sexta-feira, 18 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Niel Razia — Macabras Teorias

Niel Razia era conhecido como Brokenhawk por vários motivos, mas nenhum deles incluía ser sequestrado para o Abismo duas vezes seguidas. Era impressionante sua incompetência para assuntos que envolviam a purificação, como era aquele trabalho puro e simples. Ele deveria pelo menos ter ido para o Abismo descobrir informações sobre o Quartzo Fantasma que a Insanidade carregava, mas tudo tinha sido em vão. Que droga! A raiva e a frustração o impediam de pensar claramente e as marcas de maus tratos que tinha sofrido enquanto estava nas garras de Lilith ainda doíam com intensidade aumentada pela vergonha.
Deitado em seus aposentos no Hall di Angelo, Niel pensava sobre como faria para recuperar suas forças e reiniciar sua busca. Certamente seu poder de Banimento seria algo de extrema importância contra aquela coisa. Do pouco que sabia, o Quartzo Fantasma tinha a habilidade de contra-atacar perfeitamente qualquer outro artefato mágico que existe. O poder de nulificação que aquela pedra tinha era absurdo, mas não era apenas isso. Quartzo Fantasma era um dos artefatos mais antigos e mais perigosos que existiam em toda a Ahtrim Ayon, por motivos até então desconhecidos.
Lilith dissera para ele que o poder daquela pedra era fundamentalmente trino. A capacidade de nulificar qualquer tipo de poder, a de contra-atacar qualquer tipo de poder e a de controlar qualquer tipo de poder. Isso ainda não explicava porque a Insanidade queria aquela pedra. Ainda não explicava porque o Aspecto queria tanto domar aqueles poderes, quando ele mesmo já podia controlar a probabilidade de todos os eventos do mundo. Dominar os segredos daquele artefato significaria uma maneira de contra-atacar qualquer poder existente nessa dimensão. Algo não se encaixava.
Você nunca entra em combate direto, Pierrot. O que está planejando ao usar o Quartzo Fantasma? Porque está se preparando para uma guerra? — a cabeça de Niel estava a mil por hora, incapaz de parar no mesmo lugar e respirar de maneira compassada e calmante. Sua única asa negra se remexia em suas costas, mostrando a agonia interna que assolava suas suposições, com teorias mais macabras do que antes.
O maquinário de seu cérebro já estava fumegando e as engrenagens já estavam dando pane com aquele brainstorm agonizante que ele sofria. A Insanidade por si só tinha a habilidade de se unir ao seu Receptáculo, um ser humano que surgia uma vez a cada 10 anos e era compatível para que ela habitasse dentro de seu corpo, geralmente apresentando uma grave deficiência mental, como esquizofrenia ou psicopatia. Era a mesma coisa com a Barbárie e a Decadência, assim como o mesmo princípio se afirmava para a Esperança, a Lealdade e a Inocência. O Silêncio era especial, pois ele não tinha um Receptáculo e nem um Atame, mas não precisava disso por ser superior aos outros Aspectos e até mesmo aos deuses.
Ah, os Atames. Eles eram ainda mais misteriosos do que os próprios Receptáculos. Um Atame é formado cada vez que uma pessoa desiste ou usa seu poder para expulsar um Aspecto. Diferentemente dos Receptáculos, eles podem escolher qual dos extremos opostos ele vai banir, se a Esperança ou a Insanidade; a Inocência, ou a Barbárie; a Decadência ou a Lealdade. Existiam apenas 3 em toda a Ahtrim Ayon, e cada vez que havia uma desistência, outra pessoa recebia o poder em algum canto do universo. O curioso é que os Atames sempre terão uma relação com os Receptáculos, mesmo sem saber.
Seria tão mais simples se fosse qualquer outro o seu inimigo, mas não. Era a porra da Insanidade, o único Aspecto completamente imprevisível, que ninguém poderia saber o que estava tramando. A Insanidade era capaz de fazer qualquer pessoa ficar demente apenas olhando nos olhos, condenando a mesma a um eterno pesadelo sem qualquer limite de torturas, mas não, ela nunca faria isso. Ela preferia seus métodos escusos e obscuros, onde ninguém jamais conseguia prever com exatidão onde estava pisando. Quando a Insanidade tinha invadido a cidade dos Artistas, ela estava justamente a procura do Quartzo Fantasma, mas disfarçou isso com perfeição, fazendo todos de tolos ao pensarem que estava realizando o Ritual dos Corpos.
