quinta-feira, 30 de julho de 2015

Kronos Academy - Paradoxo II - Deborah II

Paradoxo II

Paradoxo sorria. Era algo raro e estranho, quando isso acontecia seus músculos faciais doíam ligeiramente pela falta de uso. Mas dessa vez havia um motivo para sorrir. Seu plano funcionara, funcionara por completo. Todos agiram exatamente como o esperado, inclusive as três demonias, inclusive Deborah.

Observava o pátio, o local onde os acontecimentos se deram mais cedo. O sangue da ex-professora ainda manchava a grama. Faltava pouco... Faltava tão pouco... A única coisa que poderia impedi-lo seriam os novatos, se conseguissem controlar suas habilidades e tivessem conhecimento do que realmente acontecera. Deborah poderia ter  atrapalhado, poderia colocar as crianças na direção certa... Mas agora estava impossibilitada.

Uma risadinha escapou de seus lábios, de fato quanto maior a subida maior a queda. Quem diria que um dia a orgulhosa Deborah se veria humilhada, abaixo de qualquer criatura de Kronos Academy, rebaixada por aquelas em quem confiara. Agora ela não teria nenhuma outra escolha, além de ceder...

Seus dedos brincaram com a Engrenagem Chave que um dia pertencera ao relógio de Tomas. Se apenas aquilo não fosse incentivo o suficiente para que ela viesse para o seu lado, a quebra de sua confiança pelas Moiras seria. Todas as peças estavam em seus devidos lugares.

A criança de Wolfgang estava morta, era algo que mesmo as demonias concordariam que precisava acontecer. Se nascesse isso poderia ter significado problemas para todos. Seus planos seriam antecipados, e o futuro se tornaria ainda mais incerto.

Sua memoria retornou ao jovem responsável por esse assunto. Seu nome era Billy, um sub monitor esquecido por tudo e todos. Ele próprio já possuía uma natureza violenta e irascível, não foi necessário muito para convence-lo a fazer esse trabalhinho sujo.

É claro que ela o matou, exatamente como o esperado, exatamente como previra. Sacrificara um peão, uma peça insignificante do tabuleiro, em contrapartida derrubara a rainha adversaria, e o rei estava praticamente indefeso. Paradoxo a conhecia bem, ela não apenas o mataria, o torturaria, apagaria sua existência, sem se importar em sequer esconder. E é claro que as três demonias veriam isso como um desafio, como uma afronta direta... Afinal Deborah era a viajante mais poderosa e a que mais tinha motivos para odia-las. E há muito as Moiras começavam a desconfiar de sua Viajante numero 1.

Um tempinho como prisioneira ensinaria alguma humildade a Deborah, depois que ela sofresse um pouco ele viria como um salvador, oferecendo não apenas liberdade, mas a vida de Tomas. A risada escapou de seus lábios e ecoou pelo templo de Nemesis. Ele encarou a estatua da deusa com um sorriso. Sempre se sentia tão bem ali...



*
Ela estava em uma cama desconfortável, fria, dura, nada parecido com as plumas com as quais tinha se acostumado. Mas isso não era nada. Nada se comparava a dor da traição, traída pelas malditas as quais sempre tinha sido fiel. Nada se comparava a dor do fracasso, a de ser incapaz de cumprir um juramento. Nada se comparava com a dor que convivia a cada dia, com o luto que estava sempre consigo.

Mas ainda assim... Era um golpe cruel contra seu orgulho, um golpe contra sua armadura, contra sua fortaleza. Mas se eles pensavam que assim poderiam quebra-la... Ela riu sem um pingo de alegria. Levantou o braço observando os cortes ainda abertos, como prisioneira não tinha direito a nenhum medicamento, teria que suportar a dor da infecção para depois vir a cicatrização... E ainda assim nunca por completo. Tais feridas sempre se abririam sempre que as Moiras quisessem, ou que Alexander estivesse entediado.

