terça-feira, 15 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Axel Bishop – Uma Honra Concedida

Taylon brilhava. Não de alegria, e muito menos de excitação. Ele brilhava de agonia e ansiedade, com a luz saindo de seu corpo como pequenos lasers, constratando fortemente com o homem alto e loiro deitado relaxadamente no sofá do hospital. Ao longe, ouvia-se uma vez feminina urrando alguns palavrões e maldições indizíveis, enquanto algumas enfermeiras iam e vinham banhadas de sangue. A filha de Charlie estava nascendo e ele estava preso na zona Tenebrae, forçado a atender aos desejos da rainha. Ele só podia rezar para que os companheiros do Clã Morgan fossem capazes de salvá-lo.
Axel, ao contrário, estava relaxado e até tentava cochilar ao som do praguejo da Alice. Sabia que a amiga estava encarando aquilo como uma batalha contra Sakura, e ao mesmo tempo ria da tentativa vã das enfermeiras de manter a boca da amiga limpa. Até que finalmente, com um urro que fez chover algumas adagas pela cidade, o choro de uma criança se fez soar. E continuou chorando por alguns momentos até que foi minguando até tudo estar no maior silêncio possível. Axel abriu os olhos e a sua frente, Alice estava em pé, pingando sangue, com as enfermeiras tentando desesperadamente levá-la para a cama, com uma linda menina de cabelos castanhos no colo.
Você! Você vai ser o padrinho dessa criatura, Axel Bishop, e eu arrebento a tua cara se disser não. E quanto a você — disse a mulher virando para Taylon e fazendo o mesmo se encolher — Ache meu marido, senão…
Taylon sumiu engolindo em seco. Jamais imaginara uma mulher com a força daquela que seu amigo escolhera. As coisas estavam tensas, mas tudo ia ficar bem. Ele tinha certeza disso.

