As peças estão se alinhando.
De fato, pode parecer que são peças aleatórias se movendo em um
tabuleiro, mas não. Ele sabe o que faz, e está fazendo uma obra
grandiosa. Você só não sabe disso. Insanidade é o maior dos Sete
Aspectos em questão de inteligência, e ele não se incomoda de ter
um poder reduzido comparado aos seus iguais. Se seus planos iam bem,
ele não precisava de poder bruto para vencer seus inimigos, como
Barbárie. Decadência ainda estava aprendendo a caminhar, mas seus
passos já eram muito largos, e as vezes maiores que as pernas. Não
importa, ele tinha o que queria.
— Muito bem, vejamos o que
temos aqui para hoje: Salatiel e Aziel estão cada vez mais
consumidos pela ideia de que a energia negativa do mundo precisa ser
limpa, a Rainha Tenebrae está certa de que deve expandir seu
império, o Deus do Caos clama pelo seu trono, Baphomet está se
aproximando da origem dos problemas e Abaddon encontrou uma forma de
possuir o Legado de Amitiel sem poder se preocupar. É, está tudo
nos conformes. — comentou Pierrot, olhando para sua bola de
cristal.
— Não acha que está
esquecendo dos pirralhos Planinautas? Eles atrapalharam nossos planos
mais de uma vez, e eu não creio que você possa prever tudo. —
Comentou uma nova pessoa, vestida de preto da cabeça aos pés, com
um capacete a lhe cobrir a face. Tudo ao seu redor apodrecia e se
desfazia em pó.
— O que me importa?! Eu posso
descer e esmagá-los com minhas próprias mãos! Eu sou o mais forte
de vocês, e sabem disso, então me deixem fazer meu trabalho! —
exclamou uma massa de carne e músculos surgindo a vista. Ela se
mostrava enraivecida e agitada, e tudo ao seu redor parecia entrar em
estado de ira descontrolada.
— Paciência, meus irmãos.
Nossa vitória está próxima, então não sejamos descuidados a
ponto de deixar aquela molecada estragar tudo. Pelo que parece, Tess
Leon decidiu que eles precisam treinar mais ainda antes dos próximos
encontros, e se meus cálculos estiverem corretos, eles irão para a
Cidade dos Artistas atrás da Alta Sacerdotisa de Zaira. Raven jamais
se afastaria dos seus, e isso vai fazer com que ela carregue todos
para meu domínio. — sussurrou o palhaço, criando um tabuleiro
elaborado com várias peças e movendo todas elas até estarem em
determinadas posições.
— A Celebridade de Esloric
está ficando cada vez mais fraca, e você poderá usar seu
Receptáculo para assumir o governo da cidade. Mas não entendo
porque você deseja tanto assumir o comando da cidade. Não existe
nada lá além de um bando de artistas ensandecidos pelo frenesi da
arte. Não tem nada valioso. — comentou Ishidan.
— Sim, não tem nada valioso
por lá além de algumas coisas. Talvez você não esteja atrás de
objetos poderosos e sim de algo ainda mais forte. Começo a
compreender o seu plano, meu caro irmão. Mas como planeja fazer com
que todos dancem conforme a sua música? — disse a Barbárie.
— Ah, meus caros… Eu consigo
manejar inúmeras variáveis para prever os comportamentos
resultantes. Posso fazer com que todos sigam meus comandos sem
saberem sequer que estão fazendo isso por vontade própria. E farei
isso com toda de maneira capciosa e inteligente. — um sorriso
pavoroso se mostrou nos lábios do palhaço, mostrando crueldade, mas
também sabedoria. Haveria propósito na sua loucura?
׆††×
A pequena menina de cabelos rosa
chegou até o local de encontro. Seu longo vestido branco contrastava
fortemente com seus olhos dourados e seu cabelo esvoaçante, mas ela
não se permitia humildade agora. Tinha assuntos urgentes a tratar
com suas irmãs. As três eram ligadas desde seu nascimento, então
difícil se separarem, mas tiveram de fazer esse sacrifício. Agora
estava na hora de se levantar e lutar novamente contra seus irmãos
mais velhos. Das sombras nasce a luz, e a luz diminui a sombra.
Esperança foi até aquela
colina onde os Ipês amarelos estavam sempre florescendo, de modo que
sempre havia uma sombra linda a lhe esperar, oferecendo conforto e
proteção. Ainda queria muito que Inocência e Lealdade chegassem
rápido, afinal, estar sozinha era um dos seus maiores incômodos.
