terça-feira, 22 de março de 2016

Ahtrim Ayon — Kallynka Hakway — Lágrimas de Amor

 ISSO É INSANO, DESNECESSÁRIO, IMPOSSÍVEL E CRUEL! EU NUNCA CONCORDAREI COM ISSO, SUA LOUCA! VOCÊ ESTÁ ME PEDINDO ALGO QUE EU JAMAIS FAREI, QUE EU JAMAIS ACEITAREI, E PARE DE SORRIR COMO SE FOSSE ALGO FOFO ISSO, VOCÊ NÃO TEM NOÇÃO DO SOFRIMENTO QUE CAUSARIA! — Tess gritava com sua irmã, gesticulando muito e muito rápido, enquanto andava de um lado para o outro dentro da sala da Papisa. Kallynka estava sorridente e com uma expressão entristecida e terna, vendo o seu irmão tão querido passar por uma decisão tão difícil, apesar de já ter sido tomada.
É melhor para todos nós, Tess. Você precisa se tornar mais forte, ter mais poder. As coisas estão caindo por terra a todo momento, e somente você pode concertar tudo.
Eu não preciso de mais poder, criatura! Eu sou invencível, meu poder não conhece limites! Não existe uma única razão para eu ter que absorver seus poderes, e mesmo que tivesse, você sabe que eu não o faria! — o garoto de olhos verdes estava tendo a paciência testada aquele dia. Primeiro seu irmão mais novo lhe surrava em praça pública e ele não podia fazer nada contra isso. Depois seu irmão caçula, que desapareceu por quase dois anos ao saber que era o deus primordial reencarnado, era trazido de volta do mundo dos mortos para fazer sabe-se lá o que numa cidade em guerra e agora sua irmã, sua única amiga pedia que tirasse seu coração do peito e o coma.
Você é forte, mas não é tão forte quanto deveria ser. Quanto mais forte você ficar, mais fácil se torna a batalha final que você está destinado a vencer, e eu quero ajudar minha família de alguma forma! Você não pode me impedir de querer ajudar as pessoas que eu amo, principalmente a família que me acolheu desde que eu era um bebê largado no mundo! — Kallynka tinha o rosto vermelho e um sorriso triste no rosto. Ela já tinha entendido que a própria vida não significava nada diante da salvação de toda a Ahtrim Ayon, então que se exploda.
E realmente explodiu. A porta se abriu enquanto seu irmão mais novo entrava porta adentro carregando uma expressão mista de ódio e dor. Kallynka e Tess nem se deram ao trabalho de olhar, e o seu irmão mais velho continuou tecendo um rosário de desculpas e impropérios que qualquer criança normal teria ficado com medo, mas não Illyria. Quando percebeu a criança mancando e disfarçando a dor que sentia na perna pelo chute, quase caiu na gargalhada, porém, manteve a expressão serena e pacífica.
Eu não preciso de curativos! Eu e minha perna estamos perfeitamente bem! — o menino loiro falou com uma voz fina que obviamente declarava a dor que ele estava sentindo. Illyaria ainda assim caminhou pelo escritório da Papisa e subiu na mesa, sentando-se com as pernas cruzadas. — O que os dois estão discutindo? Eu não ouvia o Tess gritando assim desde quando o Stanley pisoteou ele depois descobrir quem tinha comido as barrinhas de chocolate com recheio de céu azul e cobertura de granulado crocante.
Em minha defesa, tinha sido um dia longo e exaustivo, e eu não comia fazia semanas! E como você sabe disso, de qualquer maneira, você não era nem nascido! — Tess esbravejou com o menino. A resposta foi apenas um olhar sarcástico, com uma dose de ironia cobrindo. Tess sabia a resposta, assim como Illyria sabia exatamente o que eles estavam conversando, só não queria saber mais.
Ora, pelo amor dos deuses, eu não tenho tempo para isso! Preciso fazer milhares de coisas, e o cabeça oca do Stanley parece que não vai deixar eu sair da cidade até ter tomado o chá das cinco com biscoito com nossos pais! Vocês dois, o que diabos estão fazendo aqui? Você precisa governar uma cidade e você precisar ir embora dessa cidade o quanto antes, senão ela vai notar sua presença! — o garoto dos olhos verdes continuava falando e gritando sobre uma possível catástrofe.
Tess, nós dois sabemos onde isso vai terminar… Eu já aceitei minha parte nesse acordo, porque você não aceita a sua também? — Kallynka pegou seu irmão mais novo no colo e o abraçou como se fosse a última vez que sentia aquela criança perto de si. Queria ter tido mais tempo com seus pais, seus irmãos, mas ela sabia que tempo era tudo o que eles não tinham.

