Calixto Corleone já tinha visto
muitas coisas estranhas durantes suas épocas de viajante, mas jamais
tinha visto algo como aquilo. A devastação causada por aquele
monstro não tinha chegado à cidade de Anatoli, mas até mesmo as
Cinco Dinastias estavam com medo do que ele poderia fazer se
chegassem no local certo. Os senhores Masashi estavam em polvorosa
pela perspectiva do Devorador de Éter chegar na cidade, os Andrieux
tinham votado pela destruição completa de Ferália, os Cahill
tinham enviado uma guarnição de soldados para lutar contra a
criatura, e os Mayer e Thazlow estavam cuidando da proteção de
cidade. Tudo estava seguindo ritmo.
— Você e sua mania de
observador… Não se cansa de ser um mero expectador da vida alheia,
Calixto? Você tem tanto talento, tanto potencial… Mas desperdiça
tudo isso ao fazer essas viagens ao passado e ao futuro para ver o
que acontece com o mundo. — sussurrou uma voz vinda de outros
galhos, a curta distância do mais velho.
— Ah, Tess. Que bom que
finalmente aceitou meu convite para viajar pelo tempo comigo. Já
estava ficando triste por você fugir tanto de tantos convites que
faço. Agora sente-se aqui comigo e aprecie os esforços inúteis
desses soldados em conter o Äter Ausgehungert. Claro que isso é
impossível. Ele está fadado a confrontar todas as cinco dinastias e
ser derrotado por elas. É sabido. — o mais velho apenas acenou com
a cabeça, voltando a ler o livro com empolgação. Tess de certa
forma sentiu tristeza pelo velho. Mesmo que ele tivesse a proteção
das Moiras, ainda era triste que ele tivesse uma visão tão escrota
que não devia evitar a desgraça quando ela estava na sua frente.
— Você fica com esse livro
grande nas coxas, se perdendo na leitura de vários tempos e caminhos
possíveis para o futuro de cada coisa, mas se esquece de que existem
coisas mais importantes que simplesmente ter conhecimento absoluto de
tudo o que acontece ao seu redor. Eu duvido que você se lembre dos
olhos da última mulher com quem transou ou da cor dos cabelos da sua
filha. Você realmente não consegue se preocupar com mais nada além
de ganhar mais e mais conhecimento? — perguntou o garoto, com voz
entristecida.
Calixto virou-se pra ele e lhe
deu um meio sorriso. Sabia como ele pensava, pois já fora jovem. Ele
também já tivera a ideia de que poderia mudar o mundo para que nada
mais desse errado, que ninguém mais se ferisse, que ninguém mais
tivesse a vida roubada por um vilão escroto que só serve para
destruir e arruinar a chama que arde nos corações dos jovens
prodígios de Ahtrim Ayon. Mas como sempre acontecia, ele estava
errado. Existiam coisas que não podiam ser concertadas, porque
simplesmente não tinham concerto.
— Você ainda é jovem, Tess
Leon. Ainda tem que entender muita coisa sobre a vida, saber que a
arma mais poderosa do mundo foi e sempre será a informação e o
conhecimento de tudo ao seu redor. Você precisa saber tudo e precisa
conhecer tudo, para poder combater qualquer inimigo. Se eu tiver as
informações necessárias para vencer todos os inimigos do mundo,
ainda será pouca coisa. Entenda isso, e perceba que concertar erro
por erro é inútil, e o melhor é ter toda a sabedoria para corrigir
tudo de uma vez, a partir do princípio.
Existem diferenças sutis entre
ser um idiota precavido e ser um idiota presunçoso e arrogante.
Calixto obviamente tinha ignorado a linha e ficava cruzando a
fronteira de forma insistente a todo momento. O quão estúpida uma
pessoa tinha que ser para pensar que não daria mais merda fazer com
que todos os erros de um passado fossem corrigidos a partir da fonte?
Seria com certeza bem pior, o desastre mais tenso que poderia
acontecer. Mas tudo bem, afinal, ainda existiam pessoas com
predisposição a viajar pelo tempo, e Tess sabia que podia
encontrá-las e treiná-las pra concertar o que ele não poderia. Mas
por enquanto…
— Eu sinto muito, meu bom e
velho amigo. Você me ensinou muito sobre a vida, sobre como viajar
no tempo e até mesmo sobre o futuro que aguarda minha família, e eu
lhe sou extremamente grato. Você não faz ideia do quanto eu te
considero e te respeito por tudo o que você fez por mim, mas eu não
posso admitir que você imponha sua visão do mundo sobre todos.