Ele provavelmente achou o Quartzo muito antes de começar a explodir pontos importantes da cidade, mas ele manteve a farsa e explodiu locais de suma importância e outros nem tanto apenas para disfarçar, enquanto achava o Quartzo e se conseguisse realmente fazer tudo funcionar, o Ritual dos Corpos poderia ser feito, consolidando aqueles corpos como os novos Aspectos, e seria muito mais do que impossível derrotá-los. Qualquer um poderia dizer que ele estava apenas de olho no Ritual, mas depois que se conhece o poder do Quartzo, entende-se que ele poderia usar o poder do Quartzo sem precisar de um corpo para se manifestar.
Você não é burro, Niel, pense! Aquele cara está brincando com sua cabeça, te pregando peças e te fazendo ver coisas que não estão ali. Isso não é a verdade, existe algo por trás. Algo que ninguém esta vendo! Pense, Niel, o que você está deixando passar? — o anjo esfregava as têmporas, como se forçasse o fluxo de sangue para o cérebro, como se isso ajudasse a ter uma ideia para salvar o mundo. Estava tão perturbado que uma batida na porta o desconcentrou a tal ponto que gritou de espanto e frustração, num misto de urro e silvo.
Uma garota de cabelos rosa e pele clara entrou correndo, vestindo uma camisola preta. Seus olhos estavam fundos e marcados de maneira profunda pelas olheiras de quem não dormia a semanas. Daisy deveria ter apenas 20 anos, idade a qual não deveria ter nenhuma preocupação a não ser dançar feliz nos bailes promovidos por aquela zona. Mas invés disso, estava presa naquela casa, cuidando do pai que passaram tanto tempo nas garras de uma tirana que comandava o abismo, e agora nem dormir podia se dar ao luxo, pois seu pai quase todas as noites acordava gritando e atacando tudo e todos, um perigo para si mesmo e para quem estivesse por perto. Daisy passara rapidamente de criança para guardiã de Hall di Angelo e babá de seu pai, e isso era desgastante.
Pai, você tá bem? Aconteceu alguma coisa? Você parece… Estressado. — a boca de Daisy coçou para não dizer que ele parecia a beira de um ataque de nervos — Eu vim apenas avisar que o jantar está pronto. Venha jantar e conversar comigo, pai. Você precisa.
E a menina saiu do quarto, deixando o pai com a face ligeiramente rosada de vergonha. A que ponto o homem dentro dele era inútil? A mãe de Daisy morria e em vez de tomar conta da filha, era ela quem tomava conta dele cada dia mais. Envergonhado com esse fato, Niel faz sua higiene e desce para jantar e conversar com sua filha. Um pai precisa estar presente para a família, e nesse momento, ela precisava dele com todas as forças, com certeza menos do que ele precisava dela, mas ainda assim.
O cheiro de carne cozida temperada encheu o ar da cozinha, junto com o cheiro de batatas crocantes e amanteigadas, bolinhos de arroz recheados de pasta de feijão. O jantar prosseguiu agradável e leve, como uma verdadeira refeição em família, solitária talvez, mas, com certeza, algo que ele já não tinha ha tempos, e agora ele podia saborear. Lembrou-se de sua finada esposa, conversando com ele sobre as bobagens de sempre e em como sua filha lembrava a mesma com uma semelhança incrível. Ela tinha tanto poder latente, tanta resiliência e maturidade, era o exemplo perfeito de um líder que não seria derrubado.

Daisy percebeu seu pai a encarando com olhos ternos e perdidos em devaneios. Sorriu para si mesma, lembrando quanto tempo o olhar de seu pai não se perdia desse jeito, mas logo tudo caiu por terra. O sorriso se apagou e virou uma boca trêmula como se alguém tivesse falado algo feito para machucar. Os olhos que antes carregavam ternura e amor, agora estavam cheios de horror e paranoia, e a expressão congelada com a ideia apavorante do fim do mundo. Daisy sabia que isso era um dos ataques de terror noturno, mas agora, seu pai estava acordado. 

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