sábado, 9 de abril de 2016

Ahtrim Ayon — Daniel Zavascki — Estilhaços do Medo

Daniel Zavascki

Todo parque de diversões que eu conheço sempre tem uma grande variedade de brinquedos e de artistas. Os parques de diversão, quando são bem-feitos, devem se misturar com o circo, mas esse é meu pensamento pessoal. Era nisso que eu estava pensando quando pedi pros meus pais uma festa de aniversário com tema de circo e algumas coisas de Parque de Diversões. Eu já devia esperar os exageros característicos da minha mãe quando ela se juntava com sua amiga promoter de eventos. Minha festa parecia ter sido financiada pelo Pale Moon Circus, e não da maneira ruim.
Todos estavam se divertindo, e tudo estava indo perfeito. Minha família tinha cansado da loucura que estava aquela festa, com a música eletrônica e com toda a carga de adolescentes que poderiam existir e já tinham vazado. Todos os meus amigos já estavam ali, todos prontos para festejar noite adentro até o sol raiar, e a Kelly já estava se divertindo em todos os brinquedos possíveis. Bem, quase todos. Eu sempre quis ir numa casa dos espelhos, e agora eu poderia, mas queria que fosse divertido pra mais alguém.
Assim que ela desceu do brinquedo, conversando com o Peterson e a Joaninha, me aproximei e comecei a andar com o grupo, direcionando eles para a casa dos espelhos de maneira discreta. Seria legal nós quatro indo juntos, vendo aqueles reflexos malucos e tirando altas selfies. Meu aniversário estava cada vez mais perfeito. Mas logo que estávamos chegando perto, Raylan e Luciano chamaram os dois para fazer alguma coisa e só sobrou eu e Kelly andando lado a lado até a entrada da casa de espelhos.
— Então, Kelly, vamos fazer um tour pela casa dos espelhos? Parece divertido aí dentro e eu sempre quis ir em uma. Por favor, vamos!
— Hum, eu não sou gosto muito dessa ideia. Não acho que vai dar certo. — Kelly apenas rebate, com seus olhos expressando algo indefinido. Ansiedade talvez?
— Ah, qual é? Vai dizer que você está com medo? Vem logo, boba! Vai ser divertido, e eu prometo não te deixar sozinha. — Eu queria ir com alguém. Eu realmente odeio ficar sozinho e ela tinha se provado uma grande amiga, então eu queria ter um momento especial com ela.
— Ai ai, tudo bem! Se você faz questão... Vamos logo com isso então. — E juntos, entramos na casa dos espelhos.

Kelly Cordeiro

Espelhos sempre me deixavam incomodada. Existia algo neles (e em mim), algo íntimo, que eu não conseguia deixar de desgostar. Uma sensação amarga na boca do estômago e no fundo da garganta, como se pudesse ver por mim que algo estava errado por completo. Eu caminhava dentro daquela casa de espelhos, percebendo o padrão de placas de metal no chão, evitando a qualquer custo olhar para cima ou para o lado, e se necessário fosse falar com Daniel, olhar diretamente nos olhos dele e não desviar não importando o que fosse.
E ele tagarelava alegremente, divagando sobre todas as coisas maravilhosas que poderíamos fazer naquela casa maldita, até que perdi as contas de quantas voltas demos, e parei por alguns momentos no mesmo lugar, forçando-me a levantar os olhos e encará-lo. Algo não batia com as minhas contas, porque se aquele lugar fosse realmente tão grande quanto estava dando a impressão, eu estava muito mais do que ferrada, e ele provavelmente estaria morto.
— Daniel, por algum acaso, você tem ideia de pra onde está levando a gente ou você só está caminhando a esmo por esse labirinto? Oh fuck, isso é um labirinto de espelhos! Me diz que você sabe pra onde está levando a gente! — Eu não me sentia irritada com ele, mas estava certamente ansiosa para sair dali. Depois de me dar conta que aquilo era um labirinto de espelhos, eu só queria ir embora o mais rápido possível, e se ele não estivesse me observando de perto, eu me teleportava pra fora ali em bem menos que um segundo.
— Bem, eu sabia pra onde eu estava indo umas quatro esquinas atrás, mas agora eu me perdi. — E o desgraçado ainda solta um risinho culpado. Você não está facilitando sua situação. Eu levanto as sobrancelhas inquisitivamente, tentando entender como ele conseguiu se perder ali dentro. — Ah, não me olha assim! Essa casa de espelhos tem uns ângulos insanos que me deixaram completamente confuso, e eu acabei me perdendo aqui.
Maravilha! Que lindo! Perfeito! É tudo o que eu queria agora, ficar perdida numa casa de espelhos em plena madrugada no escuro! Eu odiava aquela penumbra que tinham deixado no ambiente, com meia luz babaca, iluminando mal e porcamente o ambiente, deixando sombras em locais estranhos e em ângulos piores ainda. Aquilo era o fim da picada, eu queria sair dali rápido, e Daniel com aquela calma me dizendo que tinha se perdido naquela confusão? Não, eu não estava recebendo o suficiente pra isso e nem ia receber nos próximos milênios.

