Kronos Academy - Deborah I
Deborah I
Mais uma vez ela acordara no meio da noite.
Seu companheiro de cama estava ao seu lado, o abdômen desnudo subindo e
descendo, a expressão pacifica de um sonho agradável. Ele não notara o terror
noturno, pelo menos não essa noite. As lagrimas ainda escorriam quentes pelo
seu rosto, mas ela não soluçara, não fizera nenhum som. Não conseguia mais
gemer, apenas gritava ocasionalmente.
Acontecera há 1.875 anos, mas a dor era tão
intensa e dolorida como se tivesse acabado de acontecer. Suas mãos foram para o
pingente de coração em seu pescoço, a única lembrança física dele, que só
sobrevivera por ele ter sido cuidadoso de envolve-lo com o que ela gostava de
chamar de Magia Temporal. Muitas vezes ela se perguntava se ele previra o que
aconteceria, por isso tivera o cuidado de garantir que seu presente mais
importante permanecesse. Mas não... ele não poderia tê-la deixado de proposito.
Fora um acidente... ele não poderia ter previsto...
As lagrimas ainda banhavam seu rosto e ela
segurou um grito de dor mordendo os lábios. Mordeu-os até sentir o gosto de
sangue. Se encaminhou com passos pesados até a parte de seu quarto que seria um
escritório, era distante da cama, e tinha um isolamento acústico. Seu
companheiro não a ouviria. Só após a porta metálica fechar-se atrás de si ela
se permitiu cair de joelhos e gritar.
Gritou maldições e pragas dirigidas às
Moiras. Gritou o nome dele, implorando por ele, mesmo sabendo que não poderia
ouvi-la.
Sonhara com ele outra vez... Não um
pesadelo. Não, seus sonhos eram feitos de paz e alegria. Ele estava vivo
novamente. Ele a abraçava e dizia que a amava. Ele lhe presenteava com o
pingente e prometia jamais lhe deixar. Ele fora o único que ela realmente
amara, o único que se permitira amar, o único
que a correspondera... e o que perdera.
Rastejou até a escrivaninha, pegou a chave
no bolso abrindo a gaveta secreta. E ali estava. O ultimo desenho que fizera,
na ultima vez que sentira vontade de desenhar. Ali estava o rosto dele, rindo
de alguma coisa. Os dedos alisaram os traços, e ela teve o cuidado de não
permitir que nenhuma lagrima manchasse o papel. Gritou novamente, com a saudade
apertando o peito.
Por que? Por que ele?
- Por que essa foi a vontade de Paradoxo –
respondeu uma voz masculina
Ela se virou em um salto, se posicionando
defensivamente. Saindo da sombra vinha um aluno, um tal de Alexander... Mas o
que ele poderia saber sobre...? Então ela percebeu a cor de seus olhos, de um
vermelho sanguinolento.
- Morgaine! – ela rosnou em conhecimento –
Como você...?
- Não lhe interessa! – disse em um tom
cínico – Mas o rapaz está sobre o meu controle, pelo menos temporariamente.
Logo ele retornara ao seu quarto e continuará a dormir, amanhã acordará sem
nenhuma lembrança dessa nossa conversinha.
Ela semicerrou os olhos desconfiada, mas
assentiu.
- Que seja! Não é como se eu...
-
Por favor, querida – o rapaz deu um passo na direção dela, toda a postura
corporal dele mudada, andava languidamente, rebolando como se tentasse seduzir
todos ao seu redor, um habito que na maldita que o controlava poderia ter feito
sucesso, mas agora só beirava ao ridículo.- Eu há conheço há muito tempo. Não
precisa fingir comigo. Sei que sente a falta de seus amiguinhos.
- Você não sabe nada sobre mim!
- Sim, eu sei. Sei mais do que você inclusive.
Sei até as verdadeiras circunstancias da morte dele... – prosseguiu em um tom
insinuante
- Mentirosa! Foi um acidente! Você estava
em Salem quando aconteceu, não tente me enganar!
- Foi isso que
as demonias te disseram? – riu em verdadeiro divertimento – Acha que foi apenas
por aquele incidente com as bruxinhas que fui aprisionada? Não, minha querida.
Elas sabem da verdade, ou ao menos parte dela. Seu noivo descobriu as intenções
de Paradoxo antes mesmo que pudesse começar seu trabalho. Ele intentava denunciar
às Moiras, e trocar tais informações pela liberdade de viver com você... Quando
Paradoxo o confrontou. Eu estava lá, você sabe... Eu que descobri as intenções
do idiota!
- E o denunciou
ao assassino! – vociferou ela se sentindo tonta, as novas informações traziam
outra luz à historia que ela já vira varias vezes em sua mente.
- Sim, era meu
dever como sua aprendiz. Embora eu deva confessar que não imaginava que ele
mataria o pobre rapaz. Foi algo terrível de se ver. Mas as Moiras poderiam ter
impedido você sabe... Elas viram quando os árabes o capturaram com dezenas de
acusações sem fundamento. – prosseguiu o rapaz com um sorriso cruel no rosto,
divertindo-se com o sofrimento que causava – Creio que elas queriam afinal
vê-lo punido. Vocês dois desrespeitaram uma das regras mais importantes delas.
