Algumas amizades
duram para sempre e outras vão embora no piscar de um olho, ou no
acender de uma lâmpada. Porém, existem também aquelas amizades que
você sabe que vão durar pela vida inteira, mesmo que você seja
morto, suba mais que os outros ou se afaste completamente deles. As
vezes simplesmente não importa o que você faça, eles estarão lá
por você, de braços abertos, cheios de amor e compreensão. É mais
ou menos assim que é minha amizade com Lucian Folks e Peter Hollow.
Meu nome é Ryan
Vicenzo, e conheci esses dois no dia que entrei para o Instituto
de Pesquisa Científica Especial e Desenvolvimento Aplicado, um nome
chique para Escola de Tecnomagos. Eu
estava chegando em meu quarto, que dividiria com mais três pessoas.
Na verdade, eu tinha passado para a Elite dos Quatro, que eram as
quatro melhores notas durante o exame de admissão, e os detentores
dessas notas morariam juntos para crescerem e se desenvolverem
igualmente e em equipe.
Eu
estava nervoso, é claro. Nunca antes tinha tido companheiros de
quarto, ou sequer amigos. Porém, ao chegar na porta do aposento, a
ficha caiu e decidi que deveria fazer agora o que nunca mais faria na
vida: tentar me enturmar. Respirei fundo e abri a porta apenas para
dar de cara com uma confusão gigantesca lá dentro. Aparentemente
dois meninos gritavam um com o outro por algo quebrado
no chão. Com
uma olhada rápida, consegui discernir alguns microchips, metal
retorcido, um pouco de resina e fluidos energéticos complexos, além
de uma pequena base de circuitos.
—
Ei, vocês estavam construindo um minibot? — disse eu, bem
empolgado por conhecer pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu.
— Na
verdade, eu construí o minibot, e esse energúmeno débil mental
acéfalo quebrou ele metendo o pé! —
disse o menino com cabelos bem aparados e olhos acinzentados.
—
Você deixa suas coisas pelo chão e espera que os outros andem
olhando pra baixo pra não pisar em nada seu? Sinto muito, mas você
devia ser mais organizado e ter mais cuidado com seus brinquedos. —
respondeu o outro de olhos incrivelmente azuis e cabelos longos
bagunçados. —
A propósito, meu nome é Peter Hollow, e o estressadinho ali
juntando os cacos de robô é o Lucian Folks.
Me
permiti saborear o momento. Duas pessoas que certamente gostavam de
robótica, física, matemática, química, bioquímica e tudo o mais
que uma criança poderia querer. Mesmo quando eu e a Demétria
saíamos juntos, ela sempre precisava ir embora repentinamente, e
agora, eu tinha uma companhia estável. Qualquer criança com treze
anos gostaria disso. Entrei no quarto e admirei o ambiente
sobriamente decorado: a sala de estudos e o laboratório ocupando
todo o andar inferior, e as escadas para as quatro suítes no andar
superior. Eu estava no paraíso.
—
Muito prazer. Meu nome é Ryan Vicenzo, e espero que possamos ter uma
boa convivência durante os próximos anos.
—
Cuidado com o que deseja, que você pode conseguir. — uma voz
altamente irônica falou isso atrás de mim. Virei-me e encarei o
nosso último colega de quarto — Pelo visto vocês já se
conheceram e se apresentaram. Bem, a título de educação: meu nome
é Devon Ackles, satisfação em conhecer.
A
figura atrás de mim estava vestindo um impecável terno branco, com
cabelos e olhos bem vermelhos. Parecia ser mais novo do que eu e os
outros, mas não deixei isso ser meu julgamento. Ele entrou no
recinto carregando uma valise e arrastando uma mala que facilmente
dobrava a minha, e não esperou que falássemos nossos nomes. Apenas
subiu para os quartos e por lá ficou. Quem diria que até no paraíso
existem pessoas tensas.
