terça-feira, 30 de junho de 2015

Kronos Academy - Deborah I

Deborah I

Mais uma vez ela acordara no meio da noite. Seu companheiro de cama estava ao seu lado, o abdômen desnudo subindo e descendo, a expressão pacifica de um sonho agradável. Ele não notara o terror noturno, pelo menos não essa noite. As lagrimas ainda escorriam quentes pelo seu rosto, mas ela não soluçara, não fizera nenhum som. Não conseguia mais gemer, apenas gritava ocasionalmente.
Acontecera há 1.875 anos, mas a dor era tão intensa e dolorida como se tivesse acabado de acontecer. Suas mãos foram para o pingente de coração em seu pescoço, a única lembrança física dele, que só sobrevivera por ele ter sido cuidadoso de envolve-lo com o que ela gostava de chamar de Magia Temporal. Muitas vezes ela se perguntava se ele previra o que aconteceria, por isso tivera o cuidado de garantir que seu presente mais importante permanecesse. Mas não... ele não poderia tê-la deixado de proposito. Fora um acidente... ele não poderia ter previsto...

As lagrimas ainda banhavam seu rosto e ela segurou um grito de dor mordendo os lábios. Mordeu-os até sentir o gosto de sangue. Se encaminhou com passos pesados até a parte de seu quarto que seria um escritório, era distante da cama, e tinha um isolamento acústico. Seu companheiro não a ouviria. Só após a porta metálica fechar-se atrás de si ela se permitiu cair de joelhos e gritar.
Gritou maldições e pragas dirigidas às Moiras. Gritou o nome dele, implorando por ele, mesmo sabendo que não poderia ouvi-la.

Sonhara com ele outra vez... Não um pesadelo. Não, seus sonhos eram feitos de paz e alegria. Ele estava vivo novamente. Ele a abraçava e dizia que a amava. Ele lhe presenteava com o pingente e prometia jamais lhe deixar. Ele fora o único que ela realmente amara, o único que se permitira amar, o único  que a correspondera... e o que perdera.

Rastejou até a escrivaninha, pegou a chave no bolso abrindo a gaveta secreta. E ali estava. O ultimo desenho que fizera, na ultima vez que sentira vontade de desenhar. Ali estava o rosto dele, rindo de alguma coisa. Os dedos alisaram os traços, e ela teve o cuidado de não permitir que nenhuma lagrima manchasse o papel. Gritou novamente, com a saudade apertando o peito.

Por que? Por que ele?

- Por que essa foi a vontade de Paradoxo – respondeu uma voz masculina

Ela se virou em um salto, se posicionando defensivamente. Saindo da sombra vinha um aluno, um tal de Alexander... Mas o que ele poderia saber sobre...? Então ela percebeu a cor de seus olhos, de um vermelho sanguinolento.

- Morgaine! – ela rosnou em conhecimento – Como você...?

- Não lhe interessa! – disse em um tom cínico – Mas o rapaz está sobre o meu controle, pelo menos temporariamente. Logo ele retornara ao seu quarto e continuará a dormir, amanhã acordará sem nenhuma lembrança dessa nossa conversinha.

Ela semicerrou os olhos desconfiada, mas assentiu.

- Que seja! Não é como se eu...

 - Por favor, querida – o rapaz deu um passo na direção dela, toda a postura corporal dele mudada, andava languidamente, rebolando como se tentasse seduzir todos ao seu redor, um habito que na maldita que o controlava poderia ter feito sucesso, mas agora só beirava ao ridículo.- Eu há conheço há muito tempo. Não precisa fingir comigo. Sei que sente a falta de seus amiguinhos.

- Você não sabe nada sobre mim!

- Sim, eu sei. Sei mais do que você inclusive. Sei até as verdadeiras circunstancias da morte dele... – prosseguiu em um tom insinuante

- Mentirosa! Foi um acidente! Você estava em Salem quando aconteceu, não tente me enganar!

- Foi isso que as demonias te disseram? – riu em verdadeiro divertimento – Acha que foi apenas por aquele incidente com as bruxinhas que fui aprisionada? Não, minha querida. Elas sabem da verdade, ou ao menos parte dela. Seu noivo descobriu as intenções de Paradoxo antes mesmo que pudesse começar seu trabalho. Ele intentava denunciar às Moiras, e trocar tais informações pela liberdade de viver com você... Quando Paradoxo o confrontou. Eu estava lá, você sabe... Eu que descobri as intenções do idiota!

- E o denunciou ao assassino! – vociferou ela se sentindo tonta, as novas informações traziam outra luz à historia que ela já vira varias vezes em sua mente.

