Quando que tinha apenas meus saudosos 15
anos de mocidade, eu era o membro mais velho da minha família, contudo o mais
fraco também. Isso meio que não me importava, pois eu era feliz. Apesar de ser
o mais fraco, eu estava sendo treinado diariamente para assumir meu posto como
futuro governante e patriarca da Família Masashi. Somos realmente pessoas bem
distintas, com traços ainda mais distintos, mas eu acho que eu sou o que parece
mais normal da minha família toda. Mas depois eu comento isso, por agora você
deve estar interessado no Baile dos Cinco.
Pois bem. O Baile dos cinco é uma ocasião
muito divertida que acontece uma vez por ano, e é responsabilidade das cinco
Dinastias realizar esse evento tão valoroso para a população. Veja bem, nosso
mundo é sustentado por cinco pilares, que consistem em cinco objetos que
acumularam e concentraram efeitos mágicos ao longo das eras, em que o criador
Periculum se afastou de nós. Nós, Masashi, a família dos Dai Maou somos
responsáveis por um desses pilares, e as outras dinastias são responsáveis por
outros pilares com outros conceitos.
Enfim, voltando ao que importa, hoje à
noite será o Baile dos cinco, e eu e meus irmãos estaremos prontos para festejar
como a vida é boa e como a união e amizade das famílias tem perdurado e há de
perdurar ainda mais. Eu estava no meu quarto junto dos meus irmãos Aylan e
Harum, vestindo meu terno enquanto Aylan invocava seus serviçais zumbis para
vesti-lo e Harum tentava se amarrotar dentro de um terno que apesar de bom no
comprimento, ficou exageradamente grande na largura. Sério, meu irmão deve ter
uns dois metros, e pesa no máximo 50 kg.
– Acho que esse terno vai precisar de
ajustes de última hora. Aylan, pode pedir a algum zumbi dar uns pontos pro
Harum? – perguntei eu. Como sempre, ser o cara fraco que não tem poderes sempre
tinha a vantagem de que eu terminava de me vestir primeiro.
– Tá bom, mas eu não sei se terá quem alcance
os ombros dele – disse o pequeno. Aylan tinha a aparência de uma criança de dez
anos de idade, e parecia que ele não cresceria mais que isso.
Alguns zumbis foram invocados e ajudaram
Harum a adequar o traje ao seu corpo esquelético. Terminamos de nos vestir,
fomos para o quarto das meninas e as encontramos fabulosas em suas vestimentas.
Chiru, Dusk e Dawn pareciam que estavam prontas para se encontrar com alguém da
realeza de tão belas que se aparentavam. Cheguei no quarto e as convoquei para
irmos logo para a Catedral do Baile.
Ao chegarmos no imenso hexágono de cristal
leitoso, com teto unido em uma ponta central, entramos para o ambiente mais
luxuoso que veríamos no decorrer do ano: paredes de cristal branco leitoso com
janelas escavadas cobertas de metal brilhante trabalhado em arabescos. O chão
era um mosaico de vários tons de mármore e granito. Do centro do teto, pendiam
tecidos que tinham as cores e as insígnias das Dinastias, cinco ao todo. Havia
uma fonte feita de taças cristalinas de onde jorrava um líquido espumante que
mudava de cor ao ser tocado por mãos humanas, ao fundo tinha uma mesa enorme,
com diversos pratos que não paravam de se reencher sempre que esvaziavam, e
lado esquerdo, tinha um palanque que servia de palco para apresentações
musicais e o centro era uma perfeita pista de dança para quem tinha coordenação
motora para isso.
– Nossa, o baile está mesmo mágico esta
noite. Eu adorei tudo o que fizeram aqui. – Chiru mostrava seu encanto no tom
de voz, e seus olhos brilhavam refletindo o brilho do lugar.