Daniel Zavascki

— Daniel, vamos embora daqui agora! Já viemos aqui, já entramos na casa dos espelhos que você queria e agora já podemos ir embora. Vamos logo sair daqui! — Kelly parecia realmente irritada comigo, e eu não entendia porque.
— Nossa, tudo bem, vamos sair daqui. Vamos tentar achar o caminho de volta na sorte, but first… Let me take a selfie! — Eu tinha percorrido um labirinto inteiro pra tirar uma selfie com Kelly na casa dos espelhos, não ia sair de lá sem uma lembrança. — Agora vamos ver… Você tem 3G, certo? Podemos nos separar e tentar encontrar a saída, assim quem sair primeiro manda a localização pro outro e tenta guiar o caminho. O que acha?
— Não existe precisão suficiente no mundo pra isso, cacete! Mas já que é nossa melhor chance, então tudo bem. Fica bem sozinho e toma cuidado.
E nos separamos, cada um tomando um caminho na tentativa de encontrar uma saída dali. O eco do local fazia com que meus passos e os passos da Kelly me seguissem de perto e dessem a impressão que eu estava o tempo todo perto dela. Era uma maneira segura de não parecer que eu estava sozinho. Tentei não pensar muito sobre esse fato e só fui me guiando pelo instinto de como sair dali o mais rápido possível, virando em cada esquina tentando encontrar a saída daquele lugar e indo cada vez mais em caminhos diferentes e tortuosos, até que topei algo, como uma ponta do piso levantada, me fazendo tropeçar e cair de cara no chão.
Até aí, teria sido tranquilo e de boa, mas não. Nada estava completo sem que houvesse drama, choro e ranger de dentes até que alguém sofresse de bruxismo a noite. A vida era realmente perfeita. Antes que eu me levantasse, comecei a ouvir o barulho agoniante de várias tesouras e cliques batendo incessantemente, de maneira nauseante e perigosa. Tentei ficar estático, mas quando senti patinhas andando pelo meu corpo e especialmente pela minha cara, me levantei abruptamente e me arrependi de olhar no espelho.

