terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ahtrim Ayon - As Lágrimas de Lumiel

Lumiel estava ficando esgotado. Parecia que quanto mais derrotava aqueles capangas, mais eles surgiam, como formigas saindo de um formigueiro para matar o que quer que fosse seu inimigo. No caso, ele não era um inimigo, e eles muito menos eram formigas. Arfando, curvou o corpo para frente, apoiando-se na lança. Sentia um cansaço aterrador, e sua visão começara a embaçar.
Ouviu os passos de novos asseclas de Abaddon correndo em sua direção, provavelmente carregando mais daquelas seringas com líquido preto. Quantas agulhadas com aquele troço ele já levara? Dez? Quinze? Mais de vinte? Quem sabe. Seu corpo registrava apenas um cansaço sem fim, percorrendo suas veias, enquanto os homens envoltos em togas púrpura esfarrapadas. Lumiel sentiu sua lança sendo tirada de suas mãos e arremessada ao longe.
Mãos indelicadas o seguraram grosseiramente e puxaram seus cabelos para que olhasse para o altar. Seus dois irmãos estavam lado a lado com o altar entre eles. Cada qual dentro de sua prisão energética, tentava se libertar desesperadamente, e tudo o que conseguiam, era gastar suas forças sem retorno. Era uma situação desesperadora, onde ele não sabia o que fazer para salvar a todos.
- Finalmente estamos face a face. Esse dia demorou, mas agora você está em minhas mãos. - grasnou uma voz pavorosa, surgindo do altar arrepiando os pelos da nuca de todos os presentes. Abaddon se anunciara.
- Você nunca terá o que procura em mim. Eu jamais servirei ao seu propósito. - respondeu Lumiel, com sua voz meio grogue e cansada. Ele parecia estar lutando contra algo que mais ninguém via.
- Você não terá luta. Você não terá querer. Você só terá a mim, quando acabarmos de nus unir. Nossa união será indestrutível, e tão poderosa que ninguém nesse ou nos outros mundos ousará nos desafiar! Eu finalmente terei o poder infinito! - rugiu o altar. De seu centro, algo começou a vazar. Parecia um tipo de catarro gosmento preto, com um leve reluzir púrpura.
A gosma surgia do altar, como se fosse uma fonte para aquela matéria fétida e nojenta. Em pouco tempo, a gosma estava escorrendo do altar e descendo as escadas como um piche fedorento. Os irmãos de Lumiel gritavam e batiam nas paredes de suas barreiras, tentando quebrá-las e salvar o jovem. Tudo isso parecia cada vez mais inútil diante daquela presença. Abaddon continuou avançando, até estar diante de Lumiel, como uma grande poça de piche rodeando-o.
- Juntos, seremos o ser mais poderoso que o multiverso já viu. Veja, o poder absoluto está diante de você. Pegue-o, e vamos governar o mundo e além! - Abaddon queria fundir-se ao garoto, com tudo o que podia querer.
- Se você deixar os meus irmãos e minha família em paz para sempre, eu me junto a você! - mesmo nessas situações, o menino só pensava no bem estar daqueles que amava.
Se aquela massa disforme tivesse rosto, Lumiel poderia jurar que Abaddon tinha sorrido. O piche criou tentáculos e avançou no jovem, consumindo seu corpo, enquanto se fundia como um simbionte. Lumiel se sentiu consumido pela maldade e corrupção que residia naquela gosma infame, e quando menos esperou, sentiu que estava fora do corpo. Viu que Abaddon tinha expulsado sua alma de seu corpo, e agora encarava-o com olhos vazios e mortos.
- Agora que já tenho seu corpo, sua alma só irá servir para mais uma coisinha: me alimentar! - com um movimento das mãos, Lumiel sentiu sua alma se transformar em pó e ser sugada como alimento por aquele monstro em forma humana. - Obrigado Lumiel. Farei bom uso de seu rosto! - e com uma risada maligna, a consciência do garoto silenciou para sempre.

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