Ahtrim Ayon — Daniel Zavascki — Estilhaços do Medo
Daniel Zavascki
Todo parque de
diversões que eu conheço sempre tem uma grande variedade de
brinquedos e de artistas. Os parques de diversão, quando são
bem-feitos, devem se misturar com o circo, mas esse é meu pensamento
pessoal. Era nisso que eu estava pensando quando pedi pros meus pais
uma festa de aniversário com tema de circo e algumas coisas de
Parque de Diversões. Eu já devia esperar os exageros
característicos da minha mãe quando ela se juntava com sua amiga
promoter de eventos. Minha festa parecia ter sido financiada
pelo Pale Moon Circus, e não da maneira ruim.
Todos estavam se
divertindo, e tudo estava indo perfeito. Minha família tinha cansado
da loucura que estava aquela festa, com a música eletrônica e com
toda a carga de adolescentes que poderiam existir e já tinham
vazado. Todos os meus amigos já estavam ali, todos prontos para
festejar noite adentro até o sol raiar, e a Kelly já estava se
divertindo em todos os brinquedos possíveis. Bem, quase todos. Eu
sempre quis ir numa casa dos espelhos, e agora eu poderia, mas queria
que fosse divertido pra mais alguém.
Assim que ela desceu do
brinquedo, conversando com o Peterson e a Joaninha, me aproximei e
comecei a andar com o grupo, direcionando eles para a casa dos
espelhos de maneira discreta. Seria legal nós quatro indo juntos,
vendo aqueles reflexos malucos e tirando altas selfies. Meu
aniversário estava cada vez mais perfeito. Mas logo que estávamos
chegando perto, Raylan e Luciano chamaram os dois para fazer alguma
coisa e só sobrou eu e Kelly andando lado a lado até a entrada da
casa de espelhos.
— Então, Kelly,
vamos fazer um tour pela casa dos espelhos? Parece divertido aí
dentro e eu sempre quis ir em uma. Por favor, vamos!
— Hum, eu não sou
gosto muito dessa ideia. Não acho que vai dar certo. — Kelly
apenas rebate, com seus olhos expressando algo indefinido. Ansiedade
talvez?
— Ah, qual é? Vai
dizer que você está com medo? Vem logo, boba! Vai ser divertido, e
eu prometo não te deixar sozinha. — Eu queria ir com alguém. Eu
realmente odeio ficar sozinho e ela tinha se provado uma grande
amiga, então eu queria ter um momento especial com ela.
— Ai ai, tudo bem! Se
você faz questão... Vamos logo com isso então. — E juntos,
entramos na casa dos espelhos.
Kelly Cordeiro
Espelhos sempre me
deixavam incomodada. Existia algo neles (e em mim), algo íntimo, que
eu não conseguia deixar de desgostar. Uma sensação amarga na boca
do estômago e no fundo da garganta, como se pudesse ver por mim que
algo estava errado por completo. Eu caminhava dentro daquela casa de
espelhos, percebendo o padrão de placas de metal no chão, evitando
a qualquer custo olhar para cima ou para o lado, e se necessário
fosse falar com Daniel, olhar diretamente nos olhos dele e não
desviar não importando o que fosse.
E ele tagarelava
alegremente, divagando sobre todas as coisas maravilhosas que
poderíamos fazer naquela casa maldita, até que perdi as contas de
quantas voltas demos, e parei por alguns momentos no mesmo lugar,
forçando-me a levantar os olhos e encará-lo. Algo não batia com as
minhas contas, porque se aquele lugar fosse realmente tão grande
quanto estava dando a impressão, eu estava muito mais do que
ferrada, e ele provavelmente estaria morto.
— Daniel, por algum
acaso, você tem ideia de pra onde está levando a gente ou você só
está caminhando a esmo por esse labirinto? Oh fuck, isso é um
labirinto de espelhos! Me diz que você sabe pra onde está levando a
gente! — Eu não me sentia irritada com ele, mas estava certamente
ansiosa para sair dali. Depois de me dar conta que aquilo era um
labirinto de espelhos, eu só queria ir embora o mais rápido
possível, e se ele não estivesse me observando de perto, eu me
teleportava pra fora ali em bem menos que um segundo.
