— ISSO
É INSANO, DESNECESSÁRIO, IMPOSSÍVEL E CRUEL! EU NUNCA CONCORDAREI
COM ISSO, SUA LOUCA! VOCÊ ESTÁ ME PEDINDO ALGO QUE EU JAMAIS FAREI,
QUE EU JAMAIS ACEITAREI, E PARE DE SORRIR COMO SE FOSSE ALGO FOFO
ISSO, VOCÊ NÃO TEM NOÇÃO DO SOFRIMENTO QUE CAUSARIA! — Tess
gritava com sua irmã, gesticulando muito e muito rápido, enquanto
andava de um lado para o outro dentro da sala da Papisa. Kallynka
estava sorridente e com uma expressão entristecida e terna, vendo o
seu irmão tão querido passar por uma decisão tão difícil,
apesar de já ter sido tomada.
— É
melhor para todos nós, Tess. Você precisa se tornar mais forte, ter
mais poder. As coisas estão caindo por terra a todo momento, e
somente você pode concertar tudo.
— Eu
não preciso de mais poder, criatura! Eu sou invencível, meu poder
não conhece limites! Não existe uma única razão para eu ter que
absorver seus poderes, e mesmo que tivesse, você sabe que eu não o
faria! —
o garoto de olhos verdes estava tendo a paciência testada aquele
dia. Primeiro seu irmão mais novo lhe surrava em praça pública e
ele não podia fazer nada contra isso. Depois seu irmão caçula, que
desapareceu por quase dois anos ao saber que era o deus primordial
reencarnado, era trazido de volta do mundo dos mortos para fazer
sabe-se lá o que numa cidade em guerra e agora sua irmã, sua única
amiga pedia que tirasse seu coração do peito e o coma.
— Você
é forte, mas não é tão forte quanto deveria ser. Quanto mais
forte você ficar, mais fácil se torna a batalha final que você
está destinado a vencer, e eu quero ajudar minha família de alguma
forma! Você não pode me impedir de querer ajudar as pessoas que eu
amo, principalmente a família que me acolheu desde que eu era um
bebê largado no mundo! — Kallynka tinha o rosto vermelho e um
sorriso triste no rosto. Ela já tinha entendido que a própria vida
não significava nada diante da salvação de toda a Ahtrim Ayon,
então que se exploda.
E
realmente explodiu. A porta se abriu enquanto seu irmão mais novo
entrava porta adentro carregando uma expressão mista de ódio e dor.
Kallynka e Tess nem se deram ao trabalho de olhar, e o seu irmão
mais velho continuou tecendo um rosário de desculpas e impropérios
que qualquer criança normal teria ficado com medo, mas não Illyria.
Quando
percebeu a criança mancando e disfarçando a dor que sentia na perna
pelo chute, quase caiu na gargalhada, porém, manteve a expressão
serena e pacífica.
— Eu
não preciso de curativos! Eu e minha perna estamos perfeitamente
bem! — o menino loiro falou com uma voz fina que obviamente
declarava a dor que ele estava sentindo. Illyaria ainda assim
caminhou pelo escritório da Papisa e subiu na mesa, sentando-se com
as pernas cruzadas. — O que os dois estão discutindo? Eu não
ouvia o Tess gritando assim desde quando o Stanley pisoteou ele
depois descobrir quem tinha comido as barrinhas de chocolate com
recheio de céu azul e cobertura de granulado crocante.
— Em
minha defesa, tinha sido um dia longo e exaustivo, e eu não comia
fazia semanas! E como você sabe disso, de qualquer maneira, você
não era nem nascido! — Tess esbravejou com o menino. A resposta
foi apenas um olhar sarcástico, com uma
dose de ironia cobrindo. Tess sabia a resposta, assim como Illyria
sabia exatamente o que eles estavam conversando, só
não queria saber mais.
