quarta-feira, 29 de abril de 2015

Kronos Academy - Paradoxo I

Paradoxo I




O encapuzado* andava lentamente por entre as masmorras de Kronos Academy. Sua capa feita da mais pura energia de paradoxos ondulava mesmo na ausência de vento ou movimento. Parou em frente à cela, cercada pela energia amarela e vermelha daquilo que as Moiras não compreendiam. Sorriu para si mesmo apenas admirando o local, as vezes gostava disso, gostava de apenas observar a energia dourada se movendo ondulante, semelhante ao fogo... Era tão belo.

Mas as Moiras não compreendiam tal beleza. Elas não compreendiam quase nada em sua arrogância... Como as odiava. O sistema delas estava ultrapassado, já não eram mais capazes de reger o mundo, uma nova era se aproximava, uma nova ordem. E para gerar uma nova ordem primeiro precisava vir o caos.

O glorioso caos.

Deu as costas à cela encaminhando-se para as áreas externas. Se tudo desse certo em breve um novo paradoxo se iniciaria, então seu plano podia começar. As demonias sequer notavam qual era seu real objetivo, não viam as pequenas mudanças que ocorriam nas Linhas do Tempo mesmo agora. O mundo estava mudando. E quando mudasse seria a sua ordem que o regeria.

Seus pensamentos mais uma vez se voltara para a razão de tudo isso. Segurou entre suas mãos o pingente de foice, o ultimo resquício do amor de sua vida. Passara muitas encarnações sofrendo, vendo vida após vida sua cara metade morrendo em seus braços, vez após vez lhe dizendo que tudo ia ficar bem, para que a ultima coisa que ouvisse antes de morrer fosse uma mentira.

Caminhou pelos jardins dirigindo-se ao templo de Nemesis, para o local que matara Elizabeth. Não queria ter feito isso, a rainha fora sua amiga por muito tempo. Mas fora necessário. Ela descobrira tudo e lhe confrontara. Ameaçara dizer às Moiras... Não lhe dera outra escolha.

Embora talvez, em sua nova ordem, ele pudesse recompensa-la. Admirou a imagem da deusa, as asas de ônix reluzindo contra o mármore, a espada nas mãos, em riste, prestes a enfrentar um inimigo. E o rosto, o rosto severo e imperdoável, o rosto da justiça, o rosto da vingança, o rosto que se assemelhava ao de sua alma gêmea, em todas suas encarnações.

A saudade doía em seu peito, tão misturada ao desejo de vingança que sequer podia distingui-los. Ajoelhou-se perante a deusa. Se as Moiras existiam talvez ela também, talvez estivesse em algum lugar daquela dimensão ouvindo suas preces.

- Nemesis, poderosa vingadora, senhora da justiça, ouça minha prece! – ouviu sua voz ecoando em suplica –  As Moiras são culpadas e merecem senti tua pesada mão sobre elas. Oh senhora, ajuda-me em meus propósitos.

Um vento frio atravessou o templo, fazendo com que sua capa tremulasse de forma ainda mais incongruente. E por algum motivo sentiu que a deusa o ouvira, e mais do que isso o atenderia. Sorriu em deleite. Era apenas uma prova que seu caminho estava certo.

Em breve teria sua vingança. Elas haviam lhe tirado tudo o que tinha de mais precioso. Faria o mesmo. Lhe tiraria sua preciosa ordem. Sua tapeçaria. Seu poder. E ao fim.... Elas iriam implorar para que lhes tirasse a vida.


*Usei o masculino por questões praticas, não concluam à partir disso o sexo do vilão. 

Kronos Academy - Rainha Elizabeth I

Rainha Elizabeth I


Ninguém entendia.

Nenhum deles era capaz de compreender. Como poderiam? Quem ali tivera a mesma vida que ela? Quem ali fora rejeitado e perseguido por toda a sua família? Não importava o que os livros de historia diziam. Ela sabia da verdade. Ela era razão de sua nação ser o que era hoje. Ela vivera em uma corte cheia de mentiras, tramas e traições, usando cada uma delas ao seu favor. Ela fora violentada por um lorde que jurara protege-la. Ela se erguera como rainha, em uma época que mulheres sequer tinham direito à voto. Ela assistira centenas de vezes seus entes queridos sucumbirem um a um, enquanto permanecia para sempre imutável entre as Moiras.

Mas não mais. Ao menos um ela conseguira livrar do maldito circulo, após cerca de 7 milênios de trabalho duro e lealdade absoluta, seu filho estava ali. Ela observou o adolescente com um sorriso amoroso que só uma mãe poderia ter... O conhecimento da existência dele não perdurara. Ela sempre fora demasiado cuidadosa... O único fruto de sua carne, e ilegítimo, filho do único homem a quem se entregara por livre e espontânea vontade, Robert Dudley.

Quando se descobrira gravida sequer considerou abortar... Usou vestidos que escondiam sua condição, e após o menino nascer sua existência fora conhecida apenas pelos que a rainha de fato confiava... E fora justamente essa a ruína dele. Sendo um bastardo sem direito ao trono, após a morte da mãe o rapaz fora assassinado pelos homens que um dia foram de confiança de sua mãe, subornados e temerosos da ideia de outra guerra civil.