Kelly Cordeiro

Um grito varou aquele lugar e do nada, vários passos apressados começaram a correr na minha direção. Meu pensamento disparou e eu só pensei em Daniel nessa hora. Tudo o que eu fiz, foi começar a correr por aquele lugar, tentando seguir o eco dos passos dele e só conseguindo me perder mais e mais. Aquela situação era horrível e insustentável! Eu tinha certeza que tinha acontecido algo com Daniel, e eu ali, sem conseguir fazer nada, correndo que nem uma louca pelo local tentando achar alguém, e temendo pelo pior.
Os passos apressados ecoavam no local enquanto eu corria. Mesmo quando parei de correr novamente, eu ainda escutava eles vindo de algum lugar que eu não conseguia determinar. Minha respiração arfante denunciava que eu tinha corrido mais do que meu corpo físico terreno conseguia aguentar, e em algum lugar pelo caminho, os ecos dos passos também diminuíram até a constante de um caminhar pesado, que me deixava nervosa. Poderia ter outra pessoa ali além de mim e Daniel? Poderia ser uma pegadinha, ou realmente tinha um maluco tentando dar um fim na gente?
— Tem alguém aí? Daniel? — O eco dos passos foi tudo o que eu tive em resposta. Comecei a correr novamente, dessa vez redobrando a velocidade, apenas pelo desespero de sair daquele lugar.
Eu corria olhando para o chão, ao meu redor estavam vários espelhos que causavam efeitos diferentes. A luz meio difusa gerava uma penumbra e um ambiente meio macabro. Eu me peguei pensando que o Daniel merecia um soco muito bem-dado por me arrastar para aquele maldito labirinto de espelhos. Eu simplesmente odeio espelhos. Mas não conseguia deixar de me preocupar. Sim, tudo o que eu queria era sair dali por enquanto, mas socar e salvar Daniel estavam entrando em equivalência.
Podia sentir minhas pernas começando a ficar dormentes. Logo eu não aguentaria mais correr e a saída daquele lugar parecia impossível de ser achada. Eu não conseguia mais ver para onde eu estava indo e nem pensar com clareza pra sair dali. Acabei parando no que parecia ser um beco sem saída com vários espelhos formando um semicírculo, quase no mesmo instante o eco de passos parou, dando a entender que eu estava sozinha. Olhei ao redor procurando a direção que ele tinha vindo, só pra me arrepender logo em seguida. Eu estava correndo de cabeça baixa e quando olhei ao redor, acabei por olhar diretamente para os espelhos, algo que eu havia evitado desde que entrei ali. Um calafrio percorreu minha espinha, propagando a sensação gélida e vazia quando escutei aquela voz que tanto me fizera chorar um dia.
"Parece que não tem mais forças pra fugir não é mesmo? Que peninha…. Nenhum dos seus amiguinhos veio te salvar…" Agora eu tinha nitrogênio líquido correndo pelas minhas veias e meu corpo tentava evocar a reação do suor, mas o mesmo também vinha frio. Nos espelhos em minha frente, meu reflexo parecia se mover de forma independente, sustentando um sorriso de escarnio estampado no rosto e um olhar acusador. Minha surpresa e pavor eram tao grande que quase não notei que o reflexo tinha a aparência da Sophie, a antiga Sophie. Da mesma Sophie que eu via nos meus pesadelos sendo atravessada pelos espinhos de sombra Tenebrae. Eu sabia o que viria, sabia que eu não podia lutar contra aquilo… Eu queria fugir, mas meu corpo parecia ter virado pedra. A Sophie do reflexo soltou uma gargalhada ao percebeu meu esforço em vão pra tentar sair dali.
"Você é realmente bem fraca, não é? Correndo de um lado para o outro como se fugisse de um fantasma. Que ser patético surgiu para tomar o meu lugar. E depois de tudo o que aconteceu no casamento de Klaus Bhramani, aqui está você… Se divertindo e sendo feliz." Seu tom era de puro desprezo e suas palavras pareciam facas cegas penetrando no meu peito com violência. Eu me deixei levar pelos meus amigos e acabei apagando da minha mente os últimos acontecimentos. Eu só queria esquecer aquilo…
"Coitadinha… Parece que te deixei chateada com o que eu disse não foi? Posso pedir desculpas por trazer a tona memórias tao ruins se você quiser." O sarcasmo era evidente naquela voz e minha noção do ambiente ao redor já tinha ido embora. Já não escutava mais os passos apressados ecoando pela casa de espelhos, e arrisco dizer que não via mais nada também além daquele semicírculo de espelhos e da minha outra “eu” a minha frente.
— Pare, por favor. Me deixe em paz. —Minha voz quase não saia e eu só agora tinha percebido que tentava bloquear todo o som tapando os ouvidos com minhas mãos, mas aquela voz parecia ecoar dentro da minha cabeça.
"Parar? Parar com o que? Parar de te lembrar do quão patética você é?" A voz dela agora exprimia um tom raivoso. "Parar de te lembrar das derrotas sucessivas que você sofreu nas mãos da Insanidade?" Dessa vez a voz parecia vir de outro espelho e eu pude ver a mesma imagem da antiga Sophie refletida nele também. "Parar de te lembrar que vocês foram atacados naquele salão novamente e que você falhou em perceber o plano de Lewenstat?". Outro espelho ecoava aquela voz. "Parar de te lembrar de quantas pessoas morreram e você não pode fazer nada? Parar de te lembrar que você não pode proteger Hellser e Lilian e ainda por cima deixou os filhos deles sozinhos para vir tirar férias?”.
E mais outro espelho, e mais outro e mais outro e mais outro. "Parar de te lembrar que todas aquelas cidades foram atacadas e você não estava lá pra ajudar ninguém? Parar de te lembrar que Lawliet está lutando naquela guerra e você está aqui? Que não serve nem pra cumprir seu dever de sumo sacerdotisa?" Nesse ponto os espelhos todos ecoavam essa voz. Um coro de vozes acusadoras e dedos apontados em minha direção, me deixando acuada, nervosa, exaurida de qualquer vontade de lutar, me deixando sem opção. Eu não sabia o que fazer. Ela estava certa, e não importa o quanto eu me esforçasse, ela estava certa…
Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto as acusações continuavam e aquele sentimento de impotência foi se transformando em raiva. Raiva de mim mesma, raiva daquela Sophie, raiva do Tess, raiva do Lawliet, raiva do mundo… Eu não aguentava mais escutar aquilo, não aguentava mais ser machucada por aquelas palavras e ver a mim mesma tentando esfregar meus erros e impotências, minha própria inutilidade contra mim… Eu não aguentava mais, então eu explodi.
— JA CHEGA! CALA A BOCA! —E eu me atirei em direção a um dos espelhos e desferi um soco forte, impiedoso e poderoso, fazendo a imagem rachar. Uma gargalhada fria e cruel começou a ecoar em meus ouvidos seguidas de várias outras gargalhadas iguais. Eu dei um segundo soco e o espelho estilhaçou, mas aquele riso não parava de ecoar. Parti então pra cima de outro espelho, desesperada, socando e chorando, as vezes gritando, e eu continuei até que todos os espelhos do local estavam tão estilhaçados quanto meu braço. Minha memória é confusa depois desta parte. Não lembro de mais nada e nem sei quantos espelhos eu destruí no meu acesso de raiva.

