Sygin corria que nem uma louca, apavorada do que quer que estivesse perseguindo-a. Aquele monstro tinha matado toda a equipe da elfa com uma facilidade tão assustadora, que ela própria estava considerando que o destino mais fácil era se entregar para a morte. E como se não tivesse amanhã, ela corria, cada vez mais rápido, querendo se distanciar o mais rápido possível do louco sanguinário.
O som da floresta estava ressonando em seus ouvidos, num silêncio tão profundo que pareciam notas musicais. A garota estava esbaforida e ofegante, mas estava aliviada por ter certeza de que estava longe daquele massacre. As cenas ainda estavam frescas em sua memória, como o sangue estava em suas roupas, ensopando seu corpo. O cheiro de morte tinha grudado fundo em sua pele, em seu cabelo. Sygin sentia seu interior se estilhaçando com a potência assassina daquele monstro. Desesperada, a menina sentou no chão e começou a chorar compulsivamente, soluçando de desespero.
O escuro ajudava a encobrir as lágrimas brilhantes, que escorriam pelo seu rosto, se misturando ao pó, o sangue e sujeira de guerra. A elfa sabia que continuar ali era um pedido explícito para a morte, mas ela estava tão cansada. E tinha colocado uma distância enorme de onde estava até o campo de batalha. Não queria pensar naquilo, mas os gritos ainda ecoavam em sua mente, assim como o rasgar de carne, e o som do sangue espirrando. O cheiro podre de morte, e o "rosto" dele. Se é que se pode chamar aquilo de rosto.
Tentando retomar o equilíbrio e a força de vontade, Sygin se levantou e enxugou as lágrimas que teimosamente ainda tentavam escapar da contenção de seus olhos. Com o auto-controle reforçado, a garota tentou prosseguir com sua viagem, mas algo chamou a sua atenção. Não era bem um som, mas sim a falta dele. Até a floresta silenciosa, que antes tinha um que de acolhimento, agora estava com uma clara intenção assassina e ameaçadora. Assim como ele.
Com toda a sua força de vontade, Sygin se preparou para a ultima batalha. Sabia que não tinha força para mais nada. Se sentia esgotada, tanto física quando mentalmente. Não conseguia lançar mais magias, e seu arco tinha ficado longe, assim como as flechas. Ela encararia seu destino na unha. Respirando fundo, ouviu atentamente, para ver onde vinha aquela ameaça e encontrou um leve ruído. Virou-se com toda a coragem para encarar um esquilo. Momentaneamente confusa, permitiu-se aliviar-se do medo que estava sentindo, e decidiu que estava ficando paranoica.
Porém, quando se virou para encarar o caminho de partida, seu coração quase parou. Arregalou os olhos para o sorriso psicótico que se encontrava à sua frente, envolto por uma armadura de metal pesada, e um manto vermelho em farrapos, fedendo a cadáveres, e o capacete ocultando a face do demônio. Com um passo assustado para trás, ela tropeçou e viu que o mesmo flutuava alguns centímetros do chão.
Com o coração aos saltos, ela viu o horror ensanguentado estender a mão em direção a ela, até que ele segurou o rosto da elfa com sua mão direita e aproximou a boca do ouvido da mesma. Sygin estava gelada como um ice berg e tremia mais do que se é possível pensar. Quando o mesmo estava tão próximo para que o fedor de sangue fizesse os olhos da garota arderem e lacrimejarem, ela ouviu apenas um único som.
- Kushi!
O grito de Sygin varreu a floresta, como se a mesma estivesse recebendo as dores do inferno no próprio corpo. Ninguém jamais soube exatamente o que aconteceu com ela, mas no nascer do sol, alguns viajantes estavam passando pela estrada e encontraram as poucas partes reconhecíveis da garota. Os boatos do Horror Ensanguentado percorreram inúmeras cidades, contando como ele matara Sygin Collaerium, a última descendente da mais nobre linhagem de elfos.

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