Elizabeth assistira por milênios o rapaz morrer. Até o dia que acumulara credito o suficiente para pedir às Moiras que o trouxessem à ela. E assim elas fizeram, é claro que por interesses próprios. Com os únicos que sabiam de sua existência acreditando que o rapaz morrera, seu único filho tivera a oportunidade de viver por milênios, imutável, como ela. O preço era alto, principalmente para ele, sendo jovem, belo e impetuoso. Mas ao menos eles tinham um ao outro.

Charles Tudor Dudley não era um prisioneiro como os demais, não fizera nada de errado, contudo não fora considerado digno de ser um viajante, permanecendo como refém em Kronos Academy. Não portando um grilhão no pescoço como os demais, e sim um único no pulso, que facilmente se confundia a um bracelete.

- Mãe, por favor...

- É claro, pardon me, contudo és tão belo adormecido – disse em um tom carinhoso e maternal, com seu forte sotaque inglês.

Ele colocou o travesseiro no rosto como para se esconder. Mesmo com milênios de existência permanecia um adolescente.

- Notastes os nossos recém-chegados? – questionou mudando de assunto

- Sim – disse ele com um sorriso malicioso

A antiga rainha dirigiu uma olhar penetrante ao filho, um olhar de claro aviso. O rapaz suspirou em concordância. Conhecia as regras, embora não soubesse a historia completa. Elizabeth sabia. Tal como os demais professores, os recém-chegados não eram desconhecidos. Tanto as Moiras como os docentes haviam assistido às vidas de cada um com atenção, vendo os mesmos velhos karmas se repetirem novamente.  Elizabeth olhava com o coração cheio de compaixão. Eles permaneciam teimosos, mesmo após varias encarnações... Por que simplesmente não quebravam o ciclo? Mas ela sabia a resposta.

Suspirou saudosamente. Houvera uma época que eles nada mais eram do que uma família, grande e feliz. Harmoniosa e unida. Mas essa época passara e jamais retornaria...

Então ela simplesmente fechou os olhos, até sentir o relógio vibrar, e brilhar em um perigoso amarelo. Um paradoxo estava acontecendo.

*

A Sala do Tempo estava um caos, o que era tudo que as Moiras mais abominavam. Um nó se formara na Tapeçaria das Linhas do Tempo, e este brilhava incandescente, com uma luz forte o suficiente para cegar qualquer criatura viva, exceto as deusas.

Átropos, com a aparência de uma senhora idosa procurava com os olhos atentos por entre a tapeçaria algum fio que pudesse cortar para tornar o procedimento mais fácil e rápido, ela não podia simplesmente talhar o fio, pois este estava atado à dezenas de outros, que estavam atados à centenas, se o fizesse toda a tapeçaria poderia entrar em colapso.

Cloto, a criança, tecia rapidamente novos fios, esperando que novas peças pudessem impedir as ações de Paradoxo.

E Laquesis procurava por entre as agulhas. Não poderia usar nenhuma das novas, eram cegas e longe de estarem prontas, as mais antigas eram mais confiáveis. Contudo Elizabeth acabara de retornar de uma missão, poderia não ter condições de lidar com o adversário. Deborah estava muito instável, não traria respostas, mataria ou morreria no processo. Não que nenhuma delas se importasse com as vidas de qualquer um dos seus hospedes. Mas mais do que tudo, elas presavam seus próprios poderes, e paradoxos as limitavam, elas precisavam de respostas.

A deusa, de aparência adulta e bela finalmente encontrou a mais aconselhável, Annia. Caminhou em direção à Tapeçaria decidida, ao mesmo tempo em que algum lugar da academia o relógio da professora ruiva brilhava vermelho. Laquesis começou a desfazer o nó, era um processo delicado, ela não podia desfiar o fio, ou as consequências seriam desastrosas. A vida de Annia estava em suas mãos, da mesma forma que estabilidade do futuro estava nas mãos da professora.

Horas se passavam lentamente, nenhuma das deusas falava, mas todas estavam insatisfeitas. No momento, as três concentravam todo o seu poder em desfazer o nó, se desviassem a atenção, ainda que por um milésimo de segundo poderiam perder tudo. E era nesse momento, em que perdiam a onisciência que alunos e professores aproveitavam para quebrar as regras, casais aproveitando momentos de liberdade, alguns mal educados se referindo à elas de maneira pouco educada, visitando família ou a si mesmos... Todos eles criavam pequenos nós na tapeçaria, que sofrendo tanta atividade, acabariam por desfazer esses nos por conta própria ao fim da crise.

Ainda assim, elas permaneciam furiosas. Suas regras eram sagradas, não admitiam que fossem quebradas. O conhecimento de que estavam sendo e não havia nada que nenhuma delas pudesse fazer não apenas as revoltava, as tornava cegas de ódio.

*


Chuck aproveitava o momento para extravasar os hormônios. Elizabeth contudo se dirigia em silencio ao local que sabia que Paradoxo estaria... Eram apenas suspeita no inicio, mas agora ela sabia, como podia não saber? E mesmo que fosse arriscado, ela não se importava, precisava de algumas respostas. 

Kronos Academy – Através das Linhas do Tempo

Nesta saga você terá uma oportunidade concedida à poucos, viagem pelo tempo. Com o ensinamento dos Professores, a supervisão das Moiras e o auxilio de Monitores, enfrentará e resolverá todos os tipos de casualidade que podem se converter em paradoxos, além de enfrentar o próprio Paradoxo. Há muitos mistérios para serem descobertos em Kronos Academy. Não confiem em ninguém, mas tentem não ser vitima da própria paranoia. Afinal o que acontece agora, já aconteceu antes, e certamente acontecerá de novo.