— Queria que, pelo menos, ele
pudesse me ouvir agora. — suspirou a garotinha.
— Quem disse que ele não pode
te ouvir? — sussurrou uma nova garota, chegando sorrateiramente.
Era pequena, como uma criança humana de apenas seis anos de idade.
Seus cabelos louros platinados, sua pele pálida e seus olhos azuis
cintilantes mostravam algo que poucas crianças tinham hoje em dia:
uma inocência gentil e carinhosa. Algo que poucos entenderiam.
— Irmã! Que saudades! Como
vão as coisas? Teve alguma notícia de Lealdade? Precisamos
conversar urgentemente, Insanidade está ficando fora de controle! —
a maior pôs-se a abraçar a recém-chegada com afeto e amor.
— Sim, eu sei que nosso irmão
está praticamente perdido em sua inteligência. Ele sempre foi o
mais perspicaz de nós, mas também é o mais ambicioso. Ninguém
nunca foi capaz de entender completamente seus planos, e eu temo que
nem nós três juntas possamos fazer frente aos nossos três irmãos
se Pierrot estiver no comando.
— Ah, irmã. As vezes eu penso
onde foi que erramos quando tentamos cobrir o mundo com nossos
valores. Somos a encarnação dos conceitos que definem a humanidade
como ela é, e nós criamos monstros que são iguais a nós e tentam
desesperadamente criar o Caos e espalhar a agonia. — comentou a
dama dos cabelos rosas.
— São questionamentos que não
devemos ter agora. Essas perguntas têm respostas, mas não as
encontraremos enquanto estivermos paradas pensando em quem não
devemos temer. — uma dama de preto chegou, com seus longos cabelos
loiros e olhos extremamente castanhos e opacos. Ela parecia alheia a
tudo ao seu redor, mas era apenas a impressão primária — Os
planinautas e Tess Leon poderão cuidar dos acessos de nosso irmão
enquanto ele quiser se fazer de bobo.
— Lealdade! — as duas
falaram em uníssono.
— Sim, eu estou aqui. Eu
respondi ao seu chamado, minha pequena irmã, mas agora não temos
tempo para sermos cordiais. Vamos direto aos assuntos que viemos
tratar. Silêncio ainda está desaparecido, e ele é o único que
consegue frear todos os outros Aspectos, então temos que pensar num
plano B até ele estar com vontade de ajudar.
׆††×
Silêncio estava apenas olhando
tudo o que ocorria ao seu redor. Suas irmãs estavam apenas tentando
fazer a contenção de danos, sem realmente extinguir o problema, e
seus irmãos estavam cegos pela própria ganância. Nem mesmo em sua
infinita sabedoria, Silêncio conseguia compreender o que motivava
Pierrot a continuar com seus planos. Com um suspiro, o mesmo se
levantou e começou a andar pela sua terra, ciente do invasor que o
observava.
— Eu sei o que está pensando,
Nirmala. Você deve estar furioso por eu invadir suas terras
novamente, mas é algo que eu preciso fazer.
Silêncio apenas olhou
reflexivamente para seu aliado temporário. Analisou profundamente
cada centímetro do corpo dele, como a medir o poder guardado em tão
pouco espaço. Tess Leon. Aquele humano lhe intrigava profundamente,
por ser capaz de feitos que nenhum mortal ou imortal sonhara em
fazer. Silêncio apenas o olhava com seus olhos calmos, e seu rosto
impassível, mostrando que estava aberto a uma “conversa”.
— Silêncio, eu tenho que lhe
pedir um favor: os Planinautas estão cumprindo seus destinos
separadamente, mas haverá uma hora que meu irmão irá unificá-los,
de forma que seus corações se fundam como uma rocha indestrutível.
Você sabe que a amizade deles será a única coisa que impedirá
todos os planos de todos os inimigos que existem agora e que ainda
estarão por vir. Eu preciso que você se exima da batalha que está
por vir entre os Aspectos, porque se eles crescerem e se
fortalecerem, nada nesse mundo será capaz de detê-los. Porém, se
você impedir esta guerra, eles serão acomodados, e não é esse o
plano que eu tenho para eles. Por favor, Nirmala, se você tem algum
apreço a mim, fique de fora desse confronto, ou eu serei forçado a
agir.
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