Tsk. Tsk. Tsk. Algo que qualquer aluno sabe, você não pode se apaixonar,
querida – prosseguiu em um tom zombeteiro, como se falasse como uma criança. –
Você deve imaginar o que se seguiu. Algumas amputações, chicotadas, um olho à
menos, os dentes espalhados no chão. É claro que o rapaz não poderia fazer
nada, as mãos estavam amarradas à uma distancia segura uma da outra, ela não
podia mexer no relógio. Mesmo perto do fim ele tinha esperança sabe... Repetia
para si mesmo que as Moiras iriam intervir, que você iria salva-lo, que ele
teria a chance de tocar no relógio... – o rapaz deu uma gargalhada – Eu mal
posso acreditar na ingenuidade. Mas ele estava delirando de dor...
Lagrimas quentes
desciam com ainda mais intensidade pelo roso da mulher. Ela mal podia acreditar
no que ouvia. Queria estraçalhar a maldita. Estraçalhar as Moiras. Estraçalhar
Paradoxo. Contudo o choque não deixava que movesse um musculo.
- É claro que
quando começaram a amputar os membros ele deixou de ser tão esperançoso.
Primeiro foram os pés. Os órgãos sexuais. Depois uma das mãos. E enfim a mão do
relógio. Quando o relógio caiu ele abaixou a cabeça e teve certeza de seu fim.
E estava certo, é claro. Paradoxo pegou o relógio do chão cheio de sangue, e
começou a desmonta-lo. Lentamente. Ao fim de 30 minutos... O relógio se desfez
em cinzas. E seu noivinho também. – o rapaz deu uma risadinha de prazer – Pelo
menos isso acabou com o sofrimento dele não é? É claro que isso criou um
paradoxo. Todas as encarnações dele futuras e passadas desapareceram. Todos
seus pertences físicos. Toda memoria dele... Exceto para os Viajantes. Após
isso você sabe o que houve. O paradoxo durou algumas horas, às quais meu
querido professor e líder usou para ajeitar alguns detalhezinhos das linhas do
tempo. Algo que as demonias sequer perceberam. Mas eu errei. – fez uma careta –
Em minha arrogância e desejo de agradar meu líder tentei me livrar das três
pragas. Obviamente não tive sucesso. As Moiras tentaram me interrogar, mas como
não podiam me fazer falar, me trancafiaram naquele calabouço. Entretanto logo,
logo eu estarei livre. – o rapaz deu um sorriso cheio de veneno
- E por que está
me contando isso? – rosnou a mulher, embora as lagrimas ainda descessem pelo
rosto ela ficou satisfeita de ver como a voz saíra ameaçadora, embora
ligeiramente grotesca, mais rosnado que humana.
- Por que as
três demonias sabiam o que ia acontecer. Mesmo que Paradoxo não tivesse
esmagado o relógio, seu noivo teria morrido de uma forma cruenta. Elas não
podem continuar no comando. Elas não devem, elas não merecem.
- E quem merece?
Você? Você entregou um dos nossos àquele assassino! Você assistiu enquanto os
mortais o... – ela engoliu em seco sem poder continuar – As Moiras são três
vadias que podem ter um ménage à troa pelo que me importa. Mas você e seu
mestre não são muito melhores que elas!
O rosto do rapaz
se contorceu em uma careta.
- Ele não é meu
mestre. É meu líder e meu professor, não meu mestre! E nos somos melhores que
as Moiras. O que aconteceu com seu noivo foi uma consequência necessária! Para
destronar as demonias é necessário transformar o reinado delas em um caos.
Quando elas não forem mais que poeira uma nova ordem pode surgir desse caos!
- E essa seria a
ordem de Paradoxo? – ela cuspiu com desprezo no rosto do aluno – Que você e ele
queimem no inferno.
- Cuidado,
querida. – disse o aluno limpando o rosto – Agora que sabe o que realmente
aconteceu com seu noivo deveria saber que se opor à Paradoxo pode ser perigoso.
- E Paradoxo
deve saber que sou uma mulher vingativa. Eu vou matar esse verme. E à você
também Morgaine.
O rapaz fechou o
rosto com um ar de repreensão. Depois suspirou e deu de ombros fechando os
olhos. Toda a postura corporal desapareceu, ele soltou um pequeno ronco, e ela
soube que Morgaine deixara o corpo dele. Agora ela apenas um aluno sonambulo,
ela abriu a porta e o garoto foi andando à passos lentos de volta para o seu
quarto.
A mulher trancou
o desenho de volta na gaveta secreta, trancando-a. Não pensaria nele, pelo
menos por enquanto, sua mente não era capaz de lidar com o que ouvira. Pensaria
apenas em sua vingança.