Kronos Academy - Sinopse

Kronos Academy consiste em uma instituição de ensino altamente seletiva, não muito conhecida, cujo propósito é treinar os chamados de Viajantes. Viajantes do Tempo. Estes escolhidos pelas próprias Moiras para a função de manter as Linhas do Tempo intactas, bem como evitar catástrofes futuras da melhor maneira possível.

As Moiras são as diretoras de Kronos Academy, as verdadeiras onipotentes, onicientes e onipresentes, o mais próximo do que os mortais imaginam que seja um Deus.

Kronos Academy é dividida em algumas categorias,  é fácil notar a qual categoria um Viajante pertence através dos Relógios. As Moiras possuem relógios de platina pura, cravejado de diamantes. Os relógios dos professores seriam de ouro. Dos monitores, prata. Dos alunos, bronze. E para os prisioneiros, aqueles que falharam com seu dever para com as Diretoras, grilhões de ferro.

Kronos Academy possue centenas de regras, e todas circulam envolta da não criação de paradoxos. As que mais se destacam:

1- Não criem paradoxos

2- Não viagem para o futuro.

3- Não tentem entrar em contato consigo mesmos ou parentes, próximos ou distantes.

4- Não se envolva romanticamente com ninguém.

5- Respeitem a linha do tempo, evitando que ela se altere conforme as instruções dos monitores.

6- Evite futuras catástrofes conforme a vontade das Moiras.

7- Respeitem as categorias acima das suas.

8- A violência entre os Viajantes não será tolerada.

Bem vindos à Kronos Academy

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Ahtrim Ayon – Remiel – Crises Políticas

 Lucifer observava tudo. Mesmo sem saber porque, Lucifer observava tudo, as vezes pela diversão, outras vezes pela necessidade de aprender. Algumas pessoas diziam que Lucifer era alguém com sede de conhecimento, aprendizado rápido e mente precoce. Nunca viu isso em si, mas continuava observando tudo. Observou como os seus destruíram Nyxsage e como Tess os impedira. As vezes, Tess podia ser um cuzão, mas Lucifer sabia do que seu coração era feito.