— Bem, eu sabia pra
onde eu estava indo umas quatro esquinas atrás, mas agora eu me
perdi. — E o desgraçado ainda solta um risinho culpado. Você não
está facilitando sua situação. Eu levanto as sobrancelhas
inquisitivamente, tentando entender como ele conseguiu se perder ali
dentro. — Ah, não me olha assim! Essa casa de espelhos tem uns
ângulos insanos que me deixaram completamente confuso, e eu acabei
me perdendo aqui.
Maravilha! Que lindo!
Perfeito! É tudo o que eu queria agora, ficar perdida numa casa de
espelhos em plena madrugada no escuro! Eu odiava aquela penumbra que
tinham deixado no ambiente, com meia luz babaca, iluminando mal e
porcamente o ambiente, deixando sombras em locais estranhos e em
ângulos piores ainda. Aquilo era o fim da picada, eu queria sair
dali rápido, e Daniel com aquela calma me dizendo que tinha se
perdido naquela confusão? Não, eu não estava recebendo o
suficiente pra isso e nem ia receber nos próximos milênios.
Daniel Zavascki
— Daniel, vamos
embora daqui agora! Já viemos aqui, já entramos na casa dos
espelhos que você queria e agora já podemos ir embora. Vamos logo
sair daqui! — Kelly parecia realmente irritada comigo, e eu não
entendia porque.
— Nossa, tudo bem,
vamos sair daqui. Vamos tentar achar o caminho de volta na sorte, but
first… Let me take a selfie! — Eu tinha percorrido um labirinto
inteiro pra tirar uma selfie com Kelly na casa dos espelhos, não ia
sair de lá sem uma lembrança. — Agora vamos ver… Você tem 3G,
certo? Podemos nos separar e tentar encontrar a saída, assim quem
sair primeiro manda a localização pro outro e tenta guiar o
caminho. O que acha?
— Não existe
precisão suficiente no mundo pra isso, cacete! Mas já que é nossa
melhor chance, então tudo bem. Fica bem sozinho e toma cuidado.
E nos separamos, cada
um tomando um caminho na tentativa de encontrar uma saída dali. O
eco do local fazia com que meus passos e os passos da Kelly me
seguissem de perto e dessem a impressão que eu estava o tempo todo
perto dela. Era uma maneira segura de não parecer que eu estava
sozinho. Tentei não pensar muito sobre esse fato e só fui me
guiando pelo instinto de como sair dali o mais rápido possível,
virando em cada esquina tentando encontrar a saída daquele lugar e
indo cada vez mais em caminhos diferentes e tortuosos, até que topei
algo, como uma ponta do piso levantada, me fazendo tropeçar e cair
de cara no chão.
Até aí, teria sido
tranquilo e de boa, mas não. Nada estava completo sem que houvesse
drama, choro e ranger de dentes até que alguém sofresse de bruxismo
a noite. A vida era realmente perfeita. Antes que eu me levantasse,
comecei a ouvir o barulho agoniante de várias tesouras e cliques
batendo incessantemente, de maneira nauseante e perigosa. Tentei
ficar estático, mas quando senti patinhas andando pelo meu corpo e
especialmente pela minha cara, me levantei abruptamente e me
arrependi de olhar no espelho.
Kelly Cordeiro
Um grito varou aquele
lugar e do nada, vários passos apressados começaram a correr na
minha direção. Meu pensamento disparou e eu só pensei em Daniel
nessa hora. Tudo o que eu fiz, foi começar a correr por aquele
lugar, tentando seguir o eco dos passos dele e só conseguindo me
perder mais e mais. Aquela situação era horrível e insustentável!
Eu tinha certeza que tinha acontecido algo com Daniel, e eu ali, sem
conseguir fazer nada, correndo que nem uma louca pelo local tentando
achar alguém, e temendo pelo pior.
Os passos apressados
ecoavam no local enquanto eu corria. Mesmo quando parei de correr
novamente, eu ainda escutava eles vindo de algum lugar que eu não
conseguia determinar. Minha respiração arfante denunciava que eu
tinha corrido mais do que meu corpo físico terreno conseguia
aguentar, e em algum lugar pelo caminho, os ecos dos passos também
diminuíram até a constante de um caminhar pesado, que me deixava
nervosa. Poderia ter outra pessoa ali além de mim e Daniel? Poderia
ser uma pegadinha, ou realmente tinha um maluco tentando dar um fim
na gente?