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Kallynka entrou pela última vez em seu escritório. Os adornos em marfim e alabastro, as colunas de pedra cinza prata e os moveis de madeira clara. Tudo parecia refletir um local de paz e tranquilidade absoluta para quem entrava como visitante, mas para ela, aquilo tinha se tornado o símbolo do peso que carregava em suas costas, assim como o peso de seus atos para com todos os cidadãos daquele local. Tess facilmente poderia acabar com tudo e todos ali se estivesse do lado errado da lei, e por isso a ruiva se sacrificava para que todos pudessem ser felizes.
Está atrasada! A cidade está um caos e Illyria despertou mais cedo por sua causa! Os deuses estão todos em polvorosa e já começaram a surgir novos Marcados. Olha o que você está fazendo com sua cidade! Todas essas pessoas estão aqui se apoiando na sua figura política e religiosa e você está simplesmente abandonando tudo e dando as costas ao seu povo! Kallynka, essa pode ser sua última chance. Desista de me ajudar e ajude aqueles que estão próximos a você. — Tess surgira no canto da sala, com os olhos furiosos e a boca comprimida numa linha tênue entre o grito de dor e o urro de ódio.
Eu não estou desistindo de nada, Tess. Ninguém aqui vai sofrer com minha ida. Depois que você arrancar meu coração e eu tiver morrido, meus poderes serão completamente seus. Além do mais, parte de mim estará sempre nessa cidade e com todos aqueles que aqui estão. — Kallynka mantinha o rosto sereno, mas fechou os olhos, tentando evitar que as lágrimas que sentia chegar realmente saíssem de seus olhos. — Eu sei que é difícil pra você entender que eu estou fazendo isso por amor, mas acredite, irmão… Eu jamais abdicaria da minha vida se não fosse para o bem maior, então, eu não estou pronta para desistir. Agora, vamos fazer isso logo, antes que você mude de ideia.
Tess movimentou-se de seu canto, suas mãos envoltas por uma aura de pura energia branca como a lua. Garras se projetavam e a energia flamulava pelos antebraços como uma chama. Aquele poder poderia ser sentido em qualquer lugar da galáxia, mas o menino tomou cuidado para não se tornar sensível em outros locais. Seu rosto agora não estava mais uma obra-prima de sofrimento e amargura, pois por sua irmã, a última coisa que ela veria do mesmo seria a serenidade. Seus passos avançavam lentamente sobre o chão, com imensos mosaicos trabalhados com diversas pedras polidas com várias cores. Quando finalmente estava frente a frente com ela, próximo o suficiente para não errar, uma lágrima escorreu do seu olho e ele não fez esforço algum para contê-la. Kallynka abriu os olhos e sorriu para seu irmão, enquanto sua mão enxugava a lágrima caída e tocava o rosto dele.
Eu te amo, Tess Leon. Eu estou fazendo isso por você, e eu não me arrependo de deixar nada para trás. Eu te dou meu coração hoje, então, cuide bem dele. — a ruiva escorregou a mão pelo rosto do seu irmão e abriu o peito, mostrando o alvo claro. E Tess, com um movimento rápido da mão, perfurou-lhe o peito, rasgando a carne e quebrando as costelas até sentir o coração pulsante dentro dela, batendo cada vez mais lentamente.
Um grito varreu o local, fazendo a ruiva virar a cabeça junto do menino de olhos verdes, e ao encarar a porta escancarada, Daisuke estava no arco da porta, com uma expressão de horror, assim como Kallynka, que agora sabia o tamanho do problema que tinha arrumado para Tess. Sua vontade era chorar, explicar que tudo era um mal entendido, talvez até subornar o garoto, mas seu coração já não batia, e Tess arrancou o músculo de seu peito e a deixou cair no chão sem cerimônia, desaparecendo do cômodo segundos antes dos heróis e de Illyria verem aquela cena horrível.