— Ora,
pelo amor dos deuses, eu não tenho tempo para isso! Preciso fazer
milhares de coisas, e o cabeça oca do Stanley parece que não vai
deixar eu sair da cidade até ter tomado o chá das cinco com
biscoito com nossos pais! Vocês dois, o que diabos estão fazendo
aqui? Você precisa governar uma cidade e você precisar ir embora
dessa cidade o quanto antes, senão ela vai notar sua presença! —
o garoto dos olhos verdes continuava falando e gritando sobre uma
possível catástrofe.
— Tess,
nós dois sabemos onde isso vai terminar… Eu já aceitei minha
parte nesse acordo, porque você não aceita a sua também? —
Kallynka pegou seu irmão mais novo no colo e o abraçou como se
fosse a última vez que sentia aquela criança perto de si. Queria
ter tido mais tempo com seus pais, seus irmãos, mas ela sabia que
tempo era tudo o que eles não tinham.
׆††×
Kallynka entrou
pela última vez em seu escritório. Os adornos em marfim e
alabastro, as colunas de pedra cinza prata e os moveis de madeira
clara. Tudo parecia refletir um local de paz e tranquilidade absoluta
para quem entrava como visitante, mas para ela, aquilo tinha se
tornado o símbolo do peso que carregava em suas costas, assim como o
peso de seus atos para com todos os cidadãos daquele local. Tess
facilmente poderia acabar com tudo e todos ali se estivesse do lado
errado da lei, e por isso a ruiva se sacrificava para que todos
pudessem ser felizes.
— Está
atrasada! A cidade está um caos e Illyria despertou mais cedo por
sua causa! Os deuses estão todos em polvorosa e já começaram a
surgir novos Marcados. Olha o que você está fazendo com sua cidade!
Todas essas pessoas estão aqui se apoiando na sua figura política e
religiosa e você está simplesmente abandonando tudo e dando as
costas ao seu povo! Kallynka, essa pode ser sua última chance.
Desista de me ajudar e ajude aqueles que estão próximos a você. —
Tess surgira no canto da sala, com os olhos furiosos e a boca
comprimida numa linha tênue entre o grito de dor e o urro de ódio.
— Eu não
estou desistindo de nada, Tess. Ninguém aqui vai sofrer com minha
ida. Depois que você arrancar meu coração e eu tiver morrido, meus
poderes serão completamente seus. Além do mais, parte de mim estará
sempre nessa cidade e com todos aqueles que aqui estão. — Kallynka
mantinha o rosto sereno, mas fechou os olhos, tentando evitar que as
lágrimas que sentia chegar realmente saíssem de seus olhos. — Eu
sei que é difícil pra você entender que eu estou fazendo isso por
amor, mas acredite, irmão… Eu jamais abdicaria da minha vida se
não fosse para o bem maior, então, eu não estou pronta para
desistir. Agora, vamos fazer isso logo, antes que você mude de
ideia.
Tess
movimentou-se de seu canto, suas mãos envoltas por uma aura de pura
energia branca como a lua. Garras se projetavam e a energia flamulava
pelos antebraços como uma chama. Aquele poder poderia ser sentido em
qualquer lugar da galáxia, mas o menino tomou cuidado para não se
tornar sensível em outros locais. Seu rosto agora não estava mais
uma obra-prima de sofrimento e amargura, pois por sua irmã, a última
coisa que ela veria do mesmo seria a serenidade. Seus passos
avançavam lentamente sobre o chão, com imensos mosaicos trabalhados
com diversas pedras polidas com várias cores. Quando finalmente
estava frente a frente com ela, próximo o suficiente para não
errar, uma lágrima escorreu do seu olho e ele não fez esforço
algum para contê-la. Kallynka abriu os olhos e sorriu para seu
irmão, enquanto sua mão enxugava a lágrima caída e tocava o rosto
dele.
— Eu te amo,
Tess Leon. Eu estou fazendo isso por você, e eu não me arrependo de
deixar nada para trás. Eu te dou meu coração hoje, então, cuide
bem dele. — a ruiva escorregou a mão pelo rosto do seu irmão e
abriu o peito, mostrando o alvo claro. E Tess, com um movimento
rápido da mão, perfurou-lhe o peito, rasgando a carne e quebrando
as costelas até sentir o coração pulsante dentro dela, batendo
cada vez mais lentamente.