– É, tá tudo muito lindo, mas eu quero
comida, e agora eu vou pra mesa do buffet. Se precisarem de mim, estarei
percorrendo as delícias culinárias do local. – Harum devia ser magro de ruim,
pois comer mais do que ele era impossível.
– Não vá comer demais! – eu tinha certeza
que ele não me daria ouvidos.
Entramos no recinto, Dusk com cara de
tédio, Dawn com cara de brava e eu com meu sorriso tímido, mas Chiru já estava
linda no meio do baila, e tinha encontrado seu melhor amigo de infância: Klaus
Brahmani, um garoto de outra dinastia. Ambos já estavam dançando lindamente ao
som da música agitada. Eu vi Dusk se afastar para cumprimentar velhos amigos de
família, os Morgan Blake. Charlie e Alice estava esperando o primeiro bebê,
então eu deveria ter ido cumprimenta-los também, mas preferi ficar no meu canto
antes de acontecer alguma coisa.
Dawn repentinamente se juntou ao Harum na
mesa de comes e bebes, enquanto um menino extremamente pálido da idade da Dawn
a puxou para dançar. Seus cabelos brancos e olhos vermelhos como sangue não
mentiam: ela estava dançando com Eli Einslaw. Só vi Dawn se movimentar
sorrateiramente até um grupinho de garotas que devia estar amaldiçoando
ardentemente minha irmãzinha e sussurrar alguma coisa que fez todas se
apavorarem.
– Boa noite, Zien. Tudo bem com você? –
perguntou-me um garoto gordinho, que eu reconheci como amigo da Dawn: Solem Arleckrew.
– Você viu a Dawn por ai? Ela disse que dançaria uma música comigo.
Coitado do garoto. Minha irmãzinha cabeça
quente dançando uma música lenta? Acho que não. Mas decidi não falar nada. Fui
apontar para onde ela estava, mas a mesma tinha sumido. Tentei olhar pelo
salão, mas só a achei alguns momentos depois voltando da varanda. Achei um
pouco estranho ela estar com a cara vermelha, mas tudo bem. Nada demais.
Indiquei a direção dela e fui na fonte de bebidas tentar achar algo para me dar
coragem. Pelo canto dos olhos, vi um casal muito animadinho sair da varanda
depois de um tempo. Chiru e Klaus. Decidi ignorar isso, afinal não é da minha
conta.
Depois de um tempo, só vi a convocação de
todos os futuros regentes para o Palanque. Comecei a tremer de ansiedade. Podem
dizer o que quiserem, mas eu estava apavorado. Sou tímido mesmo, mas subi no
palanque com todo o suor do mundo, mesmo naquele clima fresco. Assumi meu
posto, e esperei Klaus Brahmani, Solem Arleckrew, Eli Einslaw e Ludmila
Roukusou. Quando nos juntamos, pudemos enfim começar o discurso de união das
dinastias, completávamos as frases um do outro no improviso para provarmos
nossa união e confiança no próximo.
Mas foi ai que alguma coisa deu
terrivelmente errado. Eu não conseguia soltar meu pilar ou mover minhas mãos, e
isso estava me deixando completamente inquieto. Algo estava realmente errado, e
isso se tornou mais evidente quando uma espécie de eletricidade negra começou a
sair do pilar de Klaus, infectando todos os outros pilares. Logo nenhum de nós
conseguia soltar seu pilar, nem conseguia se mover. Meu desespero foi tamanho
que só me lembro de alguma coisa brilhante saindo de minhas mãos enquanto eu gritava
alguma besteira qualquer.
Logo, uma força invisível me atirou contra
a parede e isso doeu como nunca. Acho que doeu em todos os outros também, pois
todos foram atirados por alguma coisa também. Só conseguia me lembrar de os
pilares se juntando no tento e girando velozmente, abrindo um portal para algo
escuro e sombrio. Queria ter ficado acordado mais tempo, mas algo parecia ter
me paralisado e me forçava a dormir. Usei minha força de vontade para me manter
acordado, mas me arrependi disso imediatamente.
