hoje com as apresentações práticas do projeto de cada grupo. A ordem foi sorteada aleatoriamente pelo meu sistema central. Boa sorte! — Prof. Lawliet entrando e saindo com efeitos visuais exagerados para alguém como ele. Deu a entender que ele esperava no mínimo um desastre.
E não deu outra. Minha equipe ficou em penúltimo e em último, Devon e seus amigos. Pelo risinho que Devon fez, parece que ele já esperava algo do tipo, mas pelo visto só eu notei isso na sala inteira. E durante um tempo, tudo transcorreu perfeitamente normal, com algumas coisas dando birolha na hora mais tensa possível e algumas equipes saírem chorando pelo proejto ter falhado. Darcy foi a melhor de todas as apresentações, sem erros, falhas ou coisa que o valha. Mas tudo mudou na apresentação do Devon.
— Bom dia, meus colegas de classe. Venho aqui apresentar nosso projeto de IA, e eu a intitulo de Shadow. — eis que surge uma figura alta e encapuzada, que só existe no manto. Aquilo de certa forma me arrepiou muito. — Vocês perceberão que Shadow tem várias utilidades, uma vez que ela é uma IA viral, e pode corromper dados, compilar informações, controlar dispositivos remotamente e destruir dispositivos através de curto-circuitos. Em resumo, é uma IA para guerras. Vejam uma demonstração gratuita do poderio da Shadow.
E o Caos se formou, quando computadores explodiam, dispositivos móveis entravam em colapso e coisas piores. Lawliet nenhuma vez interveio, apenas observando através das câmeras da sala. Do nada, eu me vi pensando que seria maravilhoso a Demétria aparecer ali e dizer o que eu devia fazer, mas é claro que ela não veio. Peter foi o primeiro a agir, bloqueando o sinal do seu celular, e transferindo Darcy para lá. Lucian arrancou o telefone e começou a mexer, como se estivesse mudando a configuração e os protótipos para uma pessoa de batalha. Cabia a mim pegar uma fonte de poder, e eu sabia como. Peguei o celular das mãos de Lucian e conectei diretamente à CPU do Lawliet, e qual não foi a minha surpresa ao ver que Darcy saltou para a realidade como um ser feito puramente de dados.

— OK, turma. Aulas canceladas. Aguardem as notas serem lançadas no sistema. Isso é tudo por hoje. — e assim, tudo se desfez. Prof. Lawliet tinha desfeito tudo apenas falando. Quase fiquei com raiva por ele ter deixado rolar o paranauê todo. Fui embora pisando duro, com Lucian e Peter me seguindo. Só tive tempo de lançar um olhar de raiva para a dupla do Lawliet e do Devon que ficaram para conversar a sós na sala.