Sua mente foi para o jovem que agora se considerava seu superior. Ela sentia tanta pena dele.... Deborah já vira o rapaz em outras épocas, em épocas em que ele tinha mais humanidade. Quando ainda era criança. Quando ainda tinha inocência. Mas seu karma nunca permitiria que ele permanecesse assim por muito tempo... Pobre Alexander, no fim das contas ele não era mais culpado que Makiko ou Alexei, era apenas uma peça...

Como ela.

Como Tomas.

- Ele ainda podia esta aqui se não fosse por você sabia... – uma voz familiar ecoou ao seu lado.

Ela enrijeceu, adotando como se por instinto uma postura defensiva. Não estava errada, antes que pudesse reagir sentiu o golpe de um objeto maciço contra seu rosto. Deborah rolou caindo da cama, ainda meio sonolenta e surpresa, não conseguiu reagir antes do golpe seguinte, que dessa vez acertara suas costelas. Conteve um grito mordendo a língua. Tinha conhecimento o suficiente de medicina para saber que quebrara pelo menos uma costela.

Sentiu seus braços serem forçados para trás e uma picada de agulha no pescoço. O corpo todo amoleceu, mas a dor ainda persistia, a consciência permanecia. Só queriam incapacita-la. Deixa-la indefesa. Atacar quando estava ferida. Chutar o inimigo caído, exatamente como covardes faziam. Exatamente como ela sempre soube que fariam.

- Não esta mais orgulhosa agora, não Deborah? Eu me pergunto se o Jonahthan te acharia tão bonita agora? – ela sentiu um chute em direção ao rosto, o gosto de sangue inundou a boca fazendo-a cuspir alguns dentes  - Será que ele ainda iria querer beijar uma boca desdentada? – prosseguiu a voz feminina familiar em zombaria – Mesmo seu precioso Tomas ficaria enojado em vê-la agora.

‘Não, não ficaria’ – seu cérebro respondeu – ‘Tomas ficaria enojado sim, mas não com ela... Nunca com ela...’

- Eu te avisei Deborah, todos caem um dia, mesmo os mais poderosos e orgulhosos – disse uma segunda voz, dessa vez masculina – Não devia ter escolhido o Senhor Perfeição. Devia ter me considerado....  – ele puxou seus cabelos fazendo com que encarasse, o perfume barato fazia apenas com que ela tivesse vontade de vomitar – Eu te amei de verdade sabia... Agora posso ter o que quero de qualquer jeito. E você não poderá fazer nada para impedir....

- Você devia ter aceitado a chance que Paradoxo ofereceu, a chance que Morgaine ofereceu, a chance que eu ofereci – disse uma terceira voz – Se tivesse me ouvido, meu irmão estaria vivo. – Nathan cuspiu em seu rosto – Agora deve aceitar as consequências de seus atos...

Ele estendeu a mão para a garota que o acompanhou com um sorriso no rosto, lhe dirigindo um ultimo olhar de desprezo. Ainda sem poder se mover, ela foi deixada na companhia daquele ser asqueroso, sabendo perfeitamente o que estava para acontecer.

- A droga em seu sistema vai lhe deixar assim por algumas horas – explicou ele lambendo os lábios – Mas você ainda será capaz de sentir prazer... Ou dor... Depende do seu nível de colaboração, se for uma boa menina eu posso deixar você se divertir...

Ela cuspiu no rosto dele.

- Ou não. – acrescentou limpando  a bochecha e lhe desferindo um tapa – Pode gritar o quanto quiser, Debby, estamos no subsolo de Kronos Academy, ninguém poderá lhe ouvir, como sua amiga Diana poderia lhe confirmar.


Deborah raramente chorava. Exceto quando se tratava de Tomas. Toda vez que a saudade apertava ela se isolava em seu quarto e ali permanecia ate ser capaz de colocar a mascara de novo. Tomas era digno de suas lagrimas, ele merecia seu luto. Agora era diferente, pela primeira vez em milênios de vida Deborah Paradise chorou por si mesma, chorou pela frustração de ser incapaz de se defender, chorou pela humilhação e pela derrota. Chorou de ódio. Chorou jurando vingança.

0 comentários:

Postar um comentário