Hora de fazer o mundo voltar a
funcionar. Tess se jogou do alto da árvore e aterrisou com apenas um
leve baque surdo. Em seus olhos, a ira de toda uma geração se
escondia como uma tempestade se esconde no horizonte antes de desabar
sob o mundo inteiro e varrer tudo em seu caminho. A pressão no
ambiente estava mais forte do que deveria enquanto o garoto
lentamente caminhava pelo caminho destruído da floresta, porém isso
não o incomodava. Na verdade, era reconfortante saber que finalmente
ele encontraria alguém tão forte quanto ele, ou até mais ainda.
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O ser que se encontrava
caminhando lentamente pela floresta, como se a mesma fosse feita de
gelatina, estava começando a sentir uma presença oposta a ele. A
pressão ainda era poderosa o bastante para lhe causar medo, mas
certamente era inferior a que ele produzia ao seu redor, ou a que as
Dinastias estavam criando juntas. Certamente seria divertido
encontrar alguém que tinha um poder tão imensurável, mas ainda era
algo perigoso e intenso, algo que ele não queria pegar e nem queria
encontrar. Uma luta dessas proporções poderia destruir todo o mundo
de Zahalysne, e não sobraria nada para comer se isso acontecesse.
— Parece que cada passo fica
mais dificil avançar em direção a Anatoli. Eu deveria estar
preocupado com a potência do seu poder, mas sinceramente, eu não
estou. Você não acha que deveria se revelar para seu adversário? —
o Devorador perguntou calmamente para a solidão da floresta.
— Tudo bem. Eu já estava
planejando aparecer para você mesmo. — Tess surgiu caminhando com
dificuldade. Parecia que tudo ao seu redor tinha ficado mais denso
pela simples presença do Devorador de Éter. — E então, Äter…
O que planeja fazer quando passar por mim e seguir viagem rumo a
cidade de Anatoli e todos os seus habitantes? Planeja sugar a
essência vital deles? Planeja devorar toda e cada grama de poder que
sobrou nesse mundo e, por fim, aniquilar os restos mortais desse
mundo e partir para outro mundo até terminar com este plano inteiro?
Essa é a missão que Lewenstat te deu quando você atravessou a
porta?
— O que Lewenstat me disse ou
não disse para fazer não importa. Quando eu atravessei a porta,
tudo o que eu podia pensar era em entender como esse plano funcionava
e quais eram as características dele para o resto do Omniverso. O
que eu descobri é que simplesmente tem coisas aqui que precisam ser
eliminadas, mesmo que o desejo de Periculum seja a preservação
absoluta de tudo, não que eu precise falar sobre o desejo dele pra
você, não é mesmo?
Uma lufada de vento soprou, tão
afiada quanto uma navalha e isso cortou todo o espaço ao redor do
Aeter Eater. Ele nem ao menos se incomodou, dando um sorriso de
escárnio, afinal ainda sabia como provocar o menino, mesmo que ele
fosse jovem pelos padrões daquele mundo, ele era mais velho do que a
própria existência em alguns aspectos. Era bem divertido pra falar
a verdade. Tess, a criança que nasceu para se sacrificar, era o
título que carregava, apesar de ter disfarçado isso com toda a fama
e glória de uma posição superior.
— Desculpe se te ofendi,
Criança Primeva, mas você sabe que é verdade. Você não é nada
além de um saco de carne pronta para o abate, sozinho até o fim! —
o Devorador gritou para Tess, como que a intimidá-lo.
— Está enganado, Etherias…
Eu encontrei amigos uma vez. Muito tempo atrás, e num tempo que
ainda vai acontecer, eu encontrei amigos que não me deixavam
sozinho, não me abandonavam, me amparavam e estavam sempre me
esperando voltar pra casa. Eu tenho meu irmão, tenho meus amigos e
sempre terei alguém que vai ficar comigo nas piores horas. — a
pressão do poder do garoto aumentou uma infinidade elevada à quinta
potência. Parecia que Tess era o infinito, a eternidade, o tudo e o
nada, que ele era a realidade em si.
— Então você resolveu
mostrar do que é feito, Tess Leon? Bem, vamos começar a nossa
dança, meu caro amigo, e que seja de uma vez por todas! — o
monstro apenas soprou, e uma quantidade absurda de energia saiu de
sua boca de encontro ao menino.
— Patético! Se isso é só o
que você pode fazer, então está na cara quem ganhará essa
batalha. — com apenas um movimento das mãos, a energia etérea se
difundiu e foi absorvida pelo campo de batalha, e com apenas um aceno
das mãos, o sol lançou uma imensa onda de luz e calor em direção
o Devorador.