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Remiel andava preocupado com tudo o que estava acontecendo. Seus iguais estavam divididos em uma disputa política que não tinha fim. Os arcanjos sob o comando de Aziel e Salatiel estavam devastando todos os pontos que tinham energias conflitantes com sua forma energética. Os anjos se recolheram em sua esfera, o Hall, e nem mesmo Lucifer conseguia tirá-los de lá. Certamente, a decisão de Salatiel de ordenar aos anjos usando a Aura Imperial tinha sido impactante até demais. Remiel sabia onde isso ia acabar.
A Voz da Justiça se encaminhou até os aposentos de seu irmão mais velho. Precisava de um auxílio, de um conselho que fosse, mas não conseguia mais aguentar a pressão de ficar sozinho em sua bolha. Ele precisava da Lâmina de Alabastro, mas esse guerreiro tinha se trancado dentro de Uriel há muito tempo. Um medo cresceu dentro do arcanjo, ao pensar que seu irmão não quisesse mais lutar pelo que fosse certo. Com um estremecimento, afastou essa ideia da cabeça. Só saberia do posicionamento de seu irmão, depois de falar com ele.
Acha mesmo que vai tirar Uriel de seu confinamento? Eu já tentei de todos os jeitos fazer isso, mas ele parece que ficou mais teimoso esses últimos tempos. Acredite, eu mesma já tentei. — Anael clamou, surgindo para seu irmão.
Que bom ver você de novo, minha irmã. Foi muito gentil da sua parte me avisar quando eu finalmente crio coragem para falar com ele dentro da bolha dele. — havia sarcasmo na voz de Remiel, mas estava balanceado com a alegria de rever a pequena Anael.
Você sabe que eu sempre venho na hora certa. Como quando você precisava daquela lança que atingiu Lillith de forma perfeita. Ou daquela vez que eu arranquei o coração de Abaddon enquanto você apanhava feito uma vadia para ele. Ou ainda daquela vez que…
Já deu pra entender, Valquíria Solar. Eu sempre preciso de ajuda quando se trata de vencer meus inimigos. Por isso vim pedir a ajuda do meu irmão, e a sua também, querida irmã. Salatiel está dizimando todos os focos de energia negativa que podem existir nesse plano, e nós mais do que ninguém sabemos o quão perigoso isso pode ser.
Ai ai, Salatiel. Esse cabeça de vento sempre foi meio egocêntrico. Mas realmente, eliminar todos os focos de energia negativa desse mundo vai culminar com o mundo entrando em Colapso. Bem, já que eu não tenho nada melhor pra fazer, eu topo dar uma coça nele com você.
Com um sorriso torto, Remiel olhou para a garota que estava a sua frente. Ela era jovem, por assim dizer, e ainda não entendia completamente toda a questão política em que se metera ao ser tão forte. Mas ela ainda não era Uriel, e ele precisava da força dele, de Zadkiel e de Lucifer. Só esperava que todos estes estivessem tão interessados em pegar Salatiel e Aziel como ele estava, e assim restaurar o equilíbrio energético de Zahalysne.
Você não precisa ir se for levar desse jeito. Quero que só venham os verdadeiros interessados em deter aqueles insanos. Você sabe que eles começaram a limpeza hoje mesmo fazendo a desgraça e Nyxsage? A destruição daquele local vai ser catastrófica se o Tess não resolver isso logo.
A Valquíria começou a pesar as palavras de seu irmão, medindo cada consequencia do ato de tomá-las como verdadeiras. Tess Leon. Tinha que admitir que o cara era ousado por ter feito tantas coisas insanas no mundo e ainda estar vivo. Ela tinha um pouco de apreço por ele desde quando o mesmo tinha lacrado o cú dos Aspectos dentro da zona deles, selado as Pontas do Pentagrama no Abismo, e impedido o deus do Vazio de assumir o trono dos deuses de novo. Ele era um prodígio, mas, ainda assim, fraco em comparação ao que poderia ser.
Tess não vai mais agir. Ele parou de agir no momento que salvou as almas de Nyxsage do Ostracismo. Ele salvou a Lola Nightshadow, e deu a chance da mesma restaurar a vida em sua cidade. Ele fez o suficiente. Agora está em nossas mãos abrir o cú da Aziel e escarrar com pus lá dentro. — Anael olhava distraída para suas unhas. Tinha medo de estar certa, mas sabia que não estava errada.
Agora mesmo que temos que agir. Preciso falar o quanto antes com Uriel, e você, vá procurar Zadkiel. Precisamos de todas as nossas forças unidas, pois o perigo que se abate sobre nós é imenso. Quando todos nós tivermos concordados, iremos até Lucifer.
Quando a menina aquiesceu, Remiel virou-lhe as costas e adentrou na bolha de seu irmão. Havia muito que tinha estado ali, e agora várias coisas tinham mudado, refletindo como a personalidade de Uriel tinha mudado ao longo das eras. Seu irmão costumava ser organizado com as suas armas, suas armaduras e roupas, mas hoje ele estava muito mais desleixado. Havia armas espalhadas pelo chão, mostrando que a organização tinha passado longe daquela bolha, e pedaços de armadura pendendo por todos os lugares. Roupas sujas se amontoavam aos cantos e montes. Era surpreendente que ela ainda encontrasse seu caminho pra Paradise Alley.
O que você pensa que está fazendo na minha bolha sagrada? Saia imediatamente com as mãos para cima! — uma voz gritou de dentro do quarto. Algo estava errado.
Uriel! Eu não saio daqui até falar com você! Apareça, por favor, e me escute!
