Niel Razia era
conhecido como Brokenhawk por vários motivos, mas nenhum deles
incluía ser sequestrado para o Abismo duas vezes seguidas. Era
impressionante sua incompetência para assuntos que envolviam a
purificação, como era aquele trabalho puro e simples. Ele deveria
pelo menos ter ido para o Abismo descobrir informações sobre o
Quartzo Fantasma que a Insanidade carregava, mas tudo tinha sido em
vão. Que droga! A raiva e a frustração o impediam de pensar
claramente e as marcas de maus tratos que tinha sofrido enquanto
estava nas garras de Lilith ainda doíam com intensidade aumentada
pela vergonha.
Deitado em seus
aposentos no Hall di Angelo, Niel pensava sobre como faria para
recuperar suas forças e reiniciar sua busca. Certamente seu poder de
Banimento seria algo de extrema importância contra aquela coisa. Do
pouco que sabia, o Quartzo Fantasma tinha a habilidade de
contra-atacar perfeitamente qualquer outro artefato mágico que
existe. O poder de nulificação que aquela pedra tinha era absurdo,
mas não era apenas isso. Quartzo Fantasma era um dos artefatos mais
antigos e mais perigosos que existiam em toda a Ahtrim Ayon, por
motivos até então desconhecidos.
Lilith dissera
para ele que o poder daquela pedra era fundamentalmente trino. A
capacidade de nulificar qualquer tipo de poder, a de contra-atacar
qualquer tipo de poder e a de controlar qualquer tipo de poder. Isso
ainda não explicava porque a Insanidade queria aquela pedra. Ainda
não explicava porque o Aspecto queria tanto domar aqueles poderes,
quando ele mesmo já podia controlar a probabilidade de todos os
eventos do mundo. Dominar os segredos daquele artefato significaria
uma maneira de contra-atacar qualquer poder existente nessa dimensão.
Algo não se encaixava.
— Você nunca
entra em combate direto, Pierrot. O que está planejando ao usar o
Quartzo Fantasma? Porque está se preparando para uma guerra? — a
cabeça de Niel estava a mil por hora, incapaz de parar no mesmo
lugar e respirar de maneira compassada e calmante. Sua única asa
negra se remexia em suas costas, mostrando a agonia interna que
assolava suas suposições, com teorias mais macabras do que antes.
O maquinário
de seu cérebro já estava fumegando e as engrenagens já estavam
dando pane com aquele brainstorm agonizante que ele sofria. A
Insanidade por si só tinha a habilidade de se unir ao seu
Receptáculo, um ser humano que surgia uma vez a cada 10 anos e era
compatível para que ela habitasse dentro de seu corpo, geralmente
apresentando uma grave deficiência mental, como esquizofrenia ou
psicopatia. Era a mesma coisa com a Barbárie e a Decadência, assim
como o mesmo princípio se afirmava para a Esperança, a Lealdade e a
Inocência. O Silêncio era especial, pois ele não tinha um
Receptáculo e nem um Atame, mas não precisava disso por ser
superior aos outros Aspectos e até mesmo aos deuses.
Ah, os Atames.
Eles eram ainda mais misteriosos do que os próprios Receptáculos.
Um Atame é formado cada vez que uma pessoa desiste ou usa seu poder
para expulsar um Aspecto. Diferentemente dos Receptáculos, eles
podem escolher qual dos extremos opostos ele vai banir, se a
Esperança ou a Insanidade; a Inocência, ou a Barbárie; a
Decadência ou a Lealdade. Existiam apenas 3 em toda a Ahtrim Ayon, e
cada vez que havia uma desistência, outra pessoa recebia o poder em
algum canto do universo. O curioso é que os Atames sempre terão uma
relação com os Receptáculos, mesmo sem saber.
Seria tão mais
simples se fosse qualquer outro o seu inimigo, mas não. Era a porra
da Insanidade, o único Aspecto completamente imprevisível, que
ninguém poderia saber o que estava tramando. A Insanidade era capaz
de fazer qualquer pessoa ficar demente apenas olhando nos olhos,
condenando a mesma a um eterno pesadelo sem qualquer limite de
torturas, mas não, ela nunca faria isso. Ela preferia seus métodos
escusos e obscuros, onde ninguém jamais conseguia prever com
exatidão onde estava pisando. Quando a Insanidade tinha invadido a
cidade dos Artistas, ela estava justamente a procura do Quartzo
Fantasma, mas disfarçou isso com perfeição, fazendo todos de tolos
ao pensarem que estava realizando o Ritual dos Corpos.