Um grito varreu
o local, fazendo a ruiva virar a cabeça junto do menino de olhos
verdes, e ao encarar a porta escancarada, Daisuke estava no arco da
porta, com uma expressão de horror, assim como Kallynka, que agora
sabia o tamanho do problema que tinha arrumado para Tess. Sua vontade
era chorar, explicar que tudo era um mal entendido, talvez até
subornar o garoto, mas seu coração já não batia, e Tess arrancou
o músculo de seu peito e a deixou cair no chão sem cerimônia,
desaparecendo do cômodo segundos antes dos heróis e de Illyria
verem aquela cena horrível.
׆††×
Logo depois que
Daisuke se teleportou daquela clareira da floresta, depois de receber
de forma nada legal as palavras de seu irmão, Tess permitiu que
Kallynka se aproximasse dele. A ruiva ainda estava se acostumando com
sua forma etérea de fantasma, quase como uma nova pessoa tem que se
adequar ao peso extra ou a altura extra que ganha em um piscar de
olhos. Ela parecia extremamente arrependida de ter que ver seu irmão
se obrigar a isso, mas também não se permitia ficar com pena, pois
tinha sido escolha dele não contar para ninguém sobre seu destino.
— Eu sei que
você vai dizer que eu deveria ter dito a verdade, mas acredite, é
bem mais fácil se eles me odiarem, Kallynka. Não conversarei sobre
isso com você nem agora nem nunca, então apenas desista. — Tess
estava fazendo um esforço tremendo para permanecer em pé, mas seu
corpo todo tremia e sua voz estava embargada. Kallynka queria
desesperadamente abraçá-lo e consolá-lo. Permitir que seus braços
fossem um porto seguro para aquela pobre alma desabar e chorar todas
as suas tristezas e desgraças, mas estava impedida pela
incorporeidade de seu ser.
— Vá embora,
Kallynka! Existe outro lugar que precisa de você agora, e eu não
vou permitir que você fique aqui quando pode ajudar em outros
locais. Vai logo, eu me viro por aqui! — e com um aceno da mão,
Tess faz a mesma se deslocar daquele local para onde ela nunca mais
poderia sair. Apesar de estar desorientada, teve reflexos o
suficiente para desviar de uma flecha que passou silvando sobre sua
orelha, com certeza deixando uma mecha no chão.
Sem perder
tempo, a ruiva começa a correr e fintar, enquanto faz uma breve
prece e um báculo dourado aparece em sua mão. Mais uma saraivada de
flechas são disparadas em sua direção, que ela prontamente se
desvia com fintas e acrobacias, ou apenas rebate com o báculo. Agora
ela conseguia ver claramente: atrás de uma construção destruída
de pedras negras como ônix e cinzas vulcânicas, dois homens estava
mirando na mesma com balestras de guerra. Com apenas um salto
acrobático que teria quebrado o pescoço e a coluna de muita gente,
Kallynka se joga para detrás do muro e desarma os dois homens com um
movimento rápido e preciso do báculo.
Os dois se
entreolham e percebem que é melhor fugir o quanto antes. A Papisa
apenas deixa que isso aconteça e começa novamente a apreciar o
local. O céu era coberto por nuvens brancas como algodão e tão
macias quanto. Não era preciso caminhar por ali, apenas flutuar e as
construções eram todas feitas de ônix polido e o ar parecia
carregar uma poeira de cinzas vulcânicas que fazia o pulmão arder
no começo, mas depois enchia seu espírito com vitalidade e forças.
Havia também certas nuances de dourado e azul-claro no local tirando
a monotonia de cores dicromáticas, o que tornava o lugar lindo e
interessante.
— Estava
esperando por você, Kally fofucha! — um homem alto com barba e
cabelos louros e olhos bem verdes, contrastando com a pele pálida e
vestindo um uma camisa xadez azul, camisa branca e calça jeans, all
star e uma bandana na cabeça, literalmente pula em cima da ruiva a
abraçando forte e a derrubando no chão. — E aí? Gostando de
Torinoko City?
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