׆††×

E foi assim que você nasceu, Sophie. Fim da história. — disse Axel, degustando da bebida amarga e preta, que os humanos chamavam café.
Cara… Eu realmente não queria ter escutado isso. Eu não precisava ter escutado isso! E não foi o que eu te perguntei, cacete! — respondeu a menina
Estressada igual a mãe. Foi somente isso que a impediu de vencer a mim e a Sakura. Pouca paciência. Senta o rabo na cadeira e toma essa “soda italiana de abacaxi”, seja lá o que seja isso.
Primeiro, eu chutei a bunda de vocês dois na arena. E segundo, eu prefiro minhas bebidas gays à café. O gosto é muito amargo.
Sua mãe ficou extremamente amargurada depois que você nasceu. Eu jurava que você chorava por leite azedo — riu o mesmo, logo após o tapa da garota. — Desculpe, não pude me conter. Eu também sinto falta daquela vadia. Minha melhor amiga e minha única rival na cidade. Mas enfim, o que você quer saber?
Eu não sei por onde começar… É só que… Muitos de vocês me tratam como se me conhecessem a décadas e eu não lembro de nenhum de vocês. Eu realmente não lembro de nada que aconteceu com a antiga Sophie.
Axel parou com a xícara a meio caminho da boca e a olhou intrigado. O rosto duro e severo, porém belo e atraente, os olhos amarelos brilhantes, como dois pequenos sois a mostra, cintilando em vários tons, o cabelo castalho e os traços levemente latinos. Ela realmente lembrava muito sua amiga, mas em muito lembrava seu cunhado. Charlie. Ele podia ter esperado só até a filha nascer pra se jogar dentro da zona Tenebrae, só o bastante para explicar essas coisas a ela. Charlie era o planinauta, não ele.
A Sophie que eu conheci era linda. Tinha um coração maravilhoso, sempre disposto a acolher aqueles que confiava. Ela era capaz de levar uma lança pelo corpo, só para parar o ataque do adversário em alguém que ela amava. Completamente louca, na verdade. Simplesmente não conseguia se manter fora de problemas ou evitar de comprar uma boa briga com alguém. Mas ao mesmo tempo, era gentil, calma, estrategista e uma líder para os que aqui ficavam. Eu a vi crescer de longe, sob os cuidados dos Mazashi. Sempre deixava um ou dois presentes de aniversário para ela. As vezes três pela falta que ela tinha da família. Dedicada e poderosa, foi assim que ela cresceu, cercada pelo amor das crianças Mazashi e pela compreensão de Lilian. Até aquela noite.
Um leve tremor percorreu a mão esquerda do loiro e um machado de guerra surgiu acima dela, e ali permaneceu flutuando, até que o mesmo se tocasse e retornasse a arma. Foi o toque da mão da afilhada que o despertou. Ao sentir os dedos da mesma se envolverem e sua mão, ela parou de tremer, mas ele ainda estava triste e desolado.
Boa parte do que você falou é familiar, mas eu realmente não tenho nenhuma lembrança específica. — disse ela — Eu não sou tão foda ou tão forte quanto a antiga Sophie. Sou alguém mais quieta. A única lembrança que eu tenho dela é do sonho de quando eu acordei meus poderes.
Entendo. Mas isso é comum, afinal a Alice ficou perdida quando veio pra cá pela primeira vez. Lembro até hoje que a coisa era magra feito uma titela, mas conseguia puxar dezesseis espadas com um sorriso. Foi nesse dia que começamos a treinar com a promessa de um dia sermos os Cavaleiros da Távola. Com o treinamento, ela ia despertando as memórias, então quem sabe aconteça a mesma coisa com você.
Mas eu não entendo. Eu to aqui a meses, já faz praticamente um ano. E a única memória vivida que eu tenho é de quando a Sophie morreu. (Nota Mental: Isso é bem estranho de se falar)
A Sophie não morreu. Você morreu. Comece a encarar que você é ela, ela é você, vocês são uma, e as duas são unidas.
Bem, eu sei que sou eu, mas ao mesmo tempo não sou eu… Entende a situação que tá na minha cabeça? — falou Sophie em uma breve confusão.
Acho que foi a mesma confusão quando um garoto de 11 anos entrou na minha casa em pleno período de luto e velório e disse que precisava levar seu corpo embora, porque estava contaminado com energia tenebrae e precisava ser destruído.
Deixa eu ver se eu entendi: um garoto de 11 anos entrou na sua casa, pegou meu corpo e saiu com ele porque precisava ser destruído por causa da contaminação tenebrae? Deixa eu advinhar: cabelo castanho espetado e olhos dourados? — o sarcasmo e a ironia estavam escorrendo das palavras da menina.
Axel porém, olhou pra ela com uma cara um tanto quanto peculiar. Ao mesmo tempo que parecia “você tá doida”, também dizia “ela sabe de alguma coisa e não quer falar”. Aproximando um pouco mais a cadeira da mesma e dando um gole demorado em seu café, respondeu:
Não. Cabelo longo escorrido branco e olhos negros.
Sophie para e tem diversos conceitos perpassando seu olhar. Algo estava errado ali e sua intuição formigava como se a mesma estivesse sentada em um formigueiro com brasas de churrasqueira. Fazendo um sinal de espera na mão, a mesma começou a trabalhar em um holograma com suas memórias, formando a imagem de Carlisle Morgan Blake, e mostrando-a para Axel.
Por acaso ele tinha um rosto parecido com o desse guri? — perguntou a mesma com olhos flamejantes.
Admito que tem o rosto parecido, mas o cabelo e os olhos ainda são diferentes. Quem é esse? Tem os mesmos olhos e traços que você. São primos? — o loiro tentava estudar melhor a imagem, realmente intrigado com o que via.
É né? Irilis tem facilidade para mudar a cor dos olhos e cabelo se resolve com peruca. Essa criatura é um terço Herdeiro da Babilônia, um terço Irilis e um terço Tenebrae e é meu irmão mais novo. E eu não faço a mínima ideia do que essa coisa quer da vida, porque uma hora ele me salva e na outra ele me ferra, dá vontade de dar uns tapas nele pra ver se escolhe um lado.
Os olhos de Axel mudaram. O dourado claro deu lugar a um vermelho homicida e Sophie só teve tempo de ver um círculo mágico cobrindo toda a cidade e mais alguns quilômetros enquanto uma revoada de armas choviam na cidade destruindo tudo o que viam pela frente. As pessoas encaram aquilo tão naturalmente que apenas invocaram escudos como guarda-chuvas e esperaram o fim do sereno. Alguns minutos depois, uma mulher esguia de cabelos vermelhos e olhos dourados aparece e acalma o loiro com um tapa no meio das fuças. Sakura apenas virou pra Sophie com cara de “é sério? Te fode aí sozinha com ele agora”, e saiu com um escudo na cabeça, recolhendo a maioria das armas que ainda estavam caindo.
Ahn, melhor você não destruir a cidade no surto… — sussurrou a mesma, aproximando-se lentamente e com escudo ativado.
Mais quinze minutos de xingamentos, pragas e coisas inapropriadas para crianças e Axel caiu chorando, de raiva, tristeza, rancor e sabe-se lá mais o que. Nenhuma arma caiu nesse meio tempo, mas era o bastante pra saber que o mesmo estava desolado. Como sua amiga Alice podia ter feito algo assim, como? Porque ela tinha feito isso? Ele queria gritar, espancá-la, matá-la, mas acima de tudo, queria abraçá-la. Axel chorou, na frente de Sophie, sem medo das consequências ou de quem pudesse ver.
Pela sua reação, você não sabia desse pequeno detalhe, né? — a garota ainda não desativou o escudo, e se aproximava um pouco mais.
Os olhos vermelhos e inchados de Axel guardavam um pouco de raiva quando se levantaram. Sophie viu em seu rosto retorcido que a vontade do mesmo era ir embora naquele instante e deixá-la para trás. Mas não era com ela que ele estava irado. A culpa não era dela, ela era apenas o alvo mais próximo no momento.
Acho que deixei meu forno ligado. Tenho que ir pra casa — respondeu o loiro secamente.
Axel, você não tem um forno em casa. Você sequer come em casa.
Não seja por isso. Eu compro um em segredo e cozinho em segredo pelos próximos anos. Adeus! — disse ele, tentando se levantar e se afastar.
Vai mesmo dar uma de covarde e fugir? — uma faca passou raspando a lateral do cabelo da garota — Eu tenho um espaço pessoal de treinamento dentro da cyberzone, se conseguir ficar acordado.
Muito obrigado, mas não. Preciso de um tempo sozinho pra digerir isso. Você tem um irmão! Sua mãe engravidou de novo e teve um filho com um tenebrae! Será que ela tem alguma coisa na cabeça?
Olha, disso até eu duvido. Mas sinceramente, é a primeira coisa que eu vou perguntar pra ela enquanto grito com ela e arrasto ela pra fora daquele buraco que é a zona Tenebrae. Você não é o único puto com mamãe, eu to vendo e vivendo essa história em primeira mão. Eu não entendo porra nenhuma do que tá acontecendo e ainda por cima tem um monte de pessoa que me conhece e eu não sei nada sobre elas.
Axel deu uma última olhada na afilhada, com certa piedade. O que quer que ele estivesse passando não estava nem um pouco comparado ao que ela estava vivendo. A menina certamente estava cortando um dobrado que poderia matá-la e ninguém sentiria falta dela novamente. O mínimo que poderia fazer, era devolver suas lembranças.

Comece a treinar sua memória celular. Suas memórias de uma vida passada vão voltar nesse momento. É um processo chamado Memoir. Até mais ver, criatura. Salve a retardada da Alice, porque eu mesmo vou matá-la.

0 comentários:

Postar um comentário