Um ser selvagem pulou do meio de roupas sujas, fedendo, com a barba já desgrenhada e os cabelos engordurados e sujos. Seus olhos eram belos, mas seu rosto parecia ter ficado esquálido e sem graça ao longo dos tempos. Algo de muito errado estava acontecendo ali. Remiel sabia que seu irmão jamais se entregaria à decadência como ele tinha se entregado agora. Não podia ser só pelas disputas políticas entre os arcanjos ou pela deserção de todos os anjos. Tinha algo mais.
Eu já disse para sair da minha bolha e voltar para sua preciosa Paradise Alley. Eu não quero ver você e nem nenhum dos outros filhos da puta que se intitulam donos do mundo. Vocês são um bando de merda, e eu não tenho nada a tratar com vocês. — Uriel pressionava a garganta de seu irmão com força o bastante para esmagar granito, mas Remiel mantinha a expressão impassível.
Alguns minutos se passaram, com ambos se encarando nos olhos. Uma espécie de faísca saltava de ambos, tentando desesperadamente se conectar uma com a outra e acender a chama da velha amizade que existia entre ambos. Remiel estava aberto ao contato, embora a Espada de Alabastro permanecesse na defensiva. Por fim, Uriel não aguento e abraçou seu irmão de tantas eras com força e se pôs a chorar as dores do âmago da alma. Dores que não sentia desde que tudo ruiu.
Remiel pacientemente pegou seu irmão no colo e se pôs a acalmá-lo. Sentia vontade de chorar junto dele, mas precisava ser mais forte do que isso. Precisava ser forte por ambos, pois agora viria a briga definitiva. Depois de acalmá-lo, se encaminhou para o banho com seu irmão, para lavá-lo, cortar-lhe o cabelo, aparar sua barba e alimentá-lo, nessa ordem e não nesse mesmo local. Por fim, deitou seu irmão, já mais calmo, em sua cama e pôs-se a conversar com ele.
Depois que o Lúcifer levou um quarto de nossas legiões na Terra, eu pensei que fossemos nos unir ao ponto de nunca mais termos brigas na vida. Mas eu estava errado. Depois que viemos para cá com metade das legiões remanescentes, não demorou muito para que surgisse a família dos Planinaltas arcanjos, e foi onde toda a treta começou. Queria eu que nunca tivéssemos feito aquela maldita família, que hoje vive isolada na Terra, longe de nossas vistas. Nunca pude conhecer meus sobrinhos planinautas. — Uriel discorria entristecido, com a cabeça no colo de Remiel, enquanto o mesmo lhe fazia cafuné.
Quando Salatiel propôs ao Concílio Sacrossanto a limpeza do mundo da energia negativa, eu não imaginava que tivesse tantos ignorantes que fossem concordar com a ideia dele de expurgar do mundo algo que é necessário para o equilíbrio das pessoas. Mas concordaram, enquanto metade se opunha ferrenhamente à ideia. Eu ainda lembro das discussões naquela sala, e de como aquele rato com asas pode ser persuasivo para conseguir o que quer.
Ele manipulou os generais mais influentes para conseguir o apoio das legiões comandantes com soldados que fossem preconceituosos e corruptos, que estivessem dispostos a venderem sua alma se assim pudesse se banhar no sangue de seus inimigos, mesmo que estes fossem crianças. Tentei apelar a Aziel, mas até mesmo aquela que devia ser a racional se voltou contra nós, após declarar que estava noiva de Salatiel e que esperava um filho do mesmo, que uniria duas poderosas linhagens de nossa estirpe.
Isso foi o escândalo necessário para que quem estava me apoiando votasse na decisão mais errada possível: o banimento do casal para Gehenna Wreckage. Uma vez lá, ambos estava livres para convocar aqueles que lhes apoiavam cegamente, e assim fizeram, diminuindo nossos contingentes e engordando suas fileiras com 'guerreiros' que são capazes das maiores atrocidades se for para ver o sangue rolar. Acho que foi nesse momento que eu me tranquei aqui em minha bolha. Mas eu tenho muitos informantes, sabe?
Eu ouvi dizer que Salatiel usou sua Aura de Imperador em todos os Anjos de Paradise Alley para que estes lhe jurassem fidelidade. Ah, como eu queria ter visto a cara do maldito quando Garllahad Byakuya e Niel Razia lideraram o movimento separatista dos anjos, e de como eles viraram as costas para ele no instante que ele parou de usar seu poder e fundaram o Hall dos Anjos, apenas uma esfera abaixo de nós. Sabe, eu bem que gostaria de cumprimentar ambos pela ousadia, mas acho que eles tem nojo da minha cara, e isso me dói muito.”
Bem, acho que você não precisa se doer tanto, Uriel. Niel brigou com Garllahad pelo controle do Hall dos Anjos, e desde então ambos mantém feridas abertas um contra o outro. Niel perdeu uma asa na briga e quase perdeu a vida. Se não fosse sua filha ter doado metade de sua energia vital, ele teria morrido logo após ter vencido a briga.
Uriel apenas arregalou os olhos diante dessa afirmação, mas logo disfarçou a surpresa. Porém, Remiel continuou atualizando o irmão com as más notícias, mesmo que isso fosse dolorido para ele ouvir. Ele merecia saber a verdade, por mais podre que ela fosse.
E te mais, meu caro irmão. Salatiel começou a agir. Ele mandou uma hoste de arcanjos furiosos atacar a cidade de Nyxsage, um dos principais focos de energia negativa desse mundo. Todos os habitantes foram dizimados, e apenas Aaron Vaughan sobreviveu ao massacre. Tess Leon conseguiu salvar as almas dos habitantes, mas não podemos deixar isso passar em branco. Meu irmão, me empreste sua força, para combatermos esse mal juntos!