Daniel Zavascki

Depois te ter sido picado na cara por um escorpião preto, o inchaço já começava a aparecer. Não consegui determinar direito se eram muito venenosos ou extremamente venenosos, mas certamente a dor que eu sentia classificava-se por si só. Meu rosto já tinha virado uma bola vermelha com um furo na bochecha e sangue vazando, enquanto eu me arrastava pela casa de espelhos procurando Kelly. Foi um erro virmos, e eu precisava tirá-la daqui.
Não a achei no nosso corredor, então continuei procurando, até que ouvi um grito de sua voz desesperada e raivosa, então corri na direção do grito, tentando sem sucesso me encontrar pelo eco. Quando finalmente já cheguei próximo o bastante para escutar o choro e os gritos, percebi que estava em um dos becos sem saida do labirinto de espelhos e que Kelly estava muito ocupada destroçando os espelhos com as mãos nuas. Eu queria chegar e impedir que ela se machucasse ainda mais, mas a segurança vinha primeiro. Mandei uma mensagem pra Joaninha com urgência, escrito: “Socorro casa dos espelhos escorpiões hemorragia kelly”.

E avancei até a Kelly, cambaleando, já meio tonto pela toxina do veneno, mas com minhas últimas forças, segurei a minha amiga e impedi que ela continuasse se machucando. Ela pareceu se acalmar um pouco quando sentiu meu toque, e por isso seu corpo todo relaxou e se deixou cair, mantendo uma expressão vazia. Acho que era isso que chamavam de estado de choque. Eu já estava a beira do desmaio, mas tentei nos levar até o corredor principal, pelo menos, para facilitar o trabalho de quem quer que viesse nos resgatar.