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Logo depois que Daisuke se teleportou daquela clareira da floresta, depois de receber de forma nada legal as palavras de seu irmão, Tess permitiu que Kallynka se aproximasse dele. A ruiva ainda estava se acostumando com sua forma etérea de fantasma, quase como uma nova pessoa tem que se adequar ao peso extra ou a altura extra que ganha em um piscar de olhos. Ela parecia extremamente arrependida de ter que ver seu irmão se obrigar a isso, mas também não se permitia ficar com pena, pois tinha sido escolha dele não contar para ninguém sobre seu destino.
Eu sei que você vai dizer que eu deveria ter dito a verdade, mas acredite, é bem mais fácil se eles me odiarem, Kallynka. Não conversarei sobre isso com você nem agora nem nunca, então apenas desista. — Tess estava fazendo um esforço tremendo para permanecer em pé, mas seu corpo todo tremia e sua voz estava embargada. Kallynka queria desesperadamente abraçá-lo e consolá-lo. Permitir que seus braços fossem um porto seguro para aquela pobre alma desabar e chorar todas as suas tristezas e desgraças, mas estava impedida pela incorporeidade de seu ser.
Vá embora, Kallynka! Existe outro lugar que precisa de você agora, e eu não vou permitir que você fique aqui quando pode ajudar em outros locais. Vai logo, eu me viro por aqui! — e com um aceno da mão, Tess faz a mesma se deslocar daquele local para onde ela nunca mais poderia sair. Apesar de estar desorientada, teve reflexos o suficiente para desviar de uma flecha que passou silvando sobre sua orelha, com certeza deixando uma mecha no chão.
Sem perder tempo, a ruiva começa a correr e fintar, enquanto faz uma breve prece e um báculo dourado aparece em sua mão. Mais uma saraivada de flechas são disparadas em sua direção, que ela prontamente se desvia com fintas e acrobacias, ou apenas rebate com o báculo. Agora ela conseguia ver claramente: atrás de uma construção destruída de pedras negras como ônix e cinzas vulcânicas, dois homens estava mirando na mesma com balestras de guerra. Com apenas um salto acrobático que teria quebrado o pescoço e a coluna de muita gente, Kallynka se joga para detrás do muro e desarma os dois homens com um movimento rápido e preciso do báculo.
Os dois se entreolham e percebem que é melhor fugir o quanto antes. A Papisa apenas deixa que isso aconteça e começa novamente a apreciar o local. O céu era coberto por nuvens brancas como algodão e tão macias quanto. Não era preciso caminhar por ali, apenas flutuar e as construções eram todas feitas de ônix polido e o ar parecia carregar uma poeira de cinzas vulcânicas que fazia o pulmão arder no começo, mas depois enchia seu espírito com vitalidade e forças. Havia também certas nuances de dourado e azul-claro no local tirando a monotonia de cores dicromáticas, o que tornava o lugar lindo e interessante.

Estava esperando por você, Kally fofucha! — um homem alto com barba e cabelos louros e olhos bem verdes, contrastando com a pele pálida e vestindo um uma camisa xadez azul, camisa branca e calça jeans, all star e uma bandana na cabeça, literalmente pula em cima da ruiva a abraçando forte e a derrubando no chão. — E aí? Gostando de Torinoko City?

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