—
Dizem que esse menino foi o quarto colocado, mesmo sendo mais jovem
do que nós. Acho que seria um erro subestimá-lo. — Lucian tinha
terminado de recolher os pedaços de robô e jogá-los em cima de sua
bancada. Com uma precisão metódica, ele começou a reparar o que
sobrou de seu invento e salvar pelo menos uma parte.
—
Bem, seja como for, seria interessante você largar isso e ir se
preparar para as aulas. Ouvi dizer que o professor Lawliet odeia quem
chega atrasado. O mini-curupira lá em cima também deve estar se
arrumando. Ryan, eu te mostro onde é o seu quarto para você
desfazer suas malas. — e pegando minha mão, Peter me puxou para
cima a fim de me mostrar o quarto.
Mal
tive tempo de arrumar minhas coisas e o sinal tocou convocando todos
nós para assistir as aulas do dia. A primeira aula era Criptografia
Avançada, com o professor Lawliet. Devo dizer que ter aulas com um
programa de computador era, no mínimo, inusitado. Mas um programa de
computador que tem emoções e consegue me fazer rir com piadas
virais é bem melhor. Porém, quando ele passou um trabalho para que
trios de alunos fizessem IA's vivos e humanizados, a coisa pegou, e
foi mais sério ainda quando ele decidiu os times.
—
As divisões foram feitas aleatoriamente pelo meu sistema central,
então não fiquem chateados se vocês acabarem ficando em equipes
com pessoas que não conhecem. — a voz robotizada de Lawliet vibrou
através dos computadores holográficos da sala, e enumerou os trios.
Qual não foi minha surpresa ao ficar com Peter e Lucian. Devon ficou
com uma garota chamada Helen Ciracces e um cara chamado Wendel Grey.
— Vocês tem uma semana para fazer o programa, escrever o book de
passos e realizar uma apresentação interativa com o programa.
O
resto do dia foi normal, com professores passando um amontoado cada
vez maior de deveres de casa e trabalhos. As poucas aulas que eu não
tinha com Lucian, Peter e Devon foram as aulas extras, que não
tinham dever de casa, o que era um alívio. Quando cheguei a noite,
Peter estava em sua mesa, comendo de uma caixinha de comida temática,
Lucian estava trabalhando em algum tipo de design e Devon estava
ausente.
—
Trabalhando no design do nosso programa de IA?
—
Sim. Tô tentando definir uma cara para o nosso projeto, mas nada
parece muito agradável esteticamente, e também mandei o Sr.
Desgrenhado ficar longe do desenho, pra ver se não me atrapalha nem
suja o projeto.
—
Quando precisar de ajuda, estarei terminando o frango xadrez e o
arroz primavera. Juro que serei paciente com seus chiliques. —
Peter e Lucian realmente se odiavam. Acho que cabia a mim ser o ponto
de equilíbrio.
—
OK. Bem, Peter, pare de comer isso aí e venha nos ajudar. Se você
sabe escrever, vamos precisar de um roteiro para a criação do
projeto. Lucian, não vamos desenvolver o design agora, precisamos
primeiro desenvolver os algoritmos de personificação, e é nisso
que você vai trabalhar. Eu vou começar a planejar coisas como a
nossa apresentação, o que nos propomos a fazer e as funcionalidades
do programa. Se estipularmos pelo menos três horas nesse processo,
poderemos ver qual é mais fácil e mais difícil e assim nos
dedicarmos juntos ao mais difícil e deixar o mais fácil pro final.
E
assim passamos a maioria dos dias da semana seguinte: organizando
teoremas, criando designes, integrando a matriz da IA e incorporando
a psique humana dentro da criação, com idade mental e
personalidade, coisas básicas. Mal tínhamos tempo para ver Devon
durante esse tempo, mas ele parecia levar bem mais calmamente seu
projeto. Supús que seus parceiros não brigaram pela cor dos cílios
nem discutiram o sexo dos anjos, obrigando o projeto a ter a
aparência e nome andróginos. Finalmente, depois da penosa semana de
trabalho, o projeto Darcy estava concluído, e sim, tive o cuidado de
escolher um nome andrógeno para evitar mais brigas.