— Tem alguém aí?
Daniel? — O eco dos passos foi tudo o que eu tive em resposta.
Comecei a correr novamente, dessa vez redobrando a velocidade, apenas
pelo desespero de sair daquele lugar.
Eu corria olhando para
o chão, ao meu redor estavam vários espelhos que causavam efeitos
diferentes. A luz meio difusa gerava uma penumbra e um ambiente meio
macabro. Eu me peguei pensando que o Daniel merecia um soco muito
bem-dado por me arrastar para aquele maldito labirinto de espelhos.
Eu simplesmente odeio espelhos. Mas não conseguia deixar de me
preocupar. Sim, tudo o que eu queria era sair dali por enquanto, mas
socar e salvar Daniel estavam entrando em equivalência.
Podia sentir minhas
pernas começando a ficar dormentes. Logo eu não aguentaria mais
correr e a saída daquele lugar parecia impossível de ser achada. Eu
não conseguia mais ver para onde eu estava indo e nem pensar com
clareza pra sair dali. Acabei parando no que parecia ser um beco sem
saída com vários espelhos formando um semicírculo, quase no mesmo
instante o eco de passos parou, dando a entender que eu estava
sozinha. Olhei ao redor procurando a direção que ele tinha vindo,
só pra me arrepender logo em seguida. Eu estava correndo de cabeça
baixa e quando olhei ao redor, acabei por olhar diretamente para os
espelhos, algo que eu havia evitado desde que entrei ali. Um calafrio
percorreu minha espinha, propagando a sensação gélida e vazia
quando escutei aquela voz que tanto me fizera chorar um dia.
"Parece que não
tem mais forças pra fugir não é mesmo? Que peninha…. Nenhum dos
seus amiguinhos veio te salvar…" Agora eu tinha nitrogênio
líquido correndo pelas minhas veias e meu corpo tentava evocar a
reação do suor, mas o mesmo também vinha frio. Nos espelhos em
minha frente, meu reflexo parecia se mover de forma independente,
sustentando um sorriso de escarnio estampado no rosto e um olhar
acusador. Minha surpresa e pavor eram tao grande que quase não notei
que o reflexo tinha a aparência da Sophie, a antiga Sophie. Da mesma
Sophie que eu via nos meus pesadelos sendo atravessada pelos espinhos
de sombra Tenebrae. Eu sabia o que viria, sabia que eu não podia
lutar contra aquilo… Eu queria fugir, mas meu corpo parecia ter
virado pedra. A Sophie do reflexo soltou uma gargalhada ao percebeu
meu esforço em vão pra tentar sair dali.
"Você é
realmente bem fraca, não é? Correndo de um lado para o outro como
se fugisse de um fantasma. Que ser patético surgiu para tomar o meu
lugar. E depois de tudo o que aconteceu no casamento de Klaus
Bhramani, aqui está você… Se divertindo e sendo
feliz." Seu tom era de puro desprezo e suas palavras
pareciam facas cegas penetrando no meu peito com violência. Eu me
deixei levar pelos meus amigos e acabei apagando da minha mente os
últimos acontecimentos. Eu só queria esquecer aquilo…
"Coitadinha…
Parece que te deixei chateada com o que eu disse não foi? Posso
pedir desculpas por trazer a tona memórias tao ruins se você
quiser." O sarcasmo era evidente naquela voz e minha noção
do ambiente ao redor já tinha ido embora. Já não escutava mais os
passos apressados ecoando pela casa de espelhos, e arrisco dizer que
não via mais nada também além daquele semicírculo de espelhos e
da minha outra “eu” a minha frente.
— Pare, por favor. Me
deixe em paz. —Minha voz quase não saia e eu só agora tinha
percebido que tentava bloquear todo o som tapando os ouvidos com
minhas mãos, mas aquela voz parecia ecoar dentro da minha cabeça.
"Parar? Parar
com o que? Parar de te lembrar do quão patética você é?"