Ele
provavelmente achou o Quartzo muito antes de começar a explodir
pontos importantes da cidade, mas ele manteve a farsa e explodiu
locais de suma importância e outros nem tanto apenas para disfarçar,
enquanto achava o Quartzo e se conseguisse realmente fazer tudo
funcionar, o Ritual dos Corpos poderia ser feito, consolidando
aqueles corpos como os novos Aspectos, e seria muito mais do que
impossível derrotá-los. Qualquer um poderia dizer que ele estava
apenas de olho no Ritual, mas depois que se conhece o poder do
Quartzo, entende-se que ele poderia usar o poder do Quartzo sem
precisar de um corpo para se manifestar.
— Você não
é burro, Niel, pense! Aquele cara está brincando com sua cabeça,
te pregando peças e te fazendo ver coisas que não estão ali. Isso
não é a verdade, existe algo por trás. Algo que ninguém esta
vendo! Pense, Niel, o que você está deixando passar? — o anjo
esfregava as têmporas, como se forçasse o fluxo de sangue para o
cérebro, como se isso ajudasse a ter uma ideia para salvar o mundo.
Estava tão perturbado que uma batida na porta o desconcentrou a tal
ponto que gritou de espanto e frustração, num misto de urro e
silvo.
Uma garota de
cabelos rosa e pele clara entrou correndo, vestindo uma camisola
preta. Seus olhos estavam fundos e marcados de maneira profunda pelas
olheiras de quem não dormia a semanas. Daisy deveria ter apenas 20
anos, idade a qual não deveria ter nenhuma preocupação a não ser
dançar feliz nos bailes promovidos por aquela zona. Mas invés
disso, estava presa naquela casa, cuidando do pai que passaram tanto
tempo nas garras de uma tirana que comandava o abismo, e agora nem
dormir podia se dar ao luxo, pois seu pai quase todas as noites
acordava gritando e atacando tudo e todos, um perigo para si mesmo e
para quem estivesse por perto. Daisy passara rapidamente de criança
para guardiã de Hall di Angelo e babá de seu pai, e isso era
desgastante.
— Pai, você
tá bem? Aconteceu alguma coisa? Você parece… Estressado. — a
boca de Daisy coçou para não dizer que ele parecia a beira de um
ataque de nervos — Eu vim apenas avisar que o jantar está pronto.
Venha jantar e conversar comigo, pai. Você precisa.
E a menina saiu
do quarto, deixando o pai com a face ligeiramente rosada de vergonha.
A que ponto o homem dentro dele era inútil? A mãe de Daisy morria e
em vez de tomar conta da filha, era ela quem tomava conta dele cada
dia mais. Envergonhado com esse fato, Niel faz sua higiene e desce
para jantar e conversar com sua filha. Um pai precisa estar presente
para a família, e nesse momento, ela precisava dele com todas as
forças, com certeza menos do que ele precisava dela, mas ainda
assim.
O cheiro de
carne cozida temperada encheu o ar da cozinha, junto com o cheiro de
batatas crocantes e amanteigadas, bolinhos de arroz recheados de
pasta de feijão. O jantar prosseguiu agradável e leve, como uma
verdadeira refeição em família, solitária talvez, mas, com
certeza, algo que ele já não tinha ha tempos, e agora ele podia
saborear. Lembrou-se de sua finada esposa, conversando com ele sobre
as bobagens de sempre e em como sua filha lembrava a mesma com uma
semelhança incrível. Ela tinha tanto poder latente, tanta
resiliência e maturidade, era o exemplo perfeito de um líder que
não seria derrubado.
Daisy percebeu
seu pai a encarando com olhos ternos e perdidos em devaneios. Sorriu
para si mesma, lembrando quanto tempo o olhar de seu pai não se
perdia desse jeito, mas logo tudo caiu por terra. O sorriso se apagou
e virou uma boca trêmula como se alguém tivesse falado algo feito
para machucar. Os olhos que antes carregavam ternura e amor, agora
estavam cheios de horror e paranoia, e a expressão congelada com a
ideia apavorante do fim do mundo. Daisy sabia que isso era um dos
ataques de terror noturno, mas agora, seu pai estava acordado.

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