- Sim, era meu dever como sua aprendiz. Embora eu deva confessar que não imaginava que ele mataria o pobre rapaz. Foi algo terrível de se ver. Mas as Moiras poderiam ter impedido você sabe... Elas viram quando os árabes o capturaram com dezenas de acusações sem fundamento. – prosseguiu o rapaz com um sorriso cruel no rosto, divertindo-se com o sofrimento que causava – Creio que elas queriam afinal vê-lo punido. Vocês dois desrespeitaram uma das regras mais importantes delas. Tsk. Tsk. Tsk. Algo que qualquer aluno sabe, você não pode se apaixonar, querida – prosseguiu em um tom zombeteiro, como se falasse como uma criança. – Você deve imaginar o que se seguiu. Algumas amputações, chicotadas, um olho à menos, os dentes espalhados no chão. É claro que o rapaz não poderia fazer nada, as mãos estavam amarradas à uma distancia segura uma da outra, ela não podia mexer no relógio. Mesmo perto do fim ele tinha esperança sabe... Repetia para si mesmo que as Moiras iriam intervir, que você iria salva-lo, que ele teria a chance de tocar no relógio... – o rapaz deu uma gargalhada – Eu mal posso acreditar na ingenuidade. Mas ele estava delirando de dor...

Lagrimas quentes desciam com ainda mais intensidade pelo roso da mulher. Ela mal podia acreditar no que ouvia. Queria estraçalhar a maldita. Estraçalhar as Moiras. Estraçalhar Paradoxo. Contudo o choque não deixava que movesse um musculo.

- É claro que quando começaram a amputar os membros ele deixou de ser tão esperançoso. Primeiro foram os pés. Os órgãos sexuais. Depois uma das mãos. E enfim a mão do relógio. Quando o relógio caiu ele abaixou a cabeça e teve certeza de seu fim. E estava certo, é claro. Paradoxo pegou o relógio do chão cheio de sangue, e começou a desmonta-lo. Lentamente. Ao fim de 30 minutos... O relógio se desfez em cinzas. E seu noivinho também. – o rapaz deu uma risadinha de prazer – Pelo menos isso acabou com o sofrimento dele não é? É claro que isso criou um paradoxo. Todas as encarnações dele futuras e passadas desapareceram. Todos seus pertences físicos. Toda memoria dele... Exceto para os Viajantes. Após isso você sabe o que houve. O paradoxo durou algumas horas, às quais meu querido professor e líder usou para ajeitar alguns detalhezinhos das linhas do tempo. Algo que as demonias sequer perceberam. Mas eu errei. – fez uma careta – Em minha arrogância e desejo de agradar meu líder tentei me livrar das três pragas. Obviamente não tive sucesso. As Moiras tentaram me interrogar, mas como não podiam me fazer falar, me trancafiaram naquele calabouço. Entretanto logo, logo eu estarei livre. – o rapaz deu um sorriso cheio de veneno

- E por que está me contando isso? – rosnou a mulher, embora as lagrimas ainda descessem pelo rosto ela ficou satisfeita de ver como a voz saíra ameaçadora, embora ligeiramente grotesca, mais rosnado que humana.

- Por que as três demonias sabiam o que ia acontecer. Mesmo que Paradoxo não tivesse esmagado o relógio, seu noivo teria morrido de uma forma cruenta. Elas não podem continuar no comando. Elas não devem, elas não merecem.

- E quem merece? Você? Você entregou um dos nossos àquele assassino! Você assistiu enquanto os mortais o... – ela engoliu em seco sem poder continuar – As Moiras são três vadias que podem ter um ménage à troa pelo que me importa. Mas você e seu mestre não são muito melhores que elas!

O rosto do rapaz se contorceu em uma careta.

- Ele não é meu mestre. É meu líder e meu professor, não meu mestre! E nos somos melhores que as Moiras. O que aconteceu com seu noivo foi uma consequência necessária! Para destronar as demonias é necessário transformar o reinado delas em um caos. Quando elas não forem mais que poeira uma nova ordem pode surgir desse caos!

- E essa seria a ordem de Paradoxo? – ela cuspiu com desprezo no rosto do aluno – Que você e ele queimem no inferno.

- Cuidado, querida. – disse o aluno limpando o rosto – Agora que sabe o que realmente aconteceu com seu noivo deveria saber que se opor à Paradoxo pode ser perigoso.

- E Paradoxo deve saber que sou uma mulher vingativa. Eu vou matar esse verme. E à você também Morgaine.

O rapaz fechou o rosto com um ar de repreensão. Depois suspirou e deu de ombros fechando os olhos. Toda a postura corporal desapareceu, ele soltou um pequeno ronco, e ela soube que Morgaine deixara o corpo dele. Agora ela apenas um aluno sonambulo, ela abriu a porta e o garoto foi andando à passos lentos de volta para o seu quarto.


A mulher trancou o desenho de volta na gaveta secreta, trancando-a. Não pensaria nele, pelo menos por enquanto, sua mente não era capaz de lidar com o que ouvira. Pensaria apenas em sua vingança.

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