Rainha Elizabeth I
Ninguém entendia.
Nenhum deles era capaz de compreender. Como poderiam? Quem
ali tivera a mesma vida que ela? Quem ali fora rejeitado e perseguido por toda
a sua família? Não importava o que os livros de historia diziam. Ela sabia da
verdade. Ela era razão de sua nação ser o que era hoje. Ela vivera em uma corte
cheia de mentiras, tramas e traições, usando cada uma delas ao seu favor. Ela
fora violentada por um lorde que jurara protege-la. Ela se erguera como rainha,
em uma época que mulheres sequer tinham direito à voto. Ela assistira centenas
de vezes seus entes queridos sucumbirem um a um, enquanto permanecia para
sempre imutável entre as Moiras.
Mas não mais. Ao menos um ela conseguira livrar do maldito
circulo, após cerca de 7 milênios de trabalho duro e lealdade absoluta, seu
filho estava ali. Ela observou o adolescente com um sorriso amoroso que só uma
mãe poderia ter... O conhecimento da existência dele não perdurara. Ela sempre
fora demasiado cuidadosa... O único fruto de sua carne, e ilegítimo, filho do
único homem a quem se entregara por livre e espontânea vontade, Robert Dudley.
Quando se descobrira gravida sequer considerou abortar... Usou
vestidos que escondiam sua condição, e após o menino nascer sua existência fora
conhecida apenas pelos que a rainha de fato confiava... E fora justamente essa a
ruína dele. Sendo um bastardo sem direito ao trono, após a morte da mãe o rapaz
fora assassinado pelos homens que um dia foram de confiança de sua mãe,
subornados e temerosos da ideia de outra guerra civil.
Elizabeth assistira por milênios o rapaz morrer. Até o dia
que acumulara credito o suficiente para pedir às Moiras que o trouxessem à ela.
E assim elas fizeram, é claro que por interesses próprios. Com os únicos que
sabiam de sua existência acreditando que o rapaz morrera, seu único filho
tivera a oportunidade de viver por milênios, imutável, como ela. O preço era
alto, principalmente para ele, sendo jovem, belo e impetuoso. Mas ao menos eles
tinham um ao outro.
Charles Tudor Dudley não era um prisioneiro como
os demais, não fizera nada de errado, contudo não fora considerado digno de ser
um viajante, permanecendo como refém em Kronos Academy. Não portando um grilhão
no pescoço como os demais, e sim um único no pulso, que facilmente se confundia
a um bracelete.
- Mãe, por favor...
- É claro, pardon me,
contudo és tão belo adormecido – disse em um tom carinhoso e maternal, com seu
forte sotaque inglês.
Ele colocou o travesseiro no rosto como para se esconder.
Mesmo com milênios de existência permanecia um adolescente.
- Notastes os nossos recém-chegados? – questionou mudando de
assunto
- Sim – disse ele com um sorriso malicioso
A antiga rainha dirigiu uma olhar penetrante ao filho, um
olhar de claro aviso. O rapaz suspirou em concordância. Conhecia as regras,
embora não soubesse a historia completa. Elizabeth sabia. Tal como os demais
professores, os recém-chegados não eram desconhecidos. Tanto as Moiras como os
docentes haviam assistido às vidas de cada um com atenção, vendo os mesmos
velhos karmas se repetirem novamente.
Elizabeth olhava com o coração cheio de compaixão. Eles permaneciam
teimosos, mesmo após varias encarnações... Por que simplesmente não quebravam o
ciclo? Mas ela sabia a resposta.
Suspirou saudosamente. Houvera uma época que eles nada mais
eram do que uma família, grande e feliz. Harmoniosa e unida. Mas essa época
passara e jamais retornaria...
Então ela simplesmente fechou os olhos, até sentir o relógio
vibrar, e brilhar em um perigoso amarelo. Um paradoxo estava acontecendo.
*
A Sala do Tempo estava um caos, o que era tudo que as Moiras
mais abominavam. Um nó se formara na Tapeçaria das Linhas do Tempo, e este
brilhava incandescente, com uma luz forte o suficiente para cegar qualquer
criatura viva, exceto as deusas.
Átropos, com a aparência de uma senhora idosa procurava com
os olhos atentos por entre a tapeçaria algum fio que pudesse cortar para tornar
o procedimento mais fácil e rápido, ela não podia simplesmente talhar o fio,
pois este estava atado à dezenas de outros, que estavam atados à centenas, se o
fizesse toda a tapeçaria poderia entrar em colapso.
Cloto, a criança, tecia rapidamente novos fios, esperando
que novas peças pudessem impedir as ações de Paradoxo.
E Laquesis procurava por entre as agulhas. Não poderia usar
nenhuma das novas, eram cegas e longe de estarem prontas, as mais antigas eram
mais confiáveis. Contudo Elizabeth acabara de retornar de uma missão, poderia
não ter condições de lidar com o adversário. Deborah estava muito instável, não
traria respostas, mataria ou morreria no processo. Não que nenhuma delas se
importasse com as vidas de qualquer um dos seus hospedes. Mas mais do que tudo,
elas presavam seus próprios poderes, e paradoxos as limitavam, elas precisavam
de respostas.
A deusa, de aparência adulta e bela finalmente encontrou a
mais aconselhável, Annia. Caminhou em direção à Tapeçaria decidida, ao mesmo
tempo em que algum lugar da academia o relógio da professora ruiva brilhava
vermelho. Laquesis começou a desfazer o nó, era um processo delicado, ela não
podia desfiar o fio, ou as consequências seriam desastrosas. A vida de Annia
estava em suas mãos, da mesma forma que estabilidade do futuro estava nas mãos
da professora.
Horas se passavam lentamente, nenhuma das deusas falava, mas
todas estavam insatisfeitas. No momento, as três concentravam todo o seu poder
em desfazer o nó, se desviassem a atenção, ainda que por um milésimo de segundo
poderiam perder tudo. E era nesse momento, em que perdiam a onisciência que
alunos e professores aproveitavam para quebrar as regras, casais aproveitando
momentos de liberdade, alguns mal educados se referindo à elas de maneira pouco
educada, visitando família ou a si mesmos... Todos eles criavam pequenos nós na
tapeçaria, que sofrendo tanta atividade, acabariam por desfazer esses nos por
conta própria ao fim da crise.
Ainda assim, elas permaneciam furiosas. Suas regras eram
sagradas, não admitiam que fossem quebradas. O conhecimento de que estavam
sendo e não havia nada que nenhuma delas pudesse fazