sábado, 9 de abril de 2016

Ahtrim Ayon — Daniel Zavascki — Estilhaços do Medo

Daniel Zavascki

Todo parque de diversões que eu conheço sempre tem uma grande variedade de brinquedos e de artistas. Os parques de diversão, quando são bem-feitos, devem se misturar com o circo, mas esse é meu pensamento pessoal. Era nisso que eu estava pensando quando pedi pros meus pais uma festa de aniversário com tema de circo e algumas coisas de Parque de Diversões. Eu já devia esperar os exageros característicos da minha mãe quando ela se juntava com sua amiga promoter de eventos. Minha festa parecia ter sido financiada pelo Pale Moon Circus, e não da maneira ruim.
Todos estavam se divertindo, e tudo estava indo perfeito. Minha família tinha cansado da loucura que estava aquela festa, com a música eletrônica e com toda a carga de adolescentes que poderiam existir e já tinham vazado. Todos os meus amigos já estavam ali, todos prontos para festejar noite adentro até o sol raiar, e a Kelly já estava se divertindo em todos os brinquedos possíveis. Bem, quase todos. Eu sempre quis ir numa casa dos espelhos, e agora eu poderia, mas queria que fosse divertido pra mais alguém.
Assim que ela desceu do brinquedo, conversando com o Peterson e a Joaninha, me aproximei e comecei a andar com o grupo, direcionando eles para a casa dos espelhos de maneira discreta. Seria legal nós quatro indo juntos, vendo aqueles reflexos malucos e tirando altas selfies. Meu aniversário estava cada vez mais perfeito. Mas logo que estávamos chegando perto, Raylan e Luciano chamaram os dois para fazer alguma coisa e só sobrou eu e Kelly andando lado a lado até a entrada da casa de espelhos.
— Então, Kelly, vamos fazer um tour pela casa dos espelhos? Parece divertido aí dentro e eu sempre quis ir em uma. Por favor, vamos!
— Hum, eu não sou gosto muito dessa ideia. Não acho que vai dar certo. — Kelly apenas rebate, com seus olhos expressando algo indefinido. Ansiedade talvez?
— Ah, qual é? Vai dizer que você está com medo? Vem logo, boba! Vai ser divertido, e eu prometo não te deixar sozinha. — Eu queria ir com alguém. Eu realmente odeio ficar sozinho e ela tinha se provado uma grande amiga, então eu queria ter um momento especial com ela.
— Ai ai, tudo bem! Se você faz questão... Vamos logo com isso então. — E juntos, entramos na casa dos espelhos.

Kelly Cordeiro

Espelhos sempre me deixavam incomodada. Existia algo neles (e em mim), algo íntimo, que eu não conseguia deixar de desgostar. Uma sensação amarga na boca do estômago e no fundo da garganta, como se pudesse ver por mim que algo estava errado por completo. Eu caminhava dentro daquela casa de espelhos, percebendo o padrão de placas de metal no chão, evitando a qualquer custo olhar para cima ou para o lado, e se necessário fosse falar com Daniel, olhar diretamente nos olhos dele e não desviar não importando o que fosse.
E ele tagarelava alegremente, divagando sobre todas as coisas maravilhosas que poderíamos fazer naquela casa maldita, até que perdi as contas de quantas voltas demos, e parei por alguns momentos no mesmo lugar, forçando-me a levantar os olhos e encará-lo. Algo não batia com as minhas contas, porque se aquele lugar fosse realmente tão grande quanto estava dando a impressão, eu estava muito mais do que ferrada, e ele provavelmente estaria morto.
— Daniel, por algum acaso, você tem ideia de pra onde está levando a gente ou você só está caminhando a esmo por esse labirinto? Oh fuck, isso é um labirinto de espelhos! Me diz que você sabe pra onde está levando a gente! — Eu não me sentia irritada com ele, mas estava certamente ansiosa para sair dali. Depois de me dar conta que aquilo era um labirinto de espelhos, eu só queria ir embora o mais rápido possível, e se ele não estivesse me observando de perto, eu me teleportava pra fora ali em bem menos que um segundo.
— Bem, eu sabia pra onde eu estava indo umas quatro esquinas atrás, mas agora eu me perdi. — E o desgraçado ainda solta um risinho culpado. Você não está facilitando sua situação. Eu levanto as sobrancelhas inquisitivamente, tentando entender como ele conseguiu se perder ali dentro. — Ah, não me olha assim! Essa casa de espelhos tem uns ângulos insanos que me deixaram completamente confuso, e eu acabei me perdendo aqui.
Maravilha! Que lindo! Perfeito! É tudo o que eu queria agora, ficar perdida numa casa de espelhos em plena madrugada no escuro! Eu odiava aquela penumbra que tinham deixado no ambiente, com meia luz babaca, iluminando mal e porcamente o ambiente, deixando sombras em locais estranhos e em ângulos piores ainda. Aquilo era o fim da picada, eu queria sair dali rápido, e Daniel com aquela calma me dizendo que tinha se perdido naquela confusão? Não, eu não estava recebendo o suficiente pra isso e nem ia receber nos próximos milênios.

Daniel Zavascki

— Daniel, vamos embora daqui agora! Já viemos aqui, já entramos na casa dos espelhos que você queria e agora já podemos ir embora. Vamos logo sair daqui! — Kelly parecia realmente irritada comigo, e eu não entendia porque.
— Nossa, tudo bem, vamos sair daqui. Vamos tentar achar o caminho de volta na sorte, but first… Let me take a selfie! — Eu tinha percorrido um labirinto inteiro pra tirar uma selfie com Kelly na casa dos espelhos, não ia sair de lá sem uma lembrança. — Agora vamos ver… Você tem 3G, certo? Podemos nos separar e tentar encontrar a saída, assim quem sair primeiro manda a localização pro outro e tenta guiar o caminho. O que acha?
— Não existe precisão suficiente no mundo pra isso, cacete! Mas já que é nossa melhor chance, então tudo bem. Fica bem sozinho e toma cuidado.
E nos separamos, cada um tomando um caminho na tentativa de encontrar uma saída dali. O eco do local fazia com que meus passos e os passos da Kelly me seguissem de perto e dessem a impressão que eu estava o tempo todo perto dela. Era uma maneira segura de não parecer que eu estava sozinho. Tentei não pensar muito sobre esse fato e só fui me guiando pelo instinto de como sair dali o mais rápido possível, virando em cada esquina tentando encontrar a saída daquele lugar e indo cada vez mais em caminhos diferentes e tortuosos, até que topei algo, como uma ponta do piso levantada, me fazendo tropeçar e cair de cara no chão.
Até aí, teria sido tranquilo e de boa, mas não. Nada estava completo sem que houvesse drama, choro e ranger de dentes até que alguém sofresse de bruxismo a noite. A vida era realmente perfeita. Antes que eu me levantasse, comecei a ouvir o barulho agoniante de várias tesouras e cliques batendo incessantemente, de maneira nauseante e perigosa. Tentei ficar estático, mas quando senti patinhas andando pelo meu corpo e especialmente pela minha cara, me levantei abruptamente e me arrependi de olhar no espelho.

Kelly Cordeiro

Um grito varou aquele lugar e do nada, vários passos apressados começaram a correr na minha direção. Meu pensamento disparou e eu só pensei em Daniel nessa hora. Tudo o que eu fiz, foi começar a correr por aquele lugar, tentando seguir o eco dos passos dele e só conseguindo me perder mais e mais. Aquela situação era horrível e insustentável! Eu tinha certeza que tinha acontecido algo com Daniel, e eu ali, sem conseguir fazer nada, correndo que nem uma louca pelo local tentando achar alguém, e temendo pelo pior.
Os passos apressados ecoavam no local enquanto eu corria. Mesmo quando parei de correr novamente, eu ainda escutava eles vindo de algum lugar que eu não conseguia determinar. Minha respiração arfante denunciava que eu tinha corrido mais do que meu corpo físico terreno conseguia aguentar, e em algum lugar pelo caminho, os ecos dos passos também diminuíram até a constante de um caminhar pesado, que me deixava nervosa. Poderia ter outra pessoa ali além de mim e Daniel? Poderia ser uma pegadinha, ou realmente tinha um maluco tentando dar um fim na gente?
— Tem alguém aí? Daniel? — O eco dos passos foi tudo o que eu tive em resposta. Comecei a correr novamente, dessa vez redobrando a velocidade, apenas pelo desespero de sair daquele lugar.
Eu corria olhando para o chão, ao meu redor estavam vários espelhos que causavam efeitos diferentes. A luz meio difusa gerava uma penumbra e um ambiente meio macabro. Eu me peguei pensando que o Daniel merecia um soco muito bem-dado por me arrastar para aquele maldito labirinto de espelhos. Eu simplesmente odeio espelhos. Mas não conseguia deixar de me preocupar. Sim, tudo o que eu queria era sair dali por enquanto, mas socar e salvar Daniel estavam entrando em equivalência.
Podia sentir minhas pernas começando a ficar dormentes. Logo eu não aguentaria mais correr e a saída daquele lugar parecia impossível de ser achada. Eu não conseguia mais ver para onde eu estava indo e nem pensar com clareza pra sair dali. Acabei parando no que parecia ser um beco sem saída com vários espelhos formando um semicírculo, quase no mesmo instante o eco de passos parou, dando a entender que eu estava sozinha. Olhei ao redor procurando a direção que ele tinha vindo, só pra me arrepender logo em seguida. Eu estava correndo de cabeça baixa e quando olhei ao redor, acabei por olhar diretamente para os espelhos, algo que eu havia evitado desde que entrei ali. Um calafrio percorreu minha espinha, propagando a sensação gélida e vazia quando escutei aquela voz que tanto me fizera chorar um dia.
"Parece que não tem mais forças pra fugir não é mesmo? Que peninha…. Nenhum dos seus amiguinhos veio te salvar…" Agora eu tinha nitrogênio líquido correndo pelas minhas veias e meu corpo tentava evocar a reação do suor, mas o mesmo também vinha frio. Nos espelhos em minha frente, meu reflexo parecia se mover de forma independente, sustentando um sorriso de escarnio estampado no rosto e um olhar acusador. Minha surpresa e pavor eram tao grande que quase não notei que o reflexo tinha a aparência da Sophie, a antiga Sophie. Da mesma Sophie que eu via nos meus pesadelos sendo atravessada pelos espinhos de sombra Tenebrae. Eu sabia o que viria, sabia que eu não podia lutar contra aquilo… Eu queria fugir, mas meu corpo parecia ter virado pedra. A Sophie do reflexo soltou uma gargalhada ao percebeu meu esforço em vão pra tentar sair dali.
"Você é realmente bem fraca, não é? Correndo de um lado para o outro como se fugisse de um fantasma. Que ser patético surgiu para tomar o meu lugar. E depois de tudo o que aconteceu no casamento de Klaus Bhramani, aqui está você… Se divertindo e sendo feliz." Seu tom era de puro desprezo e suas palavras pareciam facas cegas penetrando no meu peito com violência. Eu me deixei levar pelos meus amigos e acabei apagando da minha mente os últimos acontecimentos. Eu só queria esquecer aquilo…
"Coitadinha… Parece que te deixei chateada com o que eu disse não foi? Posso pedir desculpas por trazer a tona memórias tao ruins se você quiser." O sarcasmo era evidente naquela voz e minha noção do ambiente ao redor já tinha ido embora. Já não escutava mais os passos apressados ecoando pela casa de espelhos, e arrisco dizer que não via mais nada também além daquele semicírculo de espelhos e da minha outra “eu” a minha frente.
— Pare, por favor. Me deixe em paz. —Minha voz quase não saia e eu só agora tinha percebido que tentava bloquear todo o som tapando os ouvidos com minhas mãos, mas aquela voz parecia ecoar dentro da minha cabeça.
"Parar? Parar com o que? Parar de te lembrar do quão patética você é?" A voz dela agora exprimia um tom raivoso. "Parar de te lembrar das derrotas sucessivas que você sofreu nas mãos da Insanidade?" Dessa vez a voz parecia vir de outro espelho e eu pude ver a mesma imagem da antiga Sophie refletida nele também. "Parar de te lembrar que vocês foram atacados naquele salão novamente e que você falhou em perceber o plano de Lewenstat?". Outro espelho ecoava aquela voz. "Parar de te lembrar de quantas pessoas morreram e você não pode fazer nada? Parar de te lembrar que você não pode proteger Hellser e Lilian e ainda por cima deixou os filhos deles sozinhos para vir tirar férias?”.
E mais outro espelho, e mais outro e mais outro e mais outro. "Parar de te lembrar que todas aquelas cidades foram atacadas e você não estava lá pra ajudar ninguém? Parar de te lembrar que Lawliet está lutando naquela guerra e você está aqui? Que não serve nem pra cumprir seu dever de sumo sacerdotisa?" Nesse ponto os espelhos todos ecoavam essa voz. Um coro de vozes acusadoras e dedos apontados em minha direção, me deixando acuada, nervosa, exaurida de qualquer vontade de lutar, me deixando sem opção. Eu não sabia o que fazer. Ela estava certa, e não importa o quanto eu me esforçasse, ela estava certa…
Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto as acusações continuavam e aquele sentimento de impotência foi se transformando em raiva. Raiva de mim mesma, raiva daquela Sophie, raiva do Tess, raiva do Lawliet, raiva do mundo… Eu não aguentava mais escutar aquilo, não aguentava mais ser machucada por aquelas palavras e ver a mim mesma tentando esfregar meus erros e impotências, minha própria inutilidade contra mim… Eu não aguentava mais, então eu explodi.
— JA CHEGA! CALA A BOCA! —E eu me atirei em direção a um dos espelhos e desferi um soco forte, impiedoso e poderoso, fazendo a imagem rachar. Uma gargalhada fria e cruel começou a ecoar em meus ouvidos seguidas de várias outras gargalhadas iguais. Eu dei um segundo soco e o espelho estilhaçou, mas aquele riso não parava de ecoar. Parti então pra cima de outro espelho, desesperada, socando e chorando, as vezes gritando, e eu continuei até que todos os espelhos do local estavam tão estilhaçados quanto meu braço. Minha memória é confusa depois desta parte. Não lembro de mais nada e nem sei quantos espelhos eu destruí no meu acesso de raiva.

Daniel Zavascki

Depois te ter sido picado na cara por um escorpião preto, o inchaço já começava a aparecer. Não consegui determinar direito se eram muito venenosos ou extremamente venenosos, mas certamente a dor que eu sentia classificava-se por si só. Meu rosto já tinha virado uma bola vermelha com um furo na bochecha e sangue vazando, enquanto eu me arrastava pela casa de espelhos procurando Kelly. Foi um erro virmos, e eu precisava tirá-la daqui.
Não a achei no nosso corredor, então continuei procurando, até que ouvi um grito de sua voz desesperada e raivosa, então corri na direção do grito, tentando sem sucesso me encontrar pelo eco. Quando finalmente já cheguei próximo o bastante para escutar o choro e os gritos, percebi que estava em um dos becos sem saida do labirinto de espelhos e que Kelly estava muito ocupada destroçando os espelhos com as mãos nuas. Eu queria chegar e impedir que ela se machucasse ainda mais, mas a segurança vinha primeiro. Mandei uma mensagem pra Joaninha com urgência, escrito: “Socorro casa dos espelhos escorpiões hemorragia kelly”.

E avancei até a Kelly, cambaleando, já meio tonto pela toxina do veneno, mas com minhas últimas forças, segurei a minha amiga e impedi que ela continuasse se machucando. Ela pareceu se acalmar um pouco quando sentiu meu toque, e por isso seu corpo todo relaxou e se deixou cair, mantendo uma expressão vazia. Acho que era isso que chamavam de estado de choque. Eu já estava a beira do desmaio, mas tentei nos levar até o corredor principal, pelo menos, para facilitar o trabalho de quem quer que viesse nos resgatar.  

terça-feira, 22 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Kallynka Hakway — Lágrimas de Amor

 ISSO É INSANO, DESNECESSÁRIO, IMPOSSÍVEL E CRUEL! EU NUNCA CONCORDAREI COM ISSO, SUA LOUCA! VOCÊ ESTÁ ME PEDINDO ALGO QUE EU JAMAIS FAREI, QUE EU JAMAIS ACEITAREI, E PARE DE SORRIR COMO SE FOSSE ALGO FOFO ISSO, VOCÊ NÃO TEM NOÇÃO DO SOFRIMENTO QUE CAUSARIA! — Tess gritava com sua irmã, gesticulando muito e muito rápido, enquanto andava de um lado para o outro dentro da sala da Papisa. Kallynka estava sorridente e com uma expressão entristecida e terna, vendo o seu irmão tão querido passar por uma decisão tão difícil, apesar de já ter sido tomada.
É melhor para todos nós, Tess. Você precisa se tornar mais forte, ter mais poder. As coisas estão caindo por terra a todo momento, e somente você pode concertar tudo.
Eu não preciso de mais poder, criatura! Eu sou invencível, meu poder não conhece limites! Não existe uma única razão para eu ter que absorver seus poderes, e mesmo que tivesse, você sabe que eu não o faria! — o garoto de olhos verdes estava tendo a paciência testada aquele dia. Primeiro seu irmão mais novo lhe surrava em praça pública e ele não podia fazer nada contra isso. Depois seu irmão caçula, que desapareceu por quase dois anos ao saber que era o deus primordial reencarnado, era trazido de volta do mundo dos mortos para fazer sabe-se lá o que numa cidade em guerra e agora sua irmã, sua única amiga pedia que tirasse seu coração do peito e o coma.
Você é forte, mas não é tão forte quanto deveria ser. Quanto mais forte você ficar, mais fácil se torna a batalha final que você está destinado a vencer, e eu quero ajudar minha família de alguma forma! Você não pode me impedir de querer ajudar as pessoas que eu amo, principalmente a família que me acolheu desde que eu era um bebê largado no mundo! — Kallynka tinha o rosto vermelho e um sorriso triste no rosto. Ela já tinha entendido que a própria vida não significava nada diante da salvação de toda a Ahtrim Ayon, então que se exploda.
E realmente explodiu. A porta se abriu enquanto seu irmão mais novo entrava porta adentro carregando uma expressão mista de ódio e dor. Kallynka e Tess nem se deram ao trabalho de olhar, e o seu irmão mais velho continuou tecendo um rosário de desculpas e impropérios que qualquer criança normal teria ficado com medo, mas não Illyria. Quando percebeu a criança mancando e disfarçando a dor que sentia na perna pelo chute, quase caiu na gargalhada, porém, manteve a expressão serena e pacífica.
Eu não preciso de curativos! Eu e minha perna estamos perfeitamente bem! — o menino loiro falou com uma voz fina que obviamente declarava a dor que ele estava sentindo. Illyaria ainda assim caminhou pelo escritório da Papisa e subiu na mesa, sentando-se com as pernas cruzadas. — O que os dois estão discutindo? Eu não ouvia o Tess gritando assim desde quando o Stanley pisoteou ele depois descobrir quem tinha comido as barrinhas de chocolate com recheio de céu azul e cobertura de granulado crocante.
Em minha defesa, tinha sido um dia longo e exaustivo, e eu não comia fazia semanas! E como você sabe disso, de qualquer maneira, você não era nem nascido! — Tess esbravejou com o menino. A resposta foi apenas um olhar sarcástico, com uma dose de ironia cobrindo. Tess sabia a resposta, assim como Illyria sabia exatamente o que eles estavam conversando, só não queria saber mais.
Ora, pelo amor dos deuses, eu não tenho tempo para isso! Preciso fazer milhares de coisas, e o cabeça oca do Stanley parece que não vai deixar eu sair da cidade até ter tomado o chá das cinco com biscoito com nossos pais! Vocês dois, o que diabos estão fazendo aqui? Você precisa governar uma cidade e você precisar ir embora dessa cidade o quanto antes, senão ela vai notar sua presença! — o garoto dos olhos verdes continuava falando e gritando sobre uma possível catástrofe.
Tess, nós dois sabemos onde isso vai terminar… Eu já aceitei minha parte nesse acordo, porque você não aceita a sua também? — Kallynka pegou seu irmão mais novo no colo e o abraçou como se fosse a última vez que sentia aquela criança perto de si. Queria ter tido mais tempo com seus pais, seus irmãos, mas ela sabia que tempo era tudo o que eles não tinham.

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Kallynka entrou pela última vez em seu escritório. Os adornos em marfim e alabastro, as colunas de pedra cinza prata e os moveis de madeira clara. Tudo parecia refletir um local de paz e tranquilidade absoluta para quem entrava como visitante, mas para ela, aquilo tinha se tornado o símbolo do peso que carregava em suas costas, assim como o peso de seus atos para com todos os cidadãos daquele local. Tess facilmente poderia acabar com tudo e todos ali se estivesse do lado errado da lei, e por isso a ruiva se sacrificava para que todos pudessem ser felizes.
Está atrasada! A cidade está um caos e Illyria despertou mais cedo por sua causa! Os deuses estão todos em polvorosa e já começaram a surgir novos Marcados. Olha o que você está fazendo com sua cidade! Todas essas pessoas estão aqui se apoiando na sua figura política e religiosa e você está simplesmente abandonando tudo e dando as costas ao seu povo! Kallynka, essa pode ser sua última chance. Desista de me ajudar e ajude aqueles que estão próximos a você. — Tess surgira no canto da sala, com os olhos furiosos e a boca comprimida numa linha tênue entre o grito de dor e o urro de ódio.
Eu não estou desistindo de nada, Tess. Ninguém aqui vai sofrer com minha ida. Depois que você arrancar meu coração e eu tiver morrido, meus poderes serão completamente seus. Além do mais, parte de mim estará sempre nessa cidade e com todos aqueles que aqui estão. — Kallynka mantinha o rosto sereno, mas fechou os olhos, tentando evitar que as lágrimas que sentia chegar realmente saíssem de seus olhos. — Eu sei que é difícil pra você entender que eu estou fazendo isso por amor, mas acredite, irmão… Eu jamais abdicaria da minha vida se não fosse para o bem maior, então, eu não estou pronta para desistir. Agora, vamos fazer isso logo, antes que você mude de ideia.
Tess movimentou-se de seu canto, suas mãos envoltas por uma aura de pura energia branca como a lua. Garras se projetavam e a energia flamulava pelos antebraços como uma chama. Aquele poder poderia ser sentido em qualquer lugar da galáxia, mas o menino tomou cuidado para não se tornar sensível em outros locais. Seu rosto agora não estava mais uma obra-prima de sofrimento e amargura, pois por sua irmã, a última coisa que ela veria do mesmo seria a serenidade. Seus passos avançavam lentamente sobre o chão, com imensos mosaicos trabalhados com diversas pedras polidas com várias cores. Quando finalmente estava frente a frente com ela, próximo o suficiente para não errar, uma lágrima escorreu do seu olho e ele não fez esforço algum para contê-la. Kallynka abriu os olhos e sorriu para seu irmão, enquanto sua mão enxugava a lágrima caída e tocava o rosto dele.
Eu te amo, Tess Leon. Eu estou fazendo isso por você, e eu não me arrependo de deixar nada para trás. Eu te dou meu coração hoje, então, cuide bem dele. — a ruiva escorregou a mão pelo rosto do seu irmão e abriu o peito, mostrando o alvo claro. E Tess, com um movimento rápido da mão, perfurou-lhe o peito, rasgando a carne e quebrando as costelas até sentir o coração pulsante dentro dela, batendo cada vez mais lentamente.
Um grito varreu o local, fazendo a ruiva virar a cabeça junto do menino de olhos verdes, e ao encarar a porta escancarada, Daisuke estava no arco da porta, com uma expressão de horror, assim como Kallynka, que agora sabia o tamanho do problema que tinha arrumado para Tess. Sua vontade era chorar, explicar que tudo era um mal entendido, talvez até subornar o garoto, mas seu coração já não batia, e Tess arrancou o músculo de seu peito e a deixou cair no chão sem cerimônia, desaparecendo do cômodo segundos antes dos heróis e de Illyria verem aquela cena horrível.

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Logo depois que Daisuke se teleportou daquela clareira da floresta, depois de receber de forma nada legal as palavras de seu irmão, Tess permitiu que Kallynka se aproximasse dele. A ruiva ainda estava se acostumando com sua forma etérea de fantasma, quase como uma nova pessoa tem que se adequar ao peso extra ou a altura extra que ganha em um piscar de olhos. Ela parecia extremamente arrependida de ter que ver seu irmão se obrigar a isso, mas também não se permitia ficar com pena, pois tinha sido escolha dele não contar para ninguém sobre seu destino.
Eu sei que você vai dizer que eu deveria ter dito a verdade, mas acredite, é bem mais fácil se eles me odiarem, Kallynka. Não conversarei sobre isso com você nem agora nem nunca, então apenas desista. — Tess estava fazendo um esforço tremendo para permanecer em pé, mas seu corpo todo tremia e sua voz estava embargada. Kallynka queria desesperadamente abraçá-lo e consolá-lo. Permitir que seus braços fossem um porto seguro para aquela pobre alma desabar e chorar todas as suas tristezas e desgraças, mas estava impedida pela incorporeidade de seu ser.
Vá embora, Kallynka! Existe outro lugar que precisa de você agora, e eu não vou permitir que você fique aqui quando pode ajudar em outros locais. Vai logo, eu me viro por aqui! — e com um aceno da mão, Tess faz a mesma se deslocar daquele local para onde ela nunca mais poderia sair. Apesar de estar desorientada, teve reflexos o suficiente para desviar de uma flecha que passou silvando sobre sua orelha, com certeza deixando uma mecha no chão.
Sem perder tempo, a ruiva começa a correr e fintar, enquanto faz uma breve prece e um báculo dourado aparece em sua mão. Mais uma saraivada de flechas são disparadas em sua direção, que ela prontamente se desvia com fintas e acrobacias, ou apenas rebate com o báculo. Agora ela conseguia ver claramente: atrás de uma construção destruída de pedras negras como ônix e cinzas vulcânicas, dois homens estava mirando na mesma com balestras de guerra. Com apenas um salto acrobático que teria quebrado o pescoço e a coluna de muita gente, Kallynka se joga para detrás do muro e desarma os dois homens com um movimento rápido e preciso do báculo.
Os dois se entreolham e percebem que é melhor fugir o quanto antes. A Papisa apenas deixa que isso aconteça e começa novamente a apreciar o local. O céu era coberto por nuvens brancas como algodão e tão macias quanto. Não era preciso caminhar por ali, apenas flutuar e as construções eram todas feitas de ônix polido e o ar parecia carregar uma poeira de cinzas vulcânicas que fazia o pulmão arder no começo, mas depois enchia seu espírito com vitalidade e forças. Havia também certas nuances de dourado e azul-claro no local tirando a monotonia de cores dicromáticas, o que tornava o lugar lindo e interessante.

Estava esperando por você, Kally fofucha! — um homem alto com barba e cabelos louros e olhos bem verdes, contrastando com a pele pálida e vestindo um uma camisa xadez azul, camisa branca e calça jeans, all star e uma bandana na cabeça, literalmente pula em cima da ruiva a abraçando forte e a derrubando no chão. — E aí? Gostando de Torinoko City?

sexta-feira, 18 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Niel Razia — Macabras Teorias

Niel Razia era conhecido como Brokenhawk por vários motivos, mas nenhum deles incluía ser sequestrado para o Abismo duas vezes seguidas. Era impressionante sua incompetência para assuntos que envolviam a purificação, como era aquele trabalho puro e simples. Ele deveria pelo menos ter ido para o Abismo descobrir informações sobre o Quartzo Fantasma que a Insanidade carregava, mas tudo tinha sido em vão. Que droga! A raiva e a frustração o impediam de pensar claramente e as marcas de maus tratos que tinha sofrido enquanto estava nas garras de Lilith ainda doíam com intensidade aumentada pela vergonha.
Deitado em seus aposentos no Hall di Angelo, Niel pensava sobre como faria para recuperar suas forças e reiniciar sua busca. Certamente seu poder de Banimento seria algo de extrema importância contra aquela coisa. Do pouco que sabia, o Quartzo Fantasma tinha a habilidade de contra-atacar perfeitamente qualquer outro artefato mágico que existe. O poder de nulificação que aquela pedra tinha era absurdo, mas não era apenas isso. Quartzo Fantasma era um dos artefatos mais antigos e mais perigosos que existiam em toda a Ahtrim Ayon, por motivos até então desconhecidos.
Lilith dissera para ele que o poder daquela pedra era fundamentalmente trino. A capacidade de nulificar qualquer tipo de poder, a de contra-atacar qualquer tipo de poder e a de controlar qualquer tipo de poder. Isso ainda não explicava porque a Insanidade queria aquela pedra. Ainda não explicava porque o Aspecto queria tanto domar aqueles poderes, quando ele mesmo já podia controlar a probabilidade de todos os eventos do mundo. Dominar os segredos daquele artefato significaria uma maneira de contra-atacar qualquer poder existente nessa dimensão. Algo não se encaixava.
Você nunca entra em combate direto, Pierrot. O que está planejando ao usar o Quartzo Fantasma? Porque está se preparando para uma guerra? — a cabeça de Niel estava a mil por hora, incapaz de parar no mesmo lugar e respirar de maneira compassada e calmante. Sua única asa negra se remexia em suas costas, mostrando a agonia interna que assolava suas suposições, com teorias mais macabras do que antes.
O maquinário de seu cérebro já estava fumegando e as engrenagens já estavam dando pane com aquele brainstorm agonizante que ele sofria. A Insanidade por si só tinha a habilidade de se unir ao seu Receptáculo, um ser humano que surgia uma vez a cada 10 anos e era compatível para que ela habitasse dentro de seu corpo, geralmente apresentando uma grave deficiência mental, como esquizofrenia ou psicopatia. Era a mesma coisa com a Barbárie e a Decadência, assim como o mesmo princípio se afirmava para a Esperança, a Lealdade e a Inocência. O Silêncio era especial, pois ele não tinha um Receptáculo e nem um Atame, mas não precisava disso por ser superior aos outros Aspectos e até mesmo aos deuses.
Ah, os Atames. Eles eram ainda mais misteriosos do que os próprios Receptáculos. Um Atame é formado cada vez que uma pessoa desiste ou usa seu poder para expulsar um Aspecto. Diferentemente dos Receptáculos, eles podem escolher qual dos extremos opostos ele vai banir, se a Esperança ou a Insanidade; a Inocência, ou a Barbárie; a Decadência ou a Lealdade. Existiam apenas 3 em toda a Ahtrim Ayon, e cada vez que havia uma desistência, outra pessoa recebia o poder em algum canto do universo. O curioso é que os Atames sempre terão uma relação com os Receptáculos, mesmo sem saber.
Seria tão mais simples se fosse qualquer outro o seu inimigo, mas não. Era a porra da Insanidade, o único Aspecto completamente imprevisível, que ninguém poderia saber o que estava tramando. A Insanidade era capaz de fazer qualquer pessoa ficar demente apenas olhando nos olhos, condenando a mesma a um eterno pesadelo sem qualquer limite de torturas, mas não, ela nunca faria isso. Ela preferia seus métodos escusos e obscuros, onde ninguém jamais conseguia prever com exatidão onde estava pisando. Quando a Insanidade tinha invadido a cidade dos Artistas, ela estava justamente a procura do Quartzo Fantasma, mas disfarçou isso com perfeição, fazendo todos de tolos ao pensarem que estava realizando o Ritual dos Corpos.
Ele provavelmente achou o Quartzo muito antes de começar a explodir pontos importantes da cidade, mas ele manteve a farsa e explodiu locais de suma importância e outros nem tanto apenas para disfarçar, enquanto achava o Quartzo e se conseguisse realmente fazer tudo funcionar, o Ritual dos Corpos poderia ser feito, consolidando aqueles corpos como os novos Aspectos, e seria muito mais do que impossível derrotá-los. Qualquer um poderia dizer que ele estava apenas de olho no Ritual, mas depois que se conhece o poder do Quartzo, entende-se que ele poderia usar o poder do Quartzo sem precisar de um corpo para se manifestar.
Você não é burro, Niel, pense! Aquele cara está brincando com sua cabeça, te pregando peças e te fazendo ver coisas que não estão ali. Isso não é a verdade, existe algo por trás. Algo que ninguém esta vendo! Pense, Niel, o que você está deixando passar? — o anjo esfregava as têmporas, como se forçasse o fluxo de sangue para o cérebro, como se isso ajudasse a ter uma ideia para salvar o mundo. Estava tão perturbado que uma batida na porta o desconcentrou a tal ponto que gritou de espanto e frustração, num misto de urro e silvo.
Uma garota de cabelos rosa e pele clara entrou correndo, vestindo uma camisola preta. Seus olhos estavam fundos e marcados de maneira profunda pelas olheiras de quem não dormia a semanas. Daisy deveria ter apenas 20 anos, idade a qual não deveria ter nenhuma preocupação a não ser dançar feliz nos bailes promovidos por aquela zona. Mas invés disso, estava presa naquela casa, cuidando do pai que passaram tanto tempo nas garras de uma tirana que comandava o abismo, e agora nem dormir podia se dar ao luxo, pois seu pai quase todas as noites acordava gritando e atacando tudo e todos, um perigo para si mesmo e para quem estivesse por perto. Daisy passara rapidamente de criança para guardiã de Hall di Angelo e babá de seu pai, e isso era desgastante.
Pai, você tá bem? Aconteceu alguma coisa? Você parece… Estressado. — a boca de Daisy coçou para não dizer que ele parecia a beira de um ataque de nervos — Eu vim apenas avisar que o jantar está pronto. Venha jantar e conversar comigo, pai. Você precisa.
E a menina saiu do quarto, deixando o pai com a face ligeiramente rosada de vergonha. A que ponto o homem dentro dele era inútil? A mãe de Daisy morria e em vez de tomar conta da filha, era ela quem tomava conta dele cada dia mais. Envergonhado com esse fato, Niel faz sua higiene e desce para jantar e conversar com sua filha. Um pai precisa estar presente para a família, e nesse momento, ela precisava dele com todas as forças, com certeza menos do que ele precisava dela, mas ainda assim.
O cheiro de carne cozida temperada encheu o ar da cozinha, junto com o cheiro de batatas crocantes e amanteigadas, bolinhos de arroz recheados de pasta de feijão. O jantar prosseguiu agradável e leve, como uma verdadeira refeição em família, solitária talvez, mas, com certeza, algo que ele já não tinha ha tempos, e agora ele podia saborear. Lembrou-se de sua finada esposa, conversando com ele sobre as bobagens de sempre e em como sua filha lembrava a mesma com uma semelhança incrível. Ela tinha tanto poder latente, tanta resiliência e maturidade, era o exemplo perfeito de um líder que não seria derrubado.

Daisy percebeu seu pai a encarando com olhos ternos e perdidos em devaneios. Sorriu para si mesma, lembrando quanto tempo o olhar de seu pai não se perdia desse jeito, mas logo tudo caiu por terra. O sorriso se apagou e virou uma boca trêmula como se alguém tivesse falado algo feito para machucar. Os olhos que antes carregavam ternura e amor, agora estavam cheios de horror e paranoia, e a expressão congelada com a ideia apavorante do fim do mundo. Daisy sabia que isso era um dos ataques de terror noturno, mas agora, seu pai estava acordado. 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Carlisle Morgan Blake — A Águia e a Pantera

Carlisle andava pelos corredores daquele complexo enorme, pensando consigo mesmo em como as pessoas eram fúteis e fáceis de enganar. Nariki estava cada vez mais tola e manipulável. Daquele jeito, ela seria considerada uma ameaça, junto com Sophie e seus amigos. Ainda estava impressionado que sua irmã não tivesse dado um choque de realidade na amiga quando estavam naquela entre-zona procurando a bolsa do poder dos deuses. Talvez agora Lawliet pudesse ascender oficialmente e sua irmã poderia finalmente perceber que ela era uma sumo sacerdotisa.
O tridente que recentemente tinha capturado naquela entre-zona ainda pesava em suas costas, assumindo uma responsabilidade temerosa. Ele agora era o dono da Pantera. Assim como Sayter tinha a Águia a seu lado, agora ele também tinha uma arma que podia destruir um pilar. Ele só esperava que não precisasse chegar a tanto. Continuou avançando pelo corredor vazio e sombrio que a Ordem do Manto Negro tinha normalmente, atento ao menor dos movimentos. Ele se dirigia ao salão principal, onde o líder dos assassinos provavelmente estava entediado deitado em seu trono, esperando uma forma de diversão.
Carlisle Morgan Blake! Que surpresa agradável encontrar você aqui no complexo dos assassinos. Você deve ter uma missão muito especial para ir de encontro ao nosso líder carregando uma arma com esse calibre. — um homem com capuz negro e cicatriz no canto da boca surgiu atrás de Carlisle falando isso. Os instintos do garoto falaram que qualquer que fosse seu desejo, enfiar o tridente na garganta do assassino era mais seguro do que conversar com o mesmo.
Izaya — Carlisle virou e encarou o homem. Seus olhos negros e dourados já estavam prontos para fuzilar o mesmo com impaciência. — Não tenho tempo para suas tolices, então seja rápido em despejar seu veneno.
Sayter é uma criança impaciente. Ele não vai gostar do que você tem a falar. Ainda mais agora que você foi elevado a Ômega. Como se sente sendo tão importante para tanta gente? O Valete dos Tenebrae e um Planinauta Ômega ao mesmo tempo. Decidiu virar um dos lacaios do Tess? — Izaya tinha um sorriso sinistro em seu rosto. Como aquele assassino conseguia tanta informação assim ainda era um dos mistérios da vida. Era capaz de ele saber exatamente os planos da Insanidade e se manter calado sobre.
O que eu faço ou deixo de fazer com minha vida, não é de seu interesse de forma alguma, Izaya. Eu não respondo a você, nunca respondi e jamais responderei. Mesmo tendo treinado com você por um tempo, somos completamente diferentes do que eramos naquela época. Hoje não somos mais amigos nem rivais. Você só não significa mais nada pra mim! — claro que Carlisle estava com raiva daquele cara. Quando ele tinha fugido pela primeira vez da Zona Tenebrae, ainda uma criança, logo após cumprir a ordem de Rosalie de resgatar o corpo de sua irmã… Izaya tinha sido a pessoa que estendera a mão para ele. Ele tinha ensinado o menino como lutar, como ser um assassino e como pegar a moeda mais valiosa do mundo: informações.
O assassino pensou por alguns momentos se não estava errado. Izaya teve tanto tempo sozinho naquele fim de mundo, escondendo quem realmente era e porque… Seu sorriso vacilou e desapareceu lentamente. Carlisle tinha sido seu melhor amigo, e no momento que o traíra, perdera-o para sempre. Mesmo juntando todo o seu tempo livre e dedicando para achar informações úteis ao Valete, Izaya sabia que o perdão não viria com facilidade.
Os olhos do assassino preencheram-se com memórias de um tempo longínquo, onde ele ainda era feliz apenas eliminando alvos pré estabelecidos e sendo pago para isso. Tanto tempo antes do antigo líder morrer passar o trono para Sayter. Naquele tempo, seu melhor amigo era o Valete, e eles eram uma dupla formidável. Missão dada era missão cumprida, e eles sempre faziam isso em tempo recorde. Foi assim que ele ficou sabendo do Silas, de sua conexão com o Silêncio e tudo mais que envolvia a Bainha do Ostracismo.
Não vou te impedir de entrar no salão do Sayter. Apenas tenha em mente que ele nunca matou ninguém, oficialmente. Então uma vez que entre lá, esteja preparado para não sair. — a seriedade estava estampada no rosto de Izaya, marcada profundamente pelas rugas de preocupação que se formaram em sua testa. — Lembre-se, não é vergonha fugir de uma batalha. É sábio sobreviver pra lutar outro dia.

׆††×

Sayter já sabia de tudo o que estava acontecendo antes mesmo de Carlisle entrar na sala. Seus espiões pelo mundo inteiro já tinham deixado o menino a par dos últimos acontecimentos. A Bruxa Milenar tinha sido fatalmente derrotada através do esforço em conjunto de Sophie, Nariki e Lumiel. Alguns dos novatos tinha se prontificado a ajudar como Leroy e Lola, mas ainda tinha sido uma batalha bem complicada e estressante. Ninguém até hoje tinha conseguido vencer a Bruxa Milenar pelo seu poder de invencibilidade, com uma capacidade tão ampla que era realmente incrível alguém sair vivo de uma batalha contra a mesma.
Deitado em seu trono de madeira negra dura como aço e pesada como chumbo, Sayter esperava que o intruso viesse ao seu encontro e despejasse tudo o que sabia sobre ele de forma clara e concisa. Não tinha paciência para joguinhos de qualquer forma, e mesmo aqueles em que era o protagonista, se cansava de fingir e de usar máscaras, e rapidamente se armava e dava o bote certeiro, silencioso e mortal. Suas costas reclamaram e todas as juntas do seu corpo protestaram quando ele mudou de posição naquele trono duro e imaleável, fazendo alguns estalos percorrerem sua coluna desde a cervical até o sacro.
As imensas portas de ferro negro trabalhado e esculpido naquele salão foram escancaradas enquanto uma névoa negra e tóxica entrava no ambiente e se avolumava a sua frente, inundando o salão iluminado fracamente pelo fogo azulado que ficava no alto das colunas de sustentação de granito negro. A névoa preencheu o em poucos momentos, deixando a atmosfera mais perigosa e pesada, como o encontro de uma massa de ar quente contra uma de ar fria, causando uma terrível tempestade com raios, relâmpagos e trovões. Sayter podia sentir que o ódio gotejando de sua pele, tal qual suor, quando o rosto do Valete tenebrae se solidificou com uma expressão impenetrável de frieza e amargura.
Bem-vindo de volta, Carlisle Morgan Blake. A que devo a honra de sua visita, meu jovem aprendiz? — Sayter tinha posto sua melhor máscara de paciência e tranquilidade. Não queria sangue desnecessário derramado sobre seu chão. Se tinha aprendido alguma coisa com Shiroi Kira, era que mortes desnecessárias eram a pior coisa do mundo.
Bem, Sayter, já que perguntou… Eu estou aqui pelo mesmo motivo que eu estive antes: a Águia! Você não tem permissão de ficar com uma arma que pertence a família de Haffketran, e mesmo que tivesse permissão direta de Damon, não tem permissão da Távola. Agora seja um bom garoto e entregue essa adaga para mim agora! — as palavras saíra a contragosto da boca do Valete, sendo recebidas por um sorriso de escárnio da boca do menino. Ele realmente tinha vindo até a sua casa, dar-lhe ordens sobre as armas que ele tinha roubado honestamente.
Quanta petulância da sua parte, Valete. Acha mesmo que eu devo obedecer você, pela sua posição no mundo? Você é só mais um ferrado qualquer que vem até meu aposento procurando o fim do mundo. Você quer a Águia? Pois bem, aí ela está!
Um brilho dourado zuniu pelo ambiente, cortando até mesmo o ar que estava em seu caminho, uma lâmina de ouro vermelho, afiada a ponto de cortar moléculas e com uma guarda trabalhada em arabescos simétricos, e o cabo do mesmo material de ouro vermelho e couro negro, com a cabeça de uma águia de enfeite como finalização do cabo. O borrão dourado avançava em velocidade delirante, ricocheteando pelo ambiente e acelerando ainda mais, dando tempo apenas de Carlisle se colocar em forma de névoa e ver aquela coisa cravando em sua jugular, e mesmo estando intangível, aquilo doeu como nunca doera antes na vida. Não era a toa que a Águia podia destruir os pilares.
Você não faz ideia do que arrumou pra si, jovem! Eu sou Sayter Revenanth, o maior Manto Negro que já existiu na história da Ordem e você achou que poderia me desafiar? Eu realmente acho que nunca ninguém foi tão burro quanto você foi, mas eu não estou aqui para julgar, apenas para punir. Agora dance, rato das trevas, dance! — Sayter tinha um sorriso homicida no rosto, que deixava claro a intenção de fatiar o corpo de Carlisle em pedaços.
O Valete, por sua vez, não estava com tempo de olhar para o rosto da criança, pois estava muito ocupado executando uma série de acrobacias evasivas que fariam os ossos de pessoas normais quebrarem pelo esforço visual para acompanhar. Aquela luta estava praticamente ganha. Carlisle não tinha como vencer aquele monstro que sorria e observava tudo, cada movimento errado e cada golpe recebido. Carlisle sabia muito bem que era seu fim, a não ser que lutasse de igual pra igual. Com essa decisão em mente, ele puxou a Pantera e interceptou um ataque da Águia com uma das pontas do tridente.
A expressão de Sayter murchou, transpondo um abismo entre a alegria sádica e bestial até a raiva infantil por ter sido interrompido no meio de uma brincadeira muito divertida. Mesmo com aquela cara de criança, a expressão sombria de irritação era claramente ameaçadora e capaz de fazer um adulto se molhar de medo. A criança se levantou do trono e começou a descer do alto de seu trono, com a expressão congelada em seu rosto, olhando fixamente para aquele tridente, enquanto a adaga fazia força contra a arma de Carlisle. Ela já não precisava sentir a energia que emanava daquela peça para saber que era uma das armas que rivalizavam com sua adaga. Ele tinha a Pantera.

Ora ora, quem diria. Você tem a Pantera! Se você é o novo guerreiro capaz de empunhar esse tridente, então quem sou eu para matar você? Eu não vou te devolver a Águia, porque eu posso empunhá-la tão bem ou melhor até mesmo que os da sua raça, então saia daqui rastejando, na certeza que esse tridente poupou sua vida, e não eu!

terça-feira, 15 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Soraru Vulpis-Canis — Juramentados

Ethan Einslaw observava o céu estrelado lembrando das palavras de sua amada. Passaram-se quantos milênios? Um, dois, cinco? Quem sabe. Quando ele estava na forma de Horror Ensanguentado, o tempo parecia que não fluía de modo algum, ou então passava com uma rapidez absurda. De ambos os modos, ele ainda lembrava do que fora forçado a cometer nessa forma horrível, sem jamais imaginar as consequências que esses atos provocavam. Sempre soube que Sygin tinha algo de especial, mas jamais conseguiria pensar por um único momento, que aquele algo especial tinha se apagado por caprichos da sua mestra.
Meditando sobre a vida, Ethan? Aqui em cima, onde nós não podemos ser vistos pela mestra? — disse outro jovem, aproximando-se com cautela, temendo desviar o amigo de seus devaneios.
Oh, Soraru. Não sabia que você estava aqui pela redondeza. Bem, seja bem-vindo, afinal você entende minha dor. Você também matou várias pessoas amadas durante o seu estado de Coração Negativo. Mas eu nunca imaginei que você quase seria morto pela gata maluca.
Uma risada pesarosa de ambos os lados se fez soar. As coisas tinham se provado bem mais complicadas do que normalmente era para aqueles dois, e mesmo que todos quisessem provar que era possível ser feliz e superar as dificuldades, era bem difícil de acreditar nisso quando você é um monstro guiado apenas pelo ódio e pela sede de destruição, e isso esses dois conheciam bem. Soraru tinha quase morrido pelas mãos da mulher que um dia amara, e mesmo assim, teria aceitado esse destino feliz, mas ao invés disso, ela preferiu poupá-lo.
Ah, as alegrias da vida… E suas ironias também. O grande e poderoso Soraru Hyakki Yako, preso junto de Ethan Einslaw, ambos acorrentados ao seu próprio orgulho de ter recusado a ajuda, de terem sido arrogantes e confiarem em seus poderes. Houvera situações parecidas, onde a humilhação e a dor eram suas companhias constantes, mas no fim, sempre via o resgate, a alegria, o abraço confortável de alguém cujo cheiro poderia fazer seus pelos eriçarem de excitação. Mas agora, o futuro adiante era sombrio e obscuro, reservando apenas as memórias mais agridoces e esfumaçadas que você podia ter. Sygin Collaerium, que padecera pelas mãos do Horror Ensanguentado. Emiliana Félin D'hiver, a leoa que não conseguira eliminar o Coração Negativo, por estar apaixonada por Soraru. Tudo isso voltava na forma de vergonha e medo na visão embaçada dos dois.
Sabe, Ethan… Não podemos continuar nos culpando pelo destino que escolhemos. Nós vencemos e mesmo assim, perdemos para a bruxa. Acha mesmo que eu preferia estar aqui com você do que estar na terra dos vivos, cuidando da minha família? Eu sou pai, pelo amor de Periculum! Na verdade, eu já devo ser tataravô a essa altura do campeonato e ainda estou congelado em meus jovens 20 anos! Eu abri mão de muito mais coisa para estar aqui e mesmo assim, eu não reclamo nem um pouco disso!
Mas pelo menos, sua esposa estava viva quando você acordou! Eu matei a mulher que eu amo! Eu matei a Sygin, e não importa o que você tente dizer pra me consolar, nada muda o fato de que fui eu que dilacerei o corpo dela, fui eu quem fez cada gota de sangue dentro do corpo dela fazer o que fez, fui eu que fiz com que ela se tornasse a massa de carne podre e irreconhecível que ela estava quando eu finalmente acordei para tentar impedir. Sabe o quanto isso me dói, Soraru? Duvido que saiba. — Ethan apenas disfarça as lágrimas quentes e rubras que saem de seus olhos. Com um arrepio, ele sente o amigo lhe envolver com um abraço. Ele era a única “pessoa” a quem podia chamar de amigo e que podia contar para lhe consolar nesse momento.
Não é fácil para nenhum de nós. Mas, pelo menos, nós temos a certeza que ainda estamos juntos no final das contas. Eu sou seu amigo, mesmo sento pelo menos uns dois mil anos mais velho que você, temos a mesma idade mentalmente falando. Somos apenas dois idiotas seguindo as ordens da patroa. Nada muito diferente de jovens caras que agem segundo a cabeça de baixo.
Ambos deram uma risadinha. Soraru tinha razão em determinados momentos, e por mais que a autopiedade e a culpa pudessem ser suas melhores amigas e companheiras desde o dia que vira o resultado, nada era melhor do que ter a certeza de que como toda e qualquer paixão, o dia em que se veriam livres das garras da Bruxa Milenar estava cada vez mais próximo, com toda a certeza. Ethan sentia isso em sua alma, mesmo que não tivesse mais uma desde a batalha. Com um gesto da mão, o ar ao redor os dois tremulou, revelando uma infinidade de pontos brilhantes em um tecido negro, como se o universo tivesse comprimido todas as estrelas, galáxias e astros e tecido uma linda colcha de retalhos com as peças resultantes.
Eu sempre gostei do Monte Galáctico. Aqui, nós podemos sentar e observar tudo o que se passa em todo o cosmos que habitamos. Eu geralmente venho aqui para observar meu descendente. Ele é um felino incrível, assim como a mãe. Herdou toda a força, coragem e frieza da mesma, entretanto, é um grande apaixonado e bobalhão como eu. Claro que isso é um traço distante, após quase cinco mil anos. Mas eu juro como eu queria, pelo menos, uma vez ficar perto de um membro da família e envelhecer junto deles até ser abraçado pela morte.
Eu te entendo perfeitamente. Eu queria ter envelhecido junto da minha Sygin, ter tido filhos com ela e netos quem sabe. Eu não ligo muito pra essas coisas e realeza e nobreza. Eu só sou um cara simples que quer uma vida simples ao lado da pessoa que me ame como eu a amar. Bem, não posso dizer que foi o que eu consegui, mas ao menos posso vir aqui observar algumas pessoas. É a vida, né?
Uma risada seca de ambos foi tudo o que ouviu o local. Soraru e Ethan estavam quase sentindo a nostalgia do momento, sem aquela carga emocional intensa que geralmente acompanhava tudo. Era legal ter aquela diversão toda, observando parte dos seus entes queridos que sobreviveram em seu dia a dia normal. Ou tão normal quanto era possível para aqueles dois. Soraru observava seu neto de muitas gerações fazendo suas estripulias na floresta e sendo uma criança triste e miserável com aquela Bunny Woman a solta. Não se importou em perguntar o que Ethan olhava, pois não era de seu interesse. As mágoas de seu melhor amigo eram apenas dele.
Em contrapartida, Soraru viu a névoa do local lhe mostrar outras coisas. Seus outros parentes ainda vivos: os BlankLycan e os BlackFox. E entre eles, uma menina esperta. Forte, corajosa, mas tola e imprudente, tal qual todos os outros que conhecera. Certamente seria alguém que daria orgulho a ele algum dia, se isso fosse permitido. Sua mestra era bem capaz de mandá-lo atrás dela para que sua vida fosse ceifada. Beatrice provavelmente era a bruxa mais cruel e poderosa que jamais tinha visto antes, com certeza, ela sabia muito bem como manter a festa rolando.
Soraru, onde você se vê daqui a 10 anos? Ainda estaremos sob o comando da Bruxa Milenar? Eu queria, pelo menos uma vez, sentir que pagamos todas as merdas que fizemos e sermos libertos dessa maldição. Eu sei que eu não tenho vida, e que provavelmente todos que eu conhecia e amava morreram pelas minhas mãos, mas eu quero a chance de começar de novo. Eu quero a chance de fazer as coisas certas pela primeira vez, de ter uma família, amigos e talvez até um emprego. — Ethan tinha uma pequena lágrima nos olhos, e deixou que a mesma rolasse. Não faria sentido impedir.

Não esperaremos 10 anos, meu irmão. Seremos libertos antes disso. Seremos totalmente libertos, e ficaremos perfeitamente bem. Seremos felizes e teremos amigos, família, emprego e tudo de volta. Poderemos ter a vida que nos foi tirada. Recomeçar. Eu sei disso, e teremos isso! Teremos tudo isso que nos foi negado, e eu prometo que não vou te deixar sozinho nessa. Eu prometo!

Ahtrim Ayon — Axel Bishop – Uma Honra Concedida

Taylon brilhava. Não de alegria, e muito menos de excitação. Ele brilhava de agonia e ansiedade, com a luz saindo de seu corpo como pequenos lasers, constratando fortemente com o homem alto e loiro deitado relaxadamente no sofá do hospital. Ao longe, ouvia-se uma vez feminina urrando alguns palavrões e maldições indizíveis, enquanto algumas enfermeiras iam e vinham banhadas de sangue. A filha de Charlie estava nascendo e ele estava preso na zona Tenebrae, forçado a atender aos desejos da rainha. Ele só podia rezar para que os companheiros do Clã Morgan fossem capazes de salvá-lo.
Axel, ao contrário, estava relaxado e até tentava cochilar ao som do praguejo da Alice. Sabia que a amiga estava encarando aquilo como uma batalha contra Sakura, e ao mesmo tempo ria da tentativa vã das enfermeiras de manter a boca da amiga limpa. Até que finalmente, com um urro que fez chover algumas adagas pela cidade, o choro de uma criança se fez soar. E continuou chorando por alguns momentos até que foi minguando até tudo estar no maior silêncio possível. Axel abriu os olhos e a sua frente, Alice estava em pé, pingando sangue, com as enfermeiras tentando desesperadamente levá-la para a cama, com uma linda menina de cabelos castanhos no colo.
Você! Você vai ser o padrinho dessa criatura, Axel Bishop, e eu arrebento a tua cara se disser não. E quanto a você — disse a mulher virando para Taylon e fazendo o mesmo se encolher — Ache meu marido, senão…
Taylon sumiu engolindo em seco. Jamais imaginara uma mulher com a força daquela que seu amigo escolhera. As coisas estavam tensas, mas tudo ia ficar bem. Ele tinha certeza disso.

׆††×

E foi assim que você nasceu, Sophie. Fim da história. — disse Axel, degustando da bebida amarga e preta, que os humanos chamavam café.
Cara… Eu realmente não queria ter escutado isso. Eu não precisava ter escutado isso! E não foi o que eu te perguntei, cacete! — respondeu a menina
Estressada igual a mãe. Foi somente isso que a impediu de vencer a mim e a Sakura. Pouca paciência. Senta o rabo na cadeira e toma essa “soda italiana de abacaxi”, seja lá o que seja isso.
Primeiro, eu chutei a bunda de vocês dois na arena. E segundo, eu prefiro minhas bebidas gays à café. O gosto é muito amargo.
Sua mãe ficou extremamente amargurada depois que você nasceu. Eu jurava que você chorava por leite azedo — riu o mesmo, logo após o tapa da garota. — Desculpe, não pude me conter. Eu também sinto falta daquela vadia. Minha melhor amiga e minha única rival na cidade. Mas enfim, o que você quer saber?
Eu não sei por onde começar… É só que… Muitos de vocês me tratam como se me conhecessem a décadas e eu não lembro de nenhum de vocês. Eu realmente não lembro de nada que aconteceu com a antiga Sophie.
Axel parou com a xícara a meio caminho da boca e a olhou intrigado. O rosto duro e severo, porém belo e atraente, os olhos amarelos brilhantes, como dois pequenos sois a mostra, cintilando em vários tons, o cabelo castalho e os traços levemente latinos. Ela realmente lembrava muito sua amiga, mas em muito lembrava seu cunhado. Charlie. Ele podia ter esperado só até a filha nascer pra se jogar dentro da zona Tenebrae, só o bastante para explicar essas coisas a ela. Charlie era o planinauta, não ele.
A Sophie que eu conheci era linda. Tinha um coração maravilhoso, sempre disposto a acolher aqueles que confiava. Ela era capaz de levar uma lança pelo corpo, só para parar o ataque do adversário em alguém que ela amava. Completamente louca, na verdade. Simplesmente não conseguia se manter fora de problemas ou evitar de comprar uma boa briga com alguém. Mas ao mesmo tempo, era gentil, calma, estrategista e uma líder para os que aqui ficavam. Eu a vi crescer de longe, sob os cuidados dos Mazashi. Sempre deixava um ou dois presentes de aniversário para ela. As vezes três pela falta que ela tinha da família. Dedicada e poderosa, foi assim que ela cresceu, cercada pelo amor das crianças Mazashi e pela compreensão de Lilian. Até aquela noite.
Um leve tremor percorreu a mão esquerda do loiro e um machado de guerra surgiu acima dela, e ali permaneceu flutuando, até que o mesmo se tocasse e retornasse a arma. Foi o toque da mão da afilhada que o despertou. Ao sentir os dedos da mesma se envolverem e sua mão, ela parou de tremer, mas ele ainda estava triste e desolado.
Boa parte do que você falou é familiar, mas eu realmente não tenho nenhuma lembrança específica. — disse ela — Eu não sou tão foda ou tão forte quanto a antiga Sophie. Sou alguém mais quieta. A única lembrança que eu tenho dela é do sonho de quando eu acordei meus poderes.
Entendo. Mas isso é comum, afinal a Alice ficou perdida quando veio pra cá pela primeira vez. Lembro até hoje que a coisa era magra feito uma titela, mas conseguia puxar dezesseis espadas com um sorriso. Foi nesse dia que começamos a treinar com a promessa de um dia sermos os Cavaleiros da Távola. Com o treinamento, ela ia despertando as memórias, então quem sabe aconteça a mesma coisa com você.
Mas eu não entendo. Eu to aqui a meses, já faz praticamente um ano. E a única memória vivida que eu tenho é de quando a Sophie morreu. (Nota Mental: Isso é bem estranho de se falar)
A Sophie não morreu. Você morreu. Comece a encarar que você é ela, ela é você, vocês são uma, e as duas são unidas.
Bem, eu sei que sou eu, mas ao mesmo tempo não sou eu… Entende a situação que tá na minha cabeça? — falou Sophie em uma breve confusão.
Acho que foi a mesma confusão quando um garoto de 11 anos entrou na minha casa em pleno período de luto e velório e disse que precisava levar seu corpo embora, porque estava contaminado com energia tenebrae e precisava ser destruído.
Deixa eu ver se eu entendi: um garoto de 11 anos entrou na sua casa, pegou meu corpo e saiu com ele porque precisava ser destruído por causa da contaminação tenebrae? Deixa eu advinhar: cabelo castanho espetado e olhos dourados? — o sarcasmo e a ironia estavam escorrendo das palavras da menina.
Axel porém, olhou pra ela com uma cara um tanto quanto peculiar. Ao mesmo tempo que parecia “você tá doida”, também dizia “ela sabe de alguma coisa e não quer falar”. Aproximando um pouco mais a cadeira da mesma e dando um gole demorado em seu café, respondeu:
Não. Cabelo longo escorrido branco e olhos negros.
Sophie para e tem diversos conceitos perpassando seu olhar. Algo estava errado ali e sua intuição formigava como se a mesma estivesse sentada em um formigueiro com brasas de churrasqueira. Fazendo um sinal de espera na mão, a mesma começou a trabalhar em um holograma com suas memórias, formando a imagem de Carlisle Morgan Blake, e mostrando-a para Axel.
Por acaso ele tinha um rosto parecido com o desse guri? — perguntou a mesma com olhos flamejantes.
Admito que tem o rosto parecido, mas o cabelo e os olhos ainda são diferentes. Quem é esse? Tem os mesmos olhos e traços que você. São primos? — o loiro tentava estudar melhor a imagem, realmente intrigado com o que via.
É né? Irilis tem facilidade para mudar a cor dos olhos e cabelo se resolve com peruca. Essa criatura é um terço Herdeiro da Babilônia, um terço Irilis e um terço Tenebrae e é meu irmão mais novo. E eu não faço a mínima ideia do que essa coisa quer da vida, porque uma hora ele me salva e na outra ele me ferra, dá vontade de dar uns tapas nele pra ver se escolhe um lado.
Os olhos de Axel mudaram. O dourado claro deu lugar a um vermelho homicida e Sophie só teve tempo de ver um círculo mágico cobrindo toda a cidade e mais alguns quilômetros enquanto uma revoada de armas choviam na cidade destruindo tudo o que viam pela frente. As pessoas encaram aquilo tão naturalmente que apenas invocaram escudos como guarda-chuvas e esperaram o fim do sereno. Alguns minutos depois, uma mulher esguia de cabelos vermelhos e olhos dourados aparece e acalma o loiro com um tapa no meio das fuças. Sakura apenas virou pra Sophie com cara de “é sério? Te fode aí sozinha com ele agora”, e saiu com um escudo na cabeça, recolhendo a maioria das armas que ainda estavam caindo.
Ahn, melhor você não destruir a cidade no surto… — sussurrou a mesma, aproximando-se lentamente e com escudo ativado.
Mais quinze minutos de xingamentos, pragas e coisas inapropriadas para crianças e Axel caiu chorando, de raiva, tristeza, rancor e sabe-se lá mais o que. Nenhuma arma caiu nesse meio tempo, mas era o bastante pra saber que o mesmo estava desolado. Como sua amiga Alice podia ter feito algo assim, como? Porque ela tinha feito isso? Ele queria gritar, espancá-la, matá-la, mas acima de tudo, queria abraçá-la. Axel chorou, na frente de Sophie, sem medo das consequências ou de quem pudesse ver.
Pela sua reação, você não sabia desse pequeno detalhe, né? — a garota ainda não desativou o escudo, e se aproximava um pouco mais.
Os olhos vermelhos e inchados de Axel guardavam um pouco de raiva quando se levantaram. Sophie viu em seu rosto retorcido que a vontade do mesmo era ir embora naquele instante e deixá-la para trás. Mas não era com ela que ele estava irado. A culpa não era dela, ela era apenas o alvo mais próximo no momento.
Acho que deixei meu forno ligado. Tenho que ir pra casa — respondeu o loiro secamente.
Axel, você não tem um forno em casa. Você sequer come em casa.
Não seja por isso. Eu compro um em segredo e cozinho em segredo pelos próximos anos. Adeus! — disse ele, tentando se levantar e se afastar.
Vai mesmo dar uma de covarde e fugir? — uma faca passou raspando a lateral do cabelo da garota — Eu tenho um espaço pessoal de treinamento dentro da cyberzone, se conseguir ficar acordado.
Muito obrigado, mas não. Preciso de um tempo sozinho pra digerir isso. Você tem um irmão! Sua mãe engravidou de novo e teve um filho com um tenebrae! Será que ela tem alguma coisa na cabeça?
Olha, disso até eu duvido. Mas sinceramente, é a primeira coisa que eu vou perguntar pra ela enquanto grito com ela e arrasto ela pra fora daquele buraco que é a zona Tenebrae. Você não é o único puto com mamãe, eu to vendo e vivendo essa história em primeira mão. Eu não entendo porra nenhuma do que tá acontecendo e ainda por cima tem um monte de pessoa que me conhece e eu não sei nada sobre elas.
Axel deu uma última olhada na afilhada, com certa piedade. O que quer que ele estivesse passando não estava nem um pouco comparado ao que ela estava vivendo. A menina certamente estava cortando um dobrado que poderia matá-la e ninguém sentiria falta dela novamente. O mínimo que poderia fazer, era devolver suas lembranças.

Comece a treinar sua memória celular. Suas memórias de uma vida passada vão voltar nesse momento. É um processo chamado Memoir. Até mais ver, criatura. Salve a retardada da Alice, porque eu mesmo vou matá-la.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Kronos Academy - Paradoxo II - Deborah II

Paradoxo II

Paradoxo sorria. Era algo raro e estranho, quando isso acontecia seus músculos faciais doíam ligeiramente pela falta de uso. Mas dessa vez havia um motivo para sorrir. Seu plano funcionara, funcionara por completo. Todos agiram exatamente como o esperado, inclusive as três demonias, inclusive Deborah.

Observava o pátio, o local onde os acontecimentos se deram mais cedo. O sangue da ex-professora ainda manchava a grama. Faltava pouco... Faltava tão pouco... A única coisa que poderia impedi-lo seriam os novatos, se conseguissem controlar suas habilidades e tivessem conhecimento do que realmente acontecera. Deborah poderia ter  atrapalhado, poderia colocar as crianças na direção certa... Mas agora estava impossibilitada.

Uma risadinha escapou de seus lábios, de fato quanto maior a subida maior a queda. Quem diria que um dia a orgulhosa Deborah se veria humilhada, abaixo de qualquer criatura de Kronos Academy, rebaixada por aquelas em quem confiara. Agora ela não teria nenhuma outra escolha, além de ceder...

Seus dedos brincaram com a Engrenagem Chave que um dia pertencera ao relógio de Tomas. Se apenas aquilo não fosse incentivo o suficiente para que ela viesse para o seu lado, a quebra de sua confiança pelas Moiras seria. Todas as peças estavam em seus devidos lugares.

A criança de Wolfgang estava morta, era algo que mesmo as demonias concordariam que precisava acontecer. Se nascesse isso poderia ter significado problemas para todos. Seus planos seriam antecipados, e o futuro se tornaria ainda mais incerto.

Sua memoria retornou ao jovem responsável por esse assunto. Seu nome era Billy, um sub monitor esquecido por tudo e todos. Ele próprio já possuía uma natureza violenta e irascível, não foi necessário muito para convence-lo a fazer esse trabalhinho sujo.

É claro que ela o matou, exatamente como o esperado, exatamente como previra. Sacrificara um peão, uma peça insignificante do tabuleiro, em contrapartida derrubara a rainha adversaria, e o rei estava praticamente indefeso. Paradoxo a conhecia bem, ela não apenas o mataria, o torturaria, apagaria sua existência, sem se importar em sequer esconder. E é claro que as três demonias veriam isso como um desafio, como uma afronta direta... Afinal Deborah era a viajante mais poderosa e a que mais tinha motivos para odia-las. E há muito as Moiras começavam a desconfiar de sua Viajante numero 1.

Um tempinho como prisioneira ensinaria alguma humildade a Deborah, depois que ela sofresse um pouco ele viria como um salvador, oferecendo não apenas liberdade, mas a vida de Tomas. A risada escapou de seus lábios e ecoou pelo templo de Nemesis. Ele encarou a estatua da deusa com um sorriso. Sempre se sentia tão bem ali...



*
Ela estava em uma cama desconfortável, fria, dura, nada parecido com as plumas com as quais tinha se acostumado. Mas isso não era nada. Nada se comparava a dor da traição, traída pelas malditas as quais sempre tinha sido fiel. Nada se comparava a dor do fracasso, a de ser incapaz de cumprir um juramento. Nada se comparava com a dor que convivia a cada dia, com o luto que estava sempre consigo.

Mas ainda assim... Era um golpe cruel contra seu orgulho, um golpe contra sua armadura, contra sua fortaleza. Mas se eles pensavam que assim poderiam quebra-la... Ela riu sem um pingo de alegria. Levantou o braço observando os cortes ainda abertos, como prisioneira não tinha direito a nenhum medicamento, teria que suportar a dor da infecção para depois vir a cicatrização... E ainda assim nunca por completo. Tais feridas sempre se abririam sempre que as Moiras quisessem, ou que Alexander estivesse entediado.

Sua mente foi para o jovem que agora se considerava seu superior. Ela sentia tanta pena dele.... Deborah já vira o rapaz em outras épocas, em épocas em que ele tinha mais humanidade. Quando ainda era criança. Quando ainda tinha inocência. Mas seu karma nunca permitiria que ele permanecesse assim por muito tempo... Pobre Alexander, no fim das contas ele não era mais culpado que Makiko ou Alexei, era apenas uma peça...

Como ela.

Como Tomas.

- Ele ainda podia esta aqui se não fosse por você sabia... – uma voz familiar ecoou ao seu lado.

Ela enrijeceu, adotando como se por instinto uma postura defensiva. Não estava errada, antes que pudesse reagir sentiu o golpe de um objeto maciço contra seu rosto. Deborah rolou caindo da cama, ainda meio sonolenta e surpresa, não conseguiu reagir antes do golpe seguinte, que dessa vez acertara suas costelas. Conteve um grito mordendo a língua. Tinha conhecimento o suficiente de medicina para saber que quebrara pelo menos uma costela.

Sentiu seus braços serem forçados para trás e uma picada de agulha no pescoço. O corpo todo amoleceu, mas a dor ainda persistia, a consciência permanecia. Só queriam incapacita-la. Deixa-la indefesa. Atacar quando estava ferida. Chutar o inimigo caído, exatamente como covardes faziam. Exatamente como ela sempre soube que fariam.

- Não esta mais orgulhosa agora, não Deborah? Eu me pergunto se o Jonahthan te acharia tão bonita agora? – ela sentiu um chute em direção ao rosto, o gosto de sangue inundou a boca fazendo-a cuspir alguns dentes  - Será que ele ainda iria querer beijar uma boca desdentada? – prosseguiu a voz feminina familiar em zombaria – Mesmo seu precioso Tomas ficaria enojado em vê-la agora.

‘Não, não ficaria’ – seu cérebro respondeu – ‘Tomas ficaria enojado sim, mas não com ela... Nunca com ela...’

- Eu te avisei Deborah, todos caem um dia, mesmo os mais poderosos e orgulhosos – disse uma segunda voz, dessa vez masculina – Não devia ter escolhido o Senhor Perfeição. Devia ter me considerado....  – ele puxou seus cabelos fazendo com que encarasse, o perfume barato fazia apenas com que ela tivesse vontade de vomitar – Eu te amei de verdade sabia... Agora posso ter o que quero de qualquer jeito. E você não poderá fazer nada para impedir....

- Você devia ter aceitado a chance que Paradoxo ofereceu, a chance que Morgaine ofereceu, a chance que eu ofereci – disse uma terceira voz – Se tivesse me ouvido, meu irmão estaria vivo. – Nathan cuspiu em seu rosto – Agora deve aceitar as consequências de seus atos...

Ele estendeu a mão para a garota que o acompanhou com um sorriso no rosto, lhe dirigindo um ultimo olhar de desprezo. Ainda sem poder se mover, ela foi deixada na companhia daquele ser asqueroso, sabendo perfeitamente o que estava para acontecer.

- A droga em seu sistema vai lhe deixar assim por algumas horas – explicou ele lambendo os lábios – Mas você ainda será capaz de sentir prazer... Ou dor... Depende do seu nível de colaboração, se for uma boa menina eu posso deixar você se divertir...

Ela cuspiu no rosto dele.

- Ou não. – acrescentou limpando  a bochecha e lhe desferindo um tapa – Pode gritar o quanto quiser, Debby, estamos no subsolo de Kronos Academy, ninguém poderá lhe ouvir, como sua amiga Diana poderia lhe confirmar.


Deborah raramente chorava. Exceto quando se tratava de Tomas. Toda vez que a saudade apertava ela se isolava em seu quarto e ali permanecia ate ser capaz de colocar a mascara de novo. Tomas era digno de suas lagrimas, ele merecia seu luto. Agora era diferente, pela primeira vez em milênios de vida Deborah Paradise chorou por si mesma, chorou pela frustração de ser incapaz de se defender, chorou pela humilhação e pela derrota. Chorou de ódio. Chorou jurando vingança.