Taylon brilhava. Não de
alegria, e muito menos de excitação. Ele brilhava de agonia e
ansiedade, com a luz saindo de seu corpo como pequenos lasers,
constratando fortemente com o homem alto e loiro deitado
relaxadamente no sofá do hospital. Ao longe, ouvia-se uma vez
feminina urrando alguns palavrões e maldições indizíveis,
enquanto algumas enfermeiras iam e vinham banhadas de sangue. A filha
de Charlie estava nascendo e ele estava preso na zona Tenebrae,
forçado a atender aos desejos da rainha. Ele só podia rezar para
que os companheiros do Clã Morgan fossem capazes de salvá-lo.
Axel, ao contrário, estava
relaxado e até tentava cochilar ao som do praguejo da Alice. Sabia
que a amiga estava encarando aquilo como uma batalha contra Sakura, e
ao mesmo tempo ria da tentativa vã das enfermeiras de manter a boca
da amiga limpa. Até que finalmente, com um urro que fez chover
algumas adagas pela cidade, o choro de uma criança se fez soar. E
continuou chorando por alguns momentos até que foi minguando até
tudo estar no maior silêncio possível. Axel abriu os olhos e a sua
frente, Alice estava em pé, pingando sangue, com as enfermeiras
tentando desesperadamente levá-la para a cama, com uma linda menina
de cabelos castanhos no colo.
— Você! Você vai ser o
padrinho dessa criatura, Axel Bishop, e eu arrebento a tua cara se
disser não. E quanto a você — disse a mulher virando para Taylon
e fazendo o mesmo se encolher — Ache meu marido, senão…
Taylon sumiu engolindo em seco.
Jamais imaginara uma mulher com a força daquela que seu amigo
escolhera. As coisas estavam tensas, mas tudo ia ficar bem. Ele tinha
certeza disso.
׆††×
— E foi assim que você
nasceu, Sophie. Fim da história. — disse Axel, degustando da
bebida amarga e preta, que os humanos chamavam café.
— Cara… Eu realmente não
queria ter escutado isso. Eu não precisava ter escutado isso! E não
foi o que eu te perguntei, cacete! — respondeu a menina
— Estressada igual a mãe. Foi
somente isso que a impediu de vencer a mim e a Sakura. Pouca
paciência. Senta o rabo na cadeira e toma essa “soda italiana de
abacaxi”, seja lá o que seja isso.
— Primeiro, eu chutei a bunda
de vocês dois na arena. E segundo, eu prefiro minhas bebidas gays à
café. O gosto é muito amargo.
— Sua mãe ficou extremamente
amargurada depois que você nasceu. Eu jurava que você chorava por
leite azedo — riu o mesmo, logo após o tapa da garota. —
Desculpe, não pude me conter. Eu também sinto falta daquela vadia.
Minha melhor amiga e minha única rival na cidade. Mas enfim, o que
você quer saber?
— Eu não sei por onde
começar… É só que… Muitos de vocês me tratam como se me
conhecessem a décadas e eu não lembro de nenhum de vocês. Eu
realmente não lembro de nada que aconteceu com a antiga Sophie.
Axel parou com a xícara a meio
caminho da boca e a olhou intrigado. O rosto duro e severo, porém
belo e atraente, os olhos amarelos brilhantes, como dois pequenos
sois a mostra, cintilando em vários tons, o cabelo castalho e os
traços levemente latinos. Ela realmente lembrava muito sua amiga,
mas em muito lembrava seu cunhado. Charlie. Ele podia ter esperado só
até a filha nascer pra se jogar dentro da zona Tenebrae, só o
bastante para explicar essas coisas a ela. Charlie era o planinauta,
não ele.
— A Sophie que eu conheci era
linda. Tinha um coração maravilhoso, sempre disposto a acolher
aqueles que confiava. Ela era capaz de levar uma lança pelo corpo,
só para parar o ataque do adversário em alguém que ela amava.