— Isso! Alimente o monstro que
você teme, meu caro! Só me deixará mais poderoso a cada passo do
caminho! — a criatura imediatamente abriu a boca e comeu toda a
onda de energia solar que se precipitava contra ele, e isso pareceu
deixá-lo imensamente mais forte.
Ninguém conseguiu ver o momento
em que Etherias se impulsionou na direção do menor e desferiu um
poderoso soco que abriu o chão em fenda. Tess suportou o golpe com
uma defesa de braços, mas a dor que sentiu percorrer seu corpo era
como se uma ferida fosse aberta por todo o seu corpo e jogassem sal,
alcool e limão. O menino quis chorar e quis gritar, mas agora ele
estava sozinho e precisava vencer essa batalha sozinho, pelo passado
que ele teve e pelo futuro que ele teria…
Com um salto, Tess saiu da fenda
que estava e invocou um tornado de raios e jogou contra o Etherias,
mas este apenas comeu a energia elétrica, concentrou isso pelo seu
corpo e se impulsionou novamente contra o menino, dessa vez
desferindo uma série de chutes a uma incrível velocidade. O som de
ossos partindo podia ser ouvido a uma distância enorme, e Tess foi
jogado para trás sentindo todo o seu peitoral virando poeira. Mesmo
assim ele se levantou e invocou a lava e prendeu Etherias em uma
esfera de lava. Rapidamente, o monstro comeu a energia do calor e se
soltou da rocha sólida, devolvendo todo o golpe com um rugido
ensurdecedor.
— O que você tinha dito
mesmo, Tess? Ah sim: “Patetico! Se isso é o melhor que pode fazer,
então já sabemos quem é o vencedor dessa batalha”. Acho que isso
se aplica muito bem a sua situação atual, não é mesmo? —
Etherias se aproximava lentamente, confiante de sua vitória. Tess
não conseguia mover nenhum músculo, e todo o seu corpo parecia
querer afundar nas trevas da inconsciência, mas esse não era um
luxo permitido.
— Etherias, eu te dei todas as
chances de fugir. Eu te dei todas as oportunidades para que você se
salvasse, mas agora minha paciência acabou. Eu sinto muito, mas você
não me deixa escolha.
E do nada, tudo mudou. Todo o
espaço desapareceu e o tempo não fluía mais. Tudo parecia ter sido
deixado para trás, como se aquela realidade não fosse mais a versão
original, e sim apenas uma cópia fajuta da verdade. Pela primeira
vez em sua existência, Etherias sentiu medo. Medo de ser esquecido,
medo de ser desacreditado, medo de desaparecer. Tess estava parado no
mesmo lugar, sem conseguir se mover, mas seus olhos eram incríveis,
resolutos, confiantes, furiosos. Naquele momento, Tess era absoluto.
— Eu, Tess Leon, a Criança
Primeva do Perigo, pelo poder do mago Periculum, estou te exilando,
banindo, ostracizando, execrando e maldizendo. Você não terá
passado, pois ninguém lembrará de você, não terá presente, pois
nenhum lugar irá te acolher, e não terá futuro, porque não
existirá mais. Aetherius Void!
E se concretizou. Äter
Ausgehungert se viu preso em uma falha da existência, onde não
havia energia para comer. Seus poderes eram inúteis ali, e agora era
ele quem estava sozinho, e se via cada vez mais aterrorizado,
enquanto a lembrança de que fora colocado ali por Tess Leon, a
criança que subestimara e desacreditara, se tornava cada vez mais
fraca e distante. Claro que aquilo não o mataria, que ele não seria
destruído pela sua falha, mas agora o erro que ele cometera,
cobraria o preço mais caro que se podia pensar.
׆††×
O livro de Calixto mudou
repentinamente, reescrevendo toda história e o futuro do mundo, com
uma velocidade assustadora. As letras se embaralhavam, tentando
encontrar uma forma de organizar seus pensamentos de forma que
condize-se com a linha do tempo atual a ser descrita, mas a realidade
parecia simplesmente impossível de descrever. Era como um cubo
mágico de 7 cubos: impossível de decifrar em pouco tempo. Calixto
apenas observava o livro trabalhar, maravilhado com o que via,
absorvendo cada grama de informação que podia, mesmo que parecesse
bobagem.
— Ah, então você também
pode alterar as linhas do tempo? — disse o velho, hipnotizado com a
beleza que o livro mostrava — Interessante. Vamos ver como você
procede agora, criança.

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