Ahtrim Ayon - Miyazaki BlackFox - Uma conversa interessante
Miyazaki sentia a
irritação e o medo lhe consumindo. Seus sentidos de Kitsune lhe
avisavam que possivelmente haveria uma catástrofe na guerra. Guerra
esta que não precisaria ocorrer se a idiota da Thaisa não tivesse
resolvido libertar o lobo burro. Fenrir BlankLycan. Esse ser já
tinha causado problemas demais ao se envolver com Miku, a que deveria
ser a herdeira dos BlackFox e levá-los a uma era de poder e
supremacia. Quem sabe eles finalmente ascenderiam à Dinastia sob a
liderança dela. Tudo por água abaixo, por causa de um cachorro
burro.
Irritado demais
para qualquer tipo de meditação, ele decidiu interrogar o
prisioneiro mais uma vez. Mesmo que fosse inútil para conseguir mais
informações, pelo menos ele poderia desestressar-se com o traidor.
Angelinus Bittencourt. Aquele maldito poderia ter ficado do seu lado
quando lhe pediu para ficar de olho em sua neta, mas ao invés disso,
ele a abençoa com dons antigos e a leva até o túmulo de Fenrir.
Levantando-se, pôs-se a andar pela mansão que era o templo
BlackFox, sempre em direção das celas de contenção.
E sempre que
chegava nesse local, seu estômago se revirava. Sempre fizera o maior
e melhor dos esforços para que ninguém interferisse nos desejos dos
BlackFox ou dos Brahmani. Sempre fora um servo fiel, eliminando
qualquer ameaça a qualquer um dos seus iguais ou superiores, como um
verdadeiro protetor. Os cadáveres dos seus inimigos ainda jaziam em
suas celas para servir de exemplos aos que viriam futuramente. Então
ele não podia limpar a sujeira das celas, para que o aviso
permanecesse.
Ao entrar na cela
de Angelinos, o fedor de urina e sangue seco atacou suas narinas com
força, enquanto a massa disforme de carne ferida e imobilizada
tentava se encolher para evitar novamente as torturas e machucados
que poderia sofrer. Miyazaki precisava admitir, o garoto era durão.
Mesmo tendo arrancado pedaços de carne das pernas e jogado sal e
pimenta nas feridas, mesmo sendo chicoteado incessantemente e tendo
pregos enfiados incessantemente nos braços, ele se recusava a falar
o que sabia sobre Thaisa e os planos dos BlankLycan.
— E então,
Angelinus. Você vai querer conversar abertamente, ou terei de
extrair as memórias diretamente do seu cérebro? Lembre-se, eu não
tenho o hábito da clemência com meus inimigos, quem dirá com
traidores.
— Eu jamais vou
contar qualquer coisa que ponha a Thai em perigo. Você não obterá
respostas de mim. — entre gemidos e engasgos com o próprio sangue
e saliva, Angelinus desafiava a ira do líder das Kitsunes, e ele
pagou o preço.
Com um ruído seco,
as garras de Miyazaki rasgaram o ar e laceraram a carne da criança a
sua frente, enchendo o ambiente de dor, gritos e sangue. Sem alterar
a expressão, Miyazaki olhava para Angelinus com desprezo e pena. Em
seu íntimo, não queria que a criança tivesse que sofrer tanto mas
se fosse piedoso com um traidor, perderia todo o respeito e
autoridade que tinha conquistado arduamente para chegar ao posto de
líder do clã.
— Vamos tentar
novamente. Eu quero conversar com você, apenas. Não vim para te
torturar ou te interrogar, a menos que você me force a isso. Apenas
estou me sentindo irritadiço e cansado. Preciso de uma boa conversa
e você é perfeito para isso.
Angelinus olhava
para o seu antigo líder através dos olhos inchados e das lágrimas
de sangue que jorraram nos últimos dias. Sua garganta estava tão
seca que mal podia retorquir e agonizar, porém, se deu ao trabalho
de tentar manter uma conversa educada com Miyazaki. Responderia o
mínimo necessário para economizar fôlego e força. Precisava
acreditar que John viria resgatá-lo com Thaísa.
— Melhor assim.
Então, Angelinus, diga-me o que pretende fazer com sua amiga. Você
parecia ter planos interessantes para ela quando entregou a Wild de
mão beijada.
— Você… Você
sabia que a W-wild pertencia… A ela p-por direito! — a criança
tentava desesperadamente manter-se acordado em meio a fome, a sede e
o cansaço que o dominavam.
— Sim, eu lembro
disso. A Wild pertencia ao Akihiko Vulpis-Canis, um Dai-Youkai que
desapareceu antes de poder assumir seu posto como Líder do Clã. Seu
Clã entrou em guerra pouco tempo depois e isso culminou com a
extinção dos Vulpis-Canis. Dizem que somente aquele que tenha o
poder de um Vulpis-Canis pode controlar a Wild perfeitamente. Você
por algum acaso achou que minha neta tivesse esse potencial todo?
— A… A Wild
não… É sua pra mantê-la escondida… De seu dono! — cuspiu o
menino, certo de que a punição não tardaria. Dito e feito.
Miyazaki penetrou suas garras na carne de seu abdomen, retorcendo lá
dentro, e fazendo o menino gritar.
— Dobre sua
língua, garoto! Não gosto de ter de machucar você, mas faço o que
for necessário para manter a paz entre os meus.
Retirando suas
garras bem lentamente de dentro do menino, e limpando os vestígios
de sangue, suor e carne nos cabelos imundos do mesmo, Miyazaki
parecia considerar algo em sua cabeça. Como se uma ideia
perturbadora tivesse surgido e fosse a solução que ele tanto
esperava, mas dependia do quanto ele estava disposto a sacrificar
para isso.
— Agora me
responda, Angelinus. Por que você deu a Wild para minha neta? Ela
tem poder para controlar aquilo? Explique-me seus motivos para roubar
um poder tão ancestral e entregá-lo nas mãos de uma garota tão
fraca como ela?
— Ela vai suceder
Miku e Fenrir como líder do Clã um dia, e você sabia disso. —
respondeu ele fracamente.
— Mas ela
consegue usar a Wild perfeitamente?
— Não, ela ainda
não usou 10% do poder da Wild.
— E o que me
garante que ela não controlará perfeitamente o poder da Wild até a
guerra?
Angelinos olhou
diretamente nos olhos de Miyazaki e respondeu ásperamente.
— Nada nem
ninguém nesse mundo pode prever o quanto ela evoluirá com Wild
dentro dela, até o momento que ela o entregar para o verdadeiro
dono.
— Então não
tenho escolha. — o homem dos cabelos negros levantou-se e caminhou
para a porta. — Eu recorrerei ao mesmo poder que a idiota da Miku
recorreu. Porém, eu não perderei o controle como ela, e sairei
vitorioso dessa guerra.
E sob os gritos
apavorados de Angelinus, ele saiu do quarto e fechou a cela, enquanto
se encaminhava para um local pouquíssimo usado dentro do templo. O
antigo altar profanado, utilizado apenas em rituais sombrios e que
causavam extrema degeneração em que os fazia. Se era o preço que
ele devia pagar, pois que seja. Começou a entoar os cânticos e
clamar em busca de ajuda, executando o ritual com todo o seu poder.
Quando terminou, uma figura negra surgiu do altar profano e com olhos
perturbadoramente amarelos, olhou para Miyazaki e esperou.
— Olá, Abaddon.
Gostaria de lhe pedir um imenso favor.