Completamente louca, na verdade. Simplesmente não conseguia se
manter fora de problemas ou evitar de comprar uma boa briga com
alguém. Mas ao mesmo tempo, era gentil, calma, estrategista e uma
líder para os que aqui ficavam. Eu a vi crescer de longe, sob os
cuidados dos Mazashi. Sempre deixava um ou dois presentes de
aniversário para ela. As vezes três pela falta que ela tinha da
família. Dedicada e poderosa, foi assim que ela cresceu, cercada
pelo amor das crianças Mazashi e pela compreensão de Lilian. Até
aquela noite.
Um leve tremor percorreu a mão
esquerda do loiro e um machado de guerra surgiu acima dela, e ali
permaneceu flutuando, até que o mesmo se tocasse e retornasse a
arma. Foi o toque da mão da afilhada que o despertou. Ao sentir os
dedos da mesma se envolverem e sua mão, ela parou de tremer, mas ele
ainda estava triste e desolado.
— Boa parte do que você falou
é familiar, mas eu realmente não tenho nenhuma lembrança
específica. — disse ela — Eu não sou tão foda ou tão forte
quanto a antiga Sophie. Sou alguém mais quieta. A única lembrança
que eu tenho dela é do sonho de quando eu acordei meus poderes.
— Entendo. Mas isso é comum,
afinal a Alice ficou perdida quando veio pra cá pela primeira vez.
Lembro até hoje que a coisa era magra feito uma titela, mas
conseguia puxar dezesseis espadas com um sorriso. Foi nesse dia que
começamos a treinar com a promessa de um dia sermos os Cavaleiros da
Távola. Com o treinamento, ela ia despertando as memórias, então
quem sabe aconteça a mesma coisa com você.
— Mas eu não entendo. Eu to
aqui a meses, já faz praticamente um ano. E a única memória vivida
que eu tenho é de quando a Sophie morreu. (Nota Mental: Isso é bem
estranho de se falar)
— A Sophie não morreu. Você
morreu. Comece a encarar que você é ela, ela é você, vocês são
uma, e as duas são unidas.
— Bem, eu sei que sou eu, mas
ao mesmo tempo não sou eu… Entende a situação que tá na minha
cabeça? — falou Sophie em uma breve confusão.
— Acho que foi a mesma
confusão quando um garoto de 11 anos entrou na minha casa em pleno
período de luto e velório e disse que precisava levar seu corpo
embora, porque estava contaminado com energia tenebrae e precisava
ser destruído.
— Deixa eu ver se eu entendi:
um garoto de 11 anos entrou na sua casa, pegou meu corpo e saiu com
ele porque precisava ser destruído por causa da contaminação
tenebrae? Deixa eu advinhar: cabelo castanho espetado e olhos
dourados? — o sarcasmo e a ironia estavam escorrendo das palavras
da menina.
Axel porém, olhou pra ela com
uma cara um tanto quanto peculiar. Ao mesmo tempo que parecia “você
tá doida”, também dizia “ela sabe de alguma coisa e não quer
falar”. Aproximando um pouco mais a cadeira da mesma e dando um
gole demorado em seu café, respondeu:
— Não. Cabelo longo escorrido
branco e olhos negros.
Sophie para e tem diversos
conceitos perpassando seu olhar. Algo estava errado ali e sua
intuição formigava como se a mesma estivesse sentada em um
formigueiro com brasas de churrasqueira. Fazendo um sinal de espera
na mão, a mesma começou a trabalhar em um holograma com suas
memórias, formando a imagem de Carlisle Morgan Blake, e mostrando-a
para Axel.
— Por acaso ele tinha um rosto
parecido com o desse guri? — perguntou a mesma com olhos
flamejantes.
— Admito que tem o rosto
parecido, mas o cabelo e os olhos ainda são diferentes. Quem é
esse? Tem os mesmos olhos e traços que você. São primos? — o
loiro tentava estudar melhor a imagem, realmente intrigado com o que
via.
— É né? Irilis tem
facilidade para mudar a cor dos olhos e cabelo se resolve com peruca.