Na mesma hora que Uriel levantou a cabeça com o susto, Remiel se ajoelhou e lhe implorou ajuda. Não tinha problemas em se humilhar por uma causa justa. Se Uriel topasse, Lucifer e Zadkiel toparia com certeza. Agora ele tinha de esperar que Anael fosse tão persuasiva com seu irmão quanto ele era com Uriel. Sua cabeça estava abaixada, mas ouviu claramente o barulho de coisas caindo no chão e peças de metal sendo reviradas. Quando se atreveu a olhar, Uriel estava vestido em sua armadura de metal branco, reluzindo de ódio, com uma expressão de pesar e raiva. A Lâmina de Alabastro tinha voltado. 

domingo, 19 de abril de 2015

Ahtrim Ayon - A Destruição de Ferália

 Loktar se sentia exultante. Depois de finalmente meditar por longos dias de forma quase incessante em sua cidade natal, ele finalmente descobrira uma maneira de derrotar a Bunny Woman. Seu contentamento era evidente. Desde quando o mundo era mundo, sua mestra Bo tentava derrotar a Bunny Woman e a Bruxa Milenar, mas ela nunca conseguira descobrir uma forma. Loktar não se preocupava com a Bruxa Milenar, já que ela tinha sumido fazia séculos, mas a Bunny Woman era um perigo constante. Ariana Flemence tinha se provado uma mulher perigosa e temperamental, difícil de ser contida ou até mesmo de conversar.
Nas vilas de Ferália, cheia de Kemonos e Feralianos, ou você era a presa ou era o predador. Loktar era com certeza um predador, e agora ele conhecia a fraqueza da inimiga de sua mestra. De sua inimiga. Ele já estava se preparando para voltar à sua cidade de treino, dono de um segredo poderoso, que seria compartilhado com sua mestra quando se deu conta do que estava acontecendo ali. Afiando seus sentidos, ele escutou ao longe, o som de pulos. Pulos estes que pertencia a coisas grandes e pesadas, mas que se moviam a uma velocidade impressionante.
Ferália era um local modesto. Apenas algumas vilas aqui e ali, habitadas por seres animalescos, que eram donos da selvageria e detentores das graças da natureza, mas nenhum ser em Ferália chegava a ser tão grande e pesado, mas, ao mesmo tempo, ágil e veloz como o que ele estava escutando. Seu coração deu um salto quando viu a silhueta de um coelho gigante com marcas vermelhas no corpo, grandes olhos amarelos e uma boca cheia de dentes afiados. E eles corriam em direção ao seu vilarejo.
Sua audição já estava sensível, e ele pode ouvir sons que feriram profundamente seu interior, como o som de gritos de dor dos aldeões, o choro de crianças, o rasgar de carne e a horrível mastigação dos coelhos. A Bunny Woman tinha descoberto sobre ele, e agora ela não seria piedosa. Loktar encerrou sua audição aguçada e passou a correr em direção ao seu vilarejo. Existiam pessoas ali que ele queria salvar, que ele precisava salvar. E ele correu de volta ao seu lar, com o intuito de lutar até a morte pelo seu lar.
Loktar chegou a tempo de ver as pessoas correndo dos coelhos, e isso não fazia sentido. Os habitantes de Ferália tinham sido considerados por muitos anos os mais bravios e destemidos de todo o continente, e agora eles corriam de coelhos gigantes pavorosos como se os mesmos fossem invencíveis. Simplesmente não fazia sentido que isso estivesse realmente acontecendo. Acumulando energia em seu corpo, Loktar começou a desferir tantos golpes quanto pode nas criaturas, mas era a mesma coisa que bater em argila molhada.
A textura dura e mole do corpo dos coelhos demoníacos fazia com que todos os golpes fossem doloridos na carne do meio-urso, mas mesmo abrindo buracos nos corpos dos coelhos, eles se reconstituíam e se fechavam. Da mesma forma que Ariana. Amaldiçoando a demonia com todas as suas forças, Loktar deu por si esfarelando os coelhos com todo o seu ódio sendo liberto. Não era possível que ele fosse chegar tão perto de matar a Bunny Woman e fosse falhar. Ele simplesmente precisava sair vivo dali de alguma forma, mas jamais abandonaria seus compatriotas.
Loktar continuou quebrando, socando chutando e matando quantos coelhos pode, mesmo que eles se reconstituíssem, ele morreria lutando, como o exército de um homem só. Ninguém mais se machucaria em sua vila. Todos os seus amigos, todos os seus conhecidos, de quem ele gostava, ele seria o escudo entre eles e os demônios, a qualquer custo. Mesmo quando o primeiro dedo-agulha dos coelhos o acertou, ele continuou lutando, até que lhe acertaram mais outro e o suspenderam, para arrancar sua cabeça, beber seu sangue e comer seu corpo.
Na mesma medida que Loktar morria, longe dali, uma mulher toda vestida de preto se felicitava e se congratulava pela sua brilhante ideia de dizimar todos os habitantes de Ferália, em busca do bestial prometido. Baphomet tinha alertado-a sobre um monge meio-urso que descobriria a fraqueza de seu corpo de argila um dia, e iria derrotá-la, mas mesmo ela foi em frente com o plano de realizar seu desejo pelos poderes da consciência sem corpo. Não importava quantas vezes ele renascesse, ela sempre o mataria, até não sobrar nenhum bestial vivo.
Ela ainda se lembrava de quando era uma menina pequena e indefesa, que habitava Nyxsage com Beatriz e Bo. Ainda achava muito bizarro o fato de Bo ser uma das raras humanas de Nyxsage, e de hoje em dia ela se dedicar a essa filosofia de monge. Ela poderia ter tido tanto poder quanto ela ou Bia, mas ela não quis se arriscar a pedir ajuda ao poderoso ser dos desejos, como ela pedira. Chegava a ser engraçado como acontecera tudo.
Um dia, ha muito tempo, Bia e Ariana estava conversando sobre a possibilidade de serem as rainhas do mundo, e de quem conquistasse primeiro, aceitar a outra como ministra de sua vontade e portadora de seus desejos. Uma para reinar, e outra para governar. Bo, era a única que achava a ideia ridícula, e que disse que faria de tudo para que nenhuma das duas fosse capaz de alcançar seus objetivos. Quem poderia imaginar que o desejo de monja seria tão forte a ponto de parar o envelhecimento de seu corpo mortal?
Ariana ainda lembrava como ela e Bia se tacaram para o fundo da cidade para encontrar a caverna que Baphomet descansava, para que cada uma tivesse um desejo concedido. Ah, tinha sido um dia tão divertido. Ela tinha saltado riachos, se pendurado em pontes e se forçado mais do que qualquer pessoa viva da cidade. Bem, talvez um pouco menos do que Beatriz. Nunca vira a amiga desejar algo com tanta força quanto naquele dia. Era quase divertido ver o desespero no rosto da bruxa quando ela se afastava do alvo dos desejos.
— Foi realmente divertido esse dia, Ari. A gente poderia ter repetido mais vezes se eu não tivesse ficado tão ocupada tentando conquistar o mundo, e você mais ocupada ainda em fazer isso antes de mim. — uma voz melodiosa surgiu através do aposento da dama de preto, fazendo com que os pelos da nuca da mesma se eriçassem.
— Bia, minha querida. Eu vou conquistar o mundo antes de você, e serei sua Rainha e Soberana. Você sabe que eu estou certa, e que você está apenas adiando o inevitável.
— Você também está adiando o inevitável, minha amiga. Você é invulnerável, não invencível. Eu que desejei a invencibilidade, enquanto você quis ser indestrutível. Mas sabemos que Bo também desejou alguma coisa. Mesmo que não tenha desejado diretamente à Baphomet, ela desejou com força o suficiente para se realizar. Você só adiou o inevitável.
— Eu sei disso. O protegido de Bo vai me matar algum dia, mas eu serei a Rainha do Mundo antes disso. Bem antes disso. Eu superarei os deuses, e juntas vamos ser as mais fortes de todo este plano. E você também tem suas fraquezas. As gêmeas já nasceram, sabia? Você não fez nada porque?

