terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ahtrim Ayon - A Ambição de Cecil

Cecil sempre fora conhecido por sua inteligência espantosa e habilidade de estudar as coisas, mas nada na vida tinha sido tão desafiador quanto aquele grimório. Existia algo sobre aquelas páginas que ele não conseguia deixar de temer. As forças escondidas ali eram suficientes para que outras pessoas o desaconselhassem de estudar, mas ele era persistente (ou teimoso, tanto faz).
Faziam meses que ele dedicava sua vida noturna a estudar aquelas páginas e toda noite, acabava por amaldiçoar o avô por não ter deixado instruções claras de como ler aquele maldito livro. Queria ele que pelo menos uma vez, seus olhos lessem perfeitamente as palavras e seu cérebro decodificasse a escrita, traduzindo perfeitamente o que estava ali. Soltou um longo bocejo antes de virar a página, esgotado pela leitura de três parágrafos.
- É inútil. Mesmo depois de vários meses, eu não consigo descobrir nada de você. Parece até que você não quer que eu te desvende. Você deve estar me enlouquecendo, porque eu estou falando com um grimório de mais cem anos. - Cecil pensava alto, tentando entender o que significava as palavras na oitava página. Parecia loucura, mas essas oito páginas eram os rendimentos de vários meses consecutivos de sono perdido.
Porém, dessa vez, algo diferente ocorreu com o grimório. As páginas voltaram até o início, até a página onde estava escrita em tinta negra, as palavras "Este diário pertence à Calisto Corleone". Um arquejo escapa dos lábios de Cecil, pois ele conseguira ler sem nenhum problema uma das frases do livro. Mesmo sendo uma das que ele nunca tenha dado atenção, ele conseguira ler sem nenhum problema e isso era o que contava.
A página virou e ele continuou conseguindo ler o que estava escrito nas páginas, com a mesma facilidade de antes. Era como se todo o trabalho duro e esforço estivesse sendo recompensado com a revelação de um segredo incrível. O menino estava maravilhado com o que estava lendo, finalmente descobrindo alguns segredos, que se decodificavam diante dele. Parecia a visão do paraíso, que se abria para ele majestosamente.
- Você não deveria estar lendo esse livro especificamente. Ainda é muito novo para isso, Cecil - sussurrou uma voz, vinda de dentro do livro. Apesar de ser um sussurro, era audível, forte, intenso e austero. O menino, porém, estava tão vidrado nos segredos que lhe eram revelados, que ele não se deu conta ou não ligou para o que a voz falou. Não se ocupou nem em dar uma resposta decente.
- Cecil! Preste atenção quando seu avô falar com você! - repreendeu-lhe a voz, enquanto as páginas viravam, revelando novos segredos. O garoto nem piscou, mas respondeu com um grunhido qualquer. Estava absorto naquelas revelações, de tudo o que pensava que sabia ou que achava que conhecia.
Uma luz dourada começou a emanar das letras do grimório e inundou o cômodo mal-iluminado e simplesmente decorado. Cecil estava tão vidrado no que o livro lhe contava, que não percebeu que começara a flutuar com o livro a sua frente, virando a página lentamente para lhe revelar mais segredos ainda. O garoto sentiu uma mão tocando em seu ombro esquerdo e apertando, mas não tirou os olhos do livro. Aquele toque gélido parecia aterrador, mas Cecil sabia que não seria machucado.
- Está na hora de parar com isso, garoto. Conhecimento é uma arma poderosa, e nem todos os mortais como você, estão capacitados a obtê-la. - disse a voz do homem, tentando despertar o menino de seu transe. Nada se provava efetivo.
- Eu quero conhecer mais. Eu quero saber tudo. Eu quero saber ainda mais sobre tudo mesmo depois de saber o máximo! - disse o menino, com os olhos brilhando de tanta felicidade. Mal sabia ele do perigo. Sua cabeça absorvia cada vez mais conhecimento, tornando-o cada vez mais sábio e consciente do mundo à sua volta. Mas tudo tem um preço.
A cabeça de Cecil começava a latejar com uma dor chata, que se fazia presente na testa, como se sua visão estivesse reclamando da luminosidade. Mas ele não ligou para a dor. Ele queria apenas mais conhecimento, mais sabedoria e inteligência para viver. Sua busca não o levaria para a glória eterna, como ele descobriria em pouco tempo. Sua cabeça começara a doer para realmente incomodar. O menino tentou relevar, mas a dor não permitiu.
- Eu lhe avisei, Cecil. Conhecimento é a arma mais perigosa de todas, e você não estava pronto para ela. Sua mãe nunca esteve e agora, você também nunca estará - falou a voz, com desgosto e amargura.
- Faça parar! Eu lhe imploro, faça parar! - gritava Cecil, tentando desviar o rosto, fechar os olhos, qualquer coisa. Seus olhos estavam tão grudados na direção do livro que nada disso era efetivo.
- Sinto muito, meu neto. Você está sozinho. - e com isso, o velho se foi, deixando o garoto sozinho no quarto.
A dor dentro de seu crânio era insuportável. Parecia que seu cérebro estava sendo esmagado como massa de modelar. O garoto se recusava a emitir um único som que fosse, mas chorava pela dor abusiva que sentia. E não conseguia fechar os olhos, nem parar o fluxo constante de informações que chegava na sua cabeça. A tortura se prolongou até o momento que o menino soltou um grito de agonia horripilante, e caiu no chão, com os olhos abertos e vidrados, com um líquido cinzento escorrendo pelo nariz, boca e ouvidos. O excesso de informação tinha derretido o cérebro do menino. O grimório se fechou e flutuou de volta à mesa, como se nada tivesse a ver com aquilo.

0 comentários:

Postar um comentário