Essa criatura é um terço Herdeiro da Babilônia, um terço Irilis e
um terço Tenebrae e é meu irmão mais novo. E eu não faço a
mínima ideia do que essa coisa quer da vida, porque uma hora ele me
salva e na outra ele me ferra, dá vontade de dar uns tapas nele pra
ver se escolhe um lado.
Os olhos de Axel mudaram. O
dourado claro deu lugar a um vermelho homicida e Sophie só teve
tempo de ver um círculo mágico cobrindo toda a cidade e mais alguns
quilômetros enquanto uma revoada de armas choviam na cidade
destruindo tudo o que viam pela frente. As pessoas encaram aquilo tão
naturalmente que apenas invocaram escudos como guarda-chuvas e
esperaram o fim do sereno. Alguns minutos depois, uma mulher esguia
de cabelos vermelhos e olhos dourados aparece e acalma o loiro com um
tapa no meio das fuças. Sakura apenas virou pra Sophie com cara de
“é sério? Te fode aí sozinha com ele agora”, e saiu com um
escudo na cabeça, recolhendo a maioria das armas que ainda estavam
caindo.
— Ahn, melhor você não
destruir a cidade no surto… — sussurrou a mesma, aproximando-se
lentamente e com escudo ativado.
Mais quinze minutos de
xingamentos, pragas e coisas inapropriadas para crianças e Axel caiu
chorando, de raiva, tristeza, rancor e sabe-se lá mais o que.
Nenhuma arma caiu nesse meio tempo, mas era o bastante pra saber que
o mesmo estava desolado. Como sua amiga Alice podia ter feito algo
assim, como? Porque ela tinha feito isso? Ele queria gritar,
espancá-la, matá-la, mas acima de tudo, queria abraçá-la. Axel
chorou, na frente de Sophie, sem medo das consequências ou de quem
pudesse ver.
— Pela sua reação, você não
sabia desse pequeno detalhe, né? — a garota ainda não desativou o
escudo, e se aproximava um pouco mais.
Os olhos vermelhos e inchados de
Axel guardavam um pouco de raiva quando se levantaram. Sophie viu em
seu rosto retorcido que a vontade do mesmo era ir embora naquele
instante e deixá-la para trás. Mas não era com ela que ele estava
irado. A culpa não era dela, ela era apenas o alvo mais próximo no
momento.
— Acho que deixei meu forno
ligado. Tenho que ir pra casa — respondeu o loiro secamente.
— Axel, você não tem um
forno em casa. Você sequer come em casa.
— Não seja por isso. Eu
compro um em segredo e cozinho em segredo pelos próximos anos.
Adeus! — disse ele, tentando se levantar e se afastar.
— Vai mesmo dar uma de covarde
e fugir? — uma faca passou raspando a lateral do cabelo da garota —
Eu tenho um espaço pessoal de treinamento dentro da cyberzone, se
conseguir ficar acordado.
— Muito obrigado, mas não.
Preciso de um tempo sozinho pra digerir isso. Você tem um irmão!
Sua mãe engravidou de novo e teve um filho com um tenebrae! Será
que ela tem alguma coisa na cabeça?
— Olha, disso até eu duvido.
Mas sinceramente, é a primeira coisa que eu vou perguntar pra ela
enquanto grito com ela e arrasto ela pra fora daquele buraco que é a
zona Tenebrae. Você não é o único puto com mamãe, eu to vendo e
vivendo essa história em primeira mão. Eu não entendo porra
nenhuma do que tá acontecendo e ainda por cima tem um monte de
pessoa que me conhece e eu não sei nada sobre elas.
Axel deu uma última olhada na
afilhada, com certa piedade. O que quer que ele estivesse passando
não estava nem um pouco comparado ao que ela estava vivendo. A
menina certamente estava cortando um dobrado que poderia matá-la e
ninguém sentiria falta dela novamente. O mínimo que poderia fazer,
era devolver suas lembranças.
— Comece a treinar sua memória
celular. Suas memórias de uma vida passada vão voltar nesse
momento. É um processo chamado Memoir. Até mais ver, criatura.
Salve a retardada da Alice, porque eu mesmo vou matá-la.

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