— Enquanto as gêmeas não encontrarem Nariki e Raven, não existirá motivos para que eu tema minha destruição. Eu ainda tenho o Horror Ensanguentado e o Coração Negativo para lutar ao meu lado. Eu ainda sou a Bruxa Milenar. E você, Bunny Woman, o que você tem ao seu favor?

Ahtrim Ayon - Devon Ackles - Um segredo do passado

 O coração de Devon estava aos saltos quando um alerta surgiu na sua IA particular, lhe chamando para a sala do professor Lawliet. Seu coração parecia carregar um peso, como quando ele tinha despertado no laboratório construindo uma bobina de Tezla a base de energia mágica, com o objetivo de bugar a magia em toda a cidade. Devon se sentia perdido em meio a tantos projetos destrutivos que estava criando ultimamente, ainda mais por não conseguir se lembrar de quando os criava.
O alerta no seu IA continuava apitando e Devon decidiu abrir a mensagem e ver o que se tratava. Sua surpresa foi quando viu surgir a cara do professor Lawliet, lhe olhando criticamente. Devon não estava acostumado a ter os olhares críticos dos professores direcionados para si, mas sentiu alguma satisfação ao ver o professor me encarando como se eu fosse um pária que almeja a destruição mundial.
— Senhor Ackles, solicito sua presença imediatamente na minha sala. Preciso ter uma conversa a sós com você. — o holograma do professor crocitou para Devon.
Com um arrepio na espinha, Devon começou a arrumar suas coisas para não deixar que seus amigos de quarto perceberem o que ele estava construindo inconscientemente. Não queria que ninguém ficasse olhando torto para ele como quando lhe disseram que ele tinha criado um exterminador de dados. Isso foi muito, muito tenso. Se não fosse pelos três amigos, Devon poderia ter dado adeus a sua vaga no Instituto. Com tudo já arrumando, ele deu alguns passos em direção a porta, respirou fundo, abriu-a e desceu ao segundo andar.
— Yo, Devon. Você está indo aonde? Foi chamado na diretoria por mais alguma palhaçada que você fez? — o sorriso irônico de Peter guardava um pouco de compaixão. E ele era o que menos era compassivo dos três.
— Haha, Pete. E sim, Lawliet quer me ver na sala dele, provavelmente para me dar o prêmio de aluno do ano. Eu vou indo, antes que ele me ligue de novo.
E se apressando, Devon começou a correr em direção a sala de aula de criptografia. Já fazia anos que não ia até lá. Desde que era uma criança e tivera aulas com Lawliet sobre os códigos e critografias avançadas para se usar na internet. Programação tinha sido bem mais fácil do que as últimas aulas do professor, como Psicotecnomagia. Já sem fôlego, Devon alcançou a porta da sala de aula cheia de computadores e mesas universitárias. Uma nostalgia se abateu sobre ele, demonstrando que até mesmo os tempos ruins tinham algo valioso. Ele abriu a porta, passando a mão nos cabelos rubros, que outrora foram castanhos.
Lawliet o esperava já produzido na sua casualidade, como todo bom professor holográfico. Ao vê-lo, alguma coisa se acendeu e apagou em Devon, como se uma emoção muito negativa piscasse dentro dele, emitindo uma poderosa e maligna onda de calafrios e sadismo. Ele sentia aquele poder maligno pulsando, o mesmo poder que tinha tornado seus cabelos vermelhos anos atrás. Contudo, o aluno manteve a compostura de um lorde inglês e caminhou seguramente até seu professor, tentando aparentar frieza.
— Desejava falar comigo, professor? — perguntou o ruivo, com um sarcasmo adicionado contra a sua vontade na frase
— Certamente, sr. Ackles. Gostaria de saber um pouco mais sobre os seus atos de vandalismo na escola, tanto para com os alunos quanto para com os outros professores. — o professor acionou uma tela holográfica e começou a passar vários vídeos e fotos de Devon praticando atos de cunho predatório e maldoso.
Para seu horror, Devon viu que tinha destruído muito mais do que coisas materiais. Coisas preciosas demais para serem reparadas. Mas uma parte dele se animou e regozijou com tudo o que estava sendo exposto. Algo podre e malévolo se revirou em suas entranhas, deliciando-se com os absurdos cometidos. O menino sabia o que era. Era o mesmo poder que tinha pego um pouco antes de entrar para o Instituto, o mesmo que tinha salvo seus pais da morte. E agora ele estava cobrando seu preço mais caro. Devon seu seus lábios se contorcerem em um sorriso cruel, e mesmo que tentasse parar de sorrir, seus músculos da face apenas doíam enquanto se via falando:
— Acha que eu me importo com esses fracos que não conseguem segurar as lágrimas? Não, meu caro Lawliet. Eu não me importo com nada disso. Você devia saber que eu só me importo com uma coisa, afinal, você perdeu muito do que tinha para mim.
Lawliet percebeu nesse momento que Devon já ia longe de seu corpo. Talvez nem estivesse consciente do que estava fazendo, e não tinha escolha a não ser observar o que ocorria ao seu redor, como um mero espectador. Estreitando os olhos quando para a presença assustadora que se assomava a sua frente, o professor se preparou, assumindo seu avatar. Ele iria se aproveitar de tudo o que os três patetas tinham feito no primeiro trabalho deles, quando abriram a fenda.