—
Cara, nem acredito que finalmente concluímos essa porra! Fui
obrigado a sobreviver de café e energético durante as últimas
noites, mas valeu a pena. A Darcy ficou foda. — entre um bocejo e
outro, Peter falava o que podia.
—
Nem me fale. Nunca tive tanto trabalho quanto dessa vez. Já tinha
criado IA's antes, mas basear todo o sistema operacional na psique
humana e incorporar emoções dentro da cadeia de resposta
inteligente foi completamente impossível. Mas o Darcy agora deve ser
o melhor projeto que existe nessa escola. — e Lucian retrucava como
nunca.
Tentei
me manter neutro o máximo que podia, evitando até de sexualizar
Darcy, referindo-me apenas como “a criatura”. Continuei segurando
firmemente o pen drive que a criatura estava guardada e rezei para
que eles não começassem a discutir no meio da apresentação.
Chegamos a aula do professor Lawliet e vimos que todos já tinham
formados seus grupos e estavam lutando contra o tempo para fazer os
acabamentos nos seus devidos programas. Devon estava sentado
displicentemente com seus amigos, conversando e discutindo sobre a
vida, e muito me admirava que eles não estivessem surtando por causa
do programa.
—
Sejam bem-vindos, alunos! Vamos iniciar a aula de hoje com as
apresentações práticas do projeto de cada grupo. A ordem foi
sorteada aleatoriamente pelo meu sistema central. Boa sorte! —
Prof. Lawliet entrando e saindo com efeitos visuais exagerados para
alguém como ele. Deu a entender que ele esperava no mínimo um
desastre.
E
não deu outra. Minha equipe ficou em penúltimo e em último, Devon
e seus amigos. Pelo risinho que Devon fez, parece que ele já
esperava algo do tipo, mas pelo visto só eu notei isso na sala
inteira. E durante um tempo, tudo transcorreu perfeitamente normal,
com algumas coisas dando birolha na hora mais tensa possível e
algumas equipes saírem chorando pelo proejto ter falhado. Darcy foi
a melhor de todas as apresentações, sem erros, falhas ou coisa que
o valha. Mas tudo mudou na apresentação do Devon.
—
Bom dia, meus colegas de classe. Venho aqui apresentar nosso projeto
de IA, e eu a intitulo de Shadow. — eis que surge uma figura alta e
encapuzada, que só existe no manto. Aquilo de certa forma me
arrepiou muito. — Vocês perceberão que Shadow tem várias
utilidades, uma vez que ela é uma IA viral, e pode corromper dados,
compilar informações, controlar dispositivos remotamente e destruir
dispositivos através de curto-circuitos. Em resumo, é uma IA para
guerras. Vejam uma demonstração gratuita do poderio da Shadow.
E
o Caos se formou, quando computadores explodiam, dispositivos móveis
entravam em colapso e coisas piores. Lawliet nenhuma vez interveio,
apenas observando através das câmeras da sala. Do nada, eu me vi
pensando que seria maravilhoso a Demétria aparecer ali e dizer o que
eu devia fazer, mas é claro que ela não veio. Peter foi o primeiro
a agir, bloqueando o sinal do seu celular, e transferindo Darcy para
lá. Lucian arrancou o telefone e começou a mexer, como se estivesse
mudando a configuração e os protótipos para uma pessoa de batalha.
Cabia a mim pegar uma fonte de poder, e eu sabia como. Peguei o
celular das mãos de Lucian e conectei diretamente à CPU do Lawliet,
e qual não foi a minha surpresa ao ver que Darcy saltou para a
realidade como um ser feito puramente de dados.
—
OK, turma. Aulas canceladas. Aguardem as notas serem lançadas no
sistema. Isso é tudo por hoje. — e assim, tudo se desfez. Prof.
Lawliet tinha desfeito tudo apenas falando. Quase fiquei com raiva
por ele ter deixado rolar o paranauê todo. Fui embora pisando duro,
com Lucian e Peter me seguindo. Só tive tempo de lançar um olhar de
raiva para a dupla do Lawliet e do Devon que ficaram para conversar a
sós na sala.
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