A voz dela agora exprimia um tom raivoso. "Parar de te
lembrar das derrotas sucessivas que você sofreu nas mãos da
Insanidade?" Dessa vez a voz parecia vir de
outro espelho e eu pude ver a mesma imagem da antiga Sophie refletida
nele também. "Parar de te lembrar que vocês foram atacados
naquele salão novamente e que você falhou em perceber o plano de
Lewenstat?". Outro espelho ecoava aquela voz.
"Parar de te lembrar de quantas pessoas morreram e você não
pode fazer nada? Parar de te lembrar que você não pode
proteger Hellser e Lilian e ainda por cima deixou os filhos deles
sozinhos para vir tirar férias?”.
E mais outro espelho,
e mais outro e mais outro e mais outro. "Parar de te lembrar
que todas aquelas cidades foram atacadas e você não estava lá pra
ajudar ninguém? Parar de te lembrar que Lawliet está lutando
naquela guerra e você está aqui? Que não serve nem pra cumprir seu
dever de sumo sacerdotisa?" Nesse ponto os espelhos todos
ecoavam essa voz. Um coro de vozes acusadoras e dedos apontados em
minha direção, me deixando acuada, nervosa, exaurida de qualquer
vontade de lutar, me deixando sem opção. Eu não sabia o que fazer.
Ela estava certa, e não importa o quanto eu me esforçasse, ela
estava certa…
Lágrimas escorriam
pelo meu rosto enquanto as acusações continuavam e aquele
sentimento de impotência foi se transformando em raiva. Raiva de mim
mesma, raiva daquela Sophie, raiva do Tess, raiva do Lawliet, raiva
do mundo… Eu não aguentava mais escutar aquilo, não aguentava
mais ser machucada por aquelas palavras e ver a mim mesma tentando
esfregar meus erros e impotências, minha própria inutilidade contra
mim… Eu não aguentava mais, então eu explodi.
— JA CHEGA! CALA A
BOCA! —E eu me atirei em direção a um dos espelhos e desferi um
soco forte, impiedoso e poderoso, fazendo a imagem rachar. Uma
gargalhada fria e cruel começou a ecoar em meus ouvidos seguidas de
várias outras gargalhadas iguais. Eu dei um segundo soco e o espelho
estilhaçou, mas aquele riso não parava de ecoar. Parti então pra
cima de outro espelho, desesperada, socando e chorando, as vezes
gritando, e eu continuei até que todos os espelhos do local estavam
tão estilhaçados quanto meu braço. Minha memória é confusa
depois desta parte. Não lembro de mais nada e nem sei quantos
espelhos eu destruí no meu acesso de raiva.
Daniel Zavascki
Depois te ter sido
picado na cara por um escorpião preto, o inchaço já começava a
aparecer. Não consegui determinar direito se eram muito venenosos ou
extremamente venenosos, mas certamente a dor que eu sentia
classificava-se por si só. Meu rosto já tinha virado uma bola
vermelha com um furo na bochecha e sangue vazando, enquanto eu me
arrastava pela casa de espelhos procurando Kelly. Foi um erro virmos,
e eu precisava tirá-la daqui.
Não a achei no nosso
corredor, então continuei procurando, até que ouvi um grito de sua
voz desesperada e raivosa, então corri na direção do grito,
tentando sem sucesso me encontrar pelo eco. Quando finalmente já
cheguei próximo o bastante para escutar o choro e os gritos, percebi
que estava em um dos becos sem saida do labirinto de espelhos e que
Kelly estava muito ocupada destroçando os espelhos com as mãos
nuas. Eu queria chegar e impedir que ela se machucasse ainda mais,
mas a segurança vinha primeiro. Mandei uma mensagem pra Joaninha com
urgência, escrito: “Socorro casa dos espelhos escorpiões
hemorragia kelly”.
E avancei até a Kelly,
cambaleando, já meio tonto pela toxina do veneno, mas com minhas
últimas forças, segurei a minha amiga e impedi que ela continuasse
se machucando. Ela pareceu se acalmar um pouco quando sentiu meu
toque, e por isso seu corpo todo relaxou e se deixou cair, mantendo
uma expressão vazia. Acho que era isso que chamavam de estado de
choque. Eu já estava a beira do desmaio, mas tentei nos levar até o
corredor principal, pelo menos, para facilitar o trabalho de quem
quer que viesse nos resgatar.