— Sim, Degeneração. Você tirou muita coisa de mim. Você me tirou Olivia, tirou meu corpo, mas foi por ter te banido que eu cheguei aonde cheguei. Eu posso te banir quantas vezes eu quiser, e você sabe disso.
Era um blefe, é claro. Lawliet perdera o poder necessário para banir o Aspecto de volta para sua esfera. Assumir o controle da CyberZone o deixara completamente invencível lá dentro, mas lhe custara o preço de nunca mais fazer nada fora dela. Ele apenas esperava que não precisasse recorrer à Terence e a seu poder descomunal, mas faria de tudo para salvar Devon. Não permitiria que ninguém mais sofresse o destino de sua querida Olivia.
Devon cresceu a olhos vistos em poucos minutos, formando a imagem da Decadência: corpo desnutrido e pelancudo, pele doentia e dentes podres. Uma presença esmagadora assolou os quilômetros próximos, fazendo todos sentirem os efeitos da podridão interior assolando, seja se afogando nos vícios, seja se degenerando biologicamente mais rápido. Lawliet sentiu a placa de circuitos que o sustentava no holoprojetor enfenrrujando lentamente, ficando cada vez mais obsoleto.
— Você mente muito mal, meu caro Lawliet. Já faz muito tempo que você não consegue mais me banir, nem ao menos me tocar. Eu sou a degradação dos mundos, eu serei a causa de todo o fim, tanto das raças quanto de seus legados. Você acha mesmo que um deus franzino como você vai ser capaz de me deter sem ser um Atame?
E o professor sentiu a verdade nas palavras do adversário. Jamais venceria aquela coisa sem um Atame. Ele fora um Atame já juventude, mas agora não detinha mais esse poder. Não poderia mandar a Degeneração para sua zona agora. Com suas forças restantes, Lawliet abriu a fenda que o triunvirato tinha feito a tantos anos para a CyberZone, e sugou o Aspecto para dentro. Uma vez ali, ambos poderiam lutar pau a pau, mesmo que Lawliet aparentemente estivesse com a vantagem.
— Ainda tenho alguns truques na manga. Nos meus domínios, eu sou invencível, indestrutível e imortal. Você não vai ter o que quer tão fácil, porque eu não vou deixar!
A batalha terrível se iniciou, com a Degeneração apodrecendo os dados ao seu redor e Lawliet mandando todas as suas forças ofensivas para o ataque, tendo que se defender dos ataques de podridão a qualquer custo. Seu objetivo maior era cansá-la. Ele não tinha poder para vencê-la, nem mesmo na CyberZone. Mas ainda podia contê-la com toda a sua força. A batalha prosseguiu por mais alguns momentos, mas terminou no exato momento em que signos começaram a surgir ao redor do Aspecto personificado.
— O que está acontecendo?! O que você fez comigo?! Eu não posso ser vencido, nem destruído! Você não vai conseguir me derrotar nunca, seu desgraçado de merda!!! — Devon gritava com sua voz em dois tons, enquanto algo era extraído de dentro dele.
— Tem razão, Dee, eu não posso te derrotar. Mas eu posso te aprisionar aqui pelo resto da minha eternidade. E acredite quando eu digo que tenho todo o tempo do mundo ao meu favor. Você nunca sairá daqui! — o corpo de Lawliet vertia dados das chagas abertas e pútridas, tentando se regenerar, mas com todas as forças restantes, o deus abriu um buraco no chão e aprisionou a Decadência, já separada do menino, no abismo mais fundo da CyberZone. Uma vez tudo mais calmo, ele se permitiu respirar e descansar.
— Então era contra um dos Aspectos malignos que você estava lutando? Você não brincou quando disse que o inimigo era barra pesada. — uma figura de cabelos louros espetados saiu das sombras de onde estava, segurando um objeto muito esquisito, e encarando a cena com tédio. A maior parte do seu corpo era feita de carne, e não de dados, mas estava completamente coberta por panos e roupas longas.
— Eu sempre disse a você quem era meu inimigo, Terence. E a propósito, muito obrigado por vir aqui me ajudar com a Runa Prima. Espero que a viagem de Lampazu até aqui não tenha sido muito tumultuada. — o sorriso de Lawliet se transformou em uma careta de dor, quando um pedaço particularmente grande de seu corpo foi apagado e reposto.
— Não se preocupe, meu amigo. Não é incomodo nenhum ajudar aqueles que eu gosto. Até porque, a Runa Prima serve para ajudar meus camaradas sempre que eles se metem em problema. Mas enfim, se você prendeu a Degeneração, vai atrás da Barbárie e da Insanidade também? — Terence replicou, guardando a Runa Prima no casaco.
— Não tenho forças para aguentar os três malvados. Temos que torcer para que a Inocência, a Esperança e a União estejam prontas para uma boa e velha briga caso essas outras deem as caras.
— E quanto ao garoto? Devo apagar as memórias dele? Seu cabelo ainda está vermelho, e isso pode significar que ainda existe Decadência nele.


— Todos temos algo de podre, Terence. Eu tenho muito, mas isso não vem ao caso. Use seu poder para reescrever um pouco do que ele passou. Não quero que ele fique com a corda no pescoço quando voltar para o instituto, que deve ser breve. Ele não é como você que pode passar tanto tempo assim aqui dentro. Apenas faça com que ele não lembre do que fez, ou que as pessoas lembrem do que ele fez a elas. Vamos deixar o senhor Ackles viver em paz.