Um sentimento horrível se instalou no meu
peito, como se eu pudesse sentir algo literalmente perfurando meu corpo até se
instalar. Quando olhei para o buraco novamente, estava saindo algo de lá de
dentro, como uma fumaça negra, mas que emanava algo muito maligno. Só me senti
desfalecer por alguns momentos, e em meus momentos out, fui visitado por algo que parecia uma sombra de um rosto,
feita de fumaça negra, mas deformada para parecer algo tão assustador e brutal
que fez meu coração parar por alguns segundos.
– Então, Zien Masashi. Você ainda tem a vã
esperança que esse mundo pode ser salvo. Você testemunhou nosso poder. Nós
abrimos um portal para o seu mundo através dos pilares que vocês tanto julgam
intocáveis. Se podemos fazer até isso, o que acha que nos impede de matarmos
todos aqui presentes e assumirmos Ahtrim Ayon? – sussurrou aquela coisa para
mim.
– V-vocês só tiveram sorte. Não existe
ninguém que consiga tocar naquela magia sem carregar o sangue da dinastia.
Vocês não tem nem como pegar nos pilares, sem nossa ajuda. – eu estava tremendo
tanto, estava tão assustado que nem conseguia manter um tom de voz decente.
A coisa riu, e continuou a debochar de
mim, demonstrando seu poder abissal. Mas era algo que ia além dos abismos mais
profundos que eu já considerava. Era algo realmente maligno, sem nem mesmo uma
luz interior, e algo assim só podia vir dos Tenebrae. Uma raça tão antiga
quanto a criação dos planos. Ninguém jamais teve poder suficiente para destruir
uma civilização inteira, e o único que conseguiu peitar aquelas coisas se foi a
muito tempo.
– Vocês não vencerão. Ainda existem
pessoas que podem por vocês no cercadinho e fazê-los implorar pela mamãe. E eu
vou pessoalmente atrás deles. Vocês verão. Vocês serão exterminados para
sempre. – dessa vez, eu fui bravo. Eu consegui me manter firmo o suficiente
para fazer aquele Tenebrae vacilar. Esse foi o timing perfeito para jogar uma esfera de plasma do meu
recém-descoberto poder nele e quebrar aquele controle mental.
Quando voltei a mim, eu sabia o que fazer,
mas precisaria de algum planinauta para me ajudar. Charlie estava perto de mim,
e eu vi, várias formas fumacentas tentando matar as pessoas. Todos ali tinha,
dificuldade de lutar contra aquelas coisas ancestrais. Eu me levantei, enquanto
Dusk e Dawn tentavam inutilmente me proteger, mas algo revirou meu estômago
como se dissesse que era melhor eu desistir. Ignorei isso e caminhei até os
pilares.
Charlie veio atrás de mim, numa tentativa
de me proteger, mas ao me olhar nos olhos, ele soube que eu estava certo e que
aquilo precisava ser feito. Ele se transformou em sua forma luminosa e passou a
rodear o Tenebrae mestre com uma rapidez assustadora, enquanto eu me
concentrava com os pilares e condensava meu poder através deles, até a dor se
tornar insuportável no meu corpo. Tudo aquilo recém descoberto era muito imprevisível
e eu não sabia como lidar.
Quando finalmente terminei de concentrar
tudo o que tinha, vi Charlie preso por garras de fumaça presas nele enquanto o
ser soltava uma baforada de sombras em seu rosto, e eu soube que era a hora
certa. Charlie deve ter entendido, pois quando eu liberei meu poder, conduzi através
do corpo do Charlie e ele quebrou a dimensão ao meu redor, levando tudo com ele
de volta para a dimensão dos Tenebrae. Mas esvaziar meu poder teve uma consequência:
minha alma ficou presa entre a dimensão dos Tenebrae e a minha dimensão, e só
tive tempo de pedir desculpas antes de afundar no leito do esquecimento.

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