Kronos Academy - Paradoxo II - Deborah II
Paradoxo II
Paradoxo sorria. Era algo raro e estranho, quando
isso acontecia seus músculos faciais doíam ligeiramente pela falta de uso. Mas
dessa vez havia um motivo para sorrir. Seu plano funcionara, funcionara por
completo. Todos agiram exatamente como o esperado, inclusive as três demonias,
inclusive Deborah.
Observava o pátio, o local onde os
acontecimentos se deram mais cedo. O sangue da ex-professora ainda manchava a
grama. Faltava pouco... Faltava tão pouco... A única coisa que poderia
impedi-lo seriam os novatos, se conseguissem controlar suas habilidades e
tivessem conhecimento do que realmente acontecera. Deborah poderia ter atrapalhado, poderia colocar as crianças na
direção certa... Mas agora estava impossibilitada.
Uma risadinha escapou de seus lábios, de
fato quanto maior a subida maior a queda. Quem diria que um dia a orgulhosa
Deborah se veria humilhada, abaixo de qualquer criatura de Kronos Academy,
rebaixada por aquelas em quem confiara. Agora ela não teria nenhuma outra
escolha, além de ceder...
Seus dedos brincaram com a Engrenagem Chave
que um dia pertencera ao relógio de Tomas. Se apenas aquilo não fosse incentivo
o suficiente para que ela viesse para o seu lado, a quebra de sua confiança
pelas Moiras seria. Todas as peças estavam em seus devidos lugares.
A criança de Wolfgang estava morta, era
algo que mesmo as demonias concordariam que precisava acontecer. Se nascesse
isso poderia ter significado problemas para todos. Seus planos seriam
antecipados, e o futuro se tornaria ainda mais incerto.
Sua memoria retornou ao jovem responsável
por esse assunto. Seu nome era Billy, um sub monitor esquecido por tudo e
todos. Ele próprio já possuía uma natureza violenta e irascível, não foi
necessário muito para convence-lo a fazer esse trabalhinho sujo.
É claro que ela o matou, exatamente como o
esperado, exatamente como previra. Sacrificara um peão, uma peça insignificante
do tabuleiro, em contrapartida derrubara a rainha adversaria, e o rei estava
praticamente indefeso. Paradoxo a conhecia bem, ela não apenas o mataria, o
torturaria, apagaria sua existência, sem se importar em sequer esconder. E é
claro que as três demonias veriam isso como um desafio, como uma afronta
direta... Afinal Deborah era a viajante mais poderosa e a que mais tinha
motivos para odia-las. E há muito as Moiras começavam a desconfiar de sua Viajante
numero 1.
Um tempinho como prisioneira ensinaria
alguma humildade a Deborah, depois que ela sofresse um pouco ele viria como um
salvador, oferecendo não apenas liberdade, mas a vida de Tomas. A risada
escapou de seus lábios e ecoou pelo templo de Nemesis. Ele encarou a estatua da
deusa com um sorriso. Sempre se sentia tão bem ali...
*
Ela estava em uma cama desconfortável,
fria, dura, nada parecido com as plumas com as quais tinha se acostumado. Mas
isso não era nada. Nada se comparava a dor da traição, traída pelas malditas as
quais sempre tinha sido fiel. Nada se comparava a dor do fracasso, a de ser
incapaz de cumprir um juramento. Nada se comparava com a dor que convivia a
cada dia, com o luto que estava sempre consigo.
Mas ainda assim... Era um golpe cruel
contra seu orgulho, um golpe contra sua armadura, contra sua fortaleza. Mas se
eles pensavam que assim poderiam quebra-la... Ela riu sem um pingo de alegria.
Levantou o braço observando os cortes ainda abertos, como prisioneira não tinha
direito a nenhum medicamento, teria que suportar a dor da infecção para depois
vir a cicatrização... E ainda assim nunca por completo. Tais feridas sempre se
abririam sempre que as Moiras quisessem, ou que Alexander estivesse entediado.
Sua mente foi para o jovem que agora se
considerava seu superior. Ela sentia tanta pena dele.... Deborah já vira o
rapaz em outras épocas, em épocas em que ele tinha mais humanidade. Quando
ainda era criança. Quando ainda tinha inocência. Mas seu karma nunca permitiria
que ele permanecesse assim por muito tempo... Pobre Alexander, no fim das
contas ele não era mais culpado que Makiko ou Alexei, era apenas uma peça...
Como ela.
Como Tomas.
- Ele ainda podia esta aqui se não fosse
por você sabia... – uma voz familiar ecoou ao seu lado.
Ela enrijeceu, adotando como se por instinto
uma postura defensiva. Não estava errada, antes que pudesse reagir sentiu o
golpe de um objeto maciço contra seu rosto. Deborah rolou caindo da cama, ainda
meio sonolenta e surpresa, não conseguiu reagir antes do golpe seguinte, que
dessa vez acertara suas costelas. Conteve um grito mordendo a língua. Tinha
conhecimento o suficiente de medicina para saber que quebrara pelo menos uma
costela.
Sentiu seus braços serem forçados para trás
e uma picada de agulha no pescoço. O corpo todo amoleceu, mas a dor ainda
persistia, a consciência permanecia. Só queriam incapacita-la. Deixa-la
indefesa. Atacar quando estava ferida. Chutar o inimigo caído, exatamente como
covardes faziam. Exatamente como ela sempre soube que fariam.
- Não esta mais orgulhosa agora, não
Deborah? Eu me pergunto se o Jonahthan te acharia tão bonita agora? – ela
sentiu um chute em direção ao rosto, o gosto de sangue inundou a boca fazendo-a
cuspir alguns dentes - Será que ele
ainda iria querer beijar uma boca desdentada? – prosseguiu a voz feminina
familiar em zombaria – Mesmo seu precioso Tomas ficaria enojado em vê-la agora.
‘Não, não ficaria’ – seu cérebro respondeu
– ‘Tomas ficaria enojado sim, mas não com ela... Nunca com ela...’
- Eu te avisei Deborah, todos caem um dia,
mesmo os mais poderosos e orgulhosos – disse uma segunda voz, dessa vez
masculina – Não devia ter escolhido o Senhor Perfeição. Devia ter me
considerado.... – ele puxou seus cabelos
fazendo com que encarasse, o perfume barato fazia apenas com que ela tivesse
vontade de vomitar – Eu te amei de verdade sabia... Agora posso ter o que quero
de qualquer jeito. E você não poderá fazer nada para impedir....
- Você devia ter aceitado a chance que
Paradoxo ofereceu, a chance que Morgaine ofereceu, a chance que eu ofereci –
disse uma terceira voz – Se tivesse me ouvido, meu irmão estaria vivo. – Nathan
cuspiu em seu rosto – Agora deve aceitar as consequências de seus atos...
Ele estendeu a mão para a garota que o
acompanhou com um sorriso no rosto, lhe dirigindo um ultimo olhar de desprezo.
Ainda sem poder se mover, ela foi deixada na companhia daquele ser asqueroso,
sabendo perfeitamente o que estava para acontecer.
- A droga em seu sistema vai lhe deixar
assim por algumas horas – explicou ele lambendo os lábios – Mas você ainda será
capaz de sentir prazer... Ou dor... Depende do seu nível de colaboração, se for
uma boa menina eu posso deixar você se divertir...
Ela cuspiu no rosto dele.
- Ou não. – acrescentou limpando a bochecha e lhe desferindo um tapa – Pode
gritar o quanto quiser, Debby, estamos no subsolo de Kronos Academy, ninguém
poderá lhe ouvir, como sua amiga Diana poderia lhe confirmar.
Deborah raramente chorava. Exceto quando se
tratava de Tomas. Toda vez que a saudade apertava ela se isolava em seu quarto
e ali permanecia ate ser capaz de colocar a mascara de novo. Tomas era digno de
suas lagrimas, ele merecia seu luto. Agora era diferente, pela primeira vez em
milênios de vida Deborah Paradise chorou por si mesma, chorou pela frustração
de ser incapaz de se defender, chorou pela humilhação e pela derrota. Chorou de
ódio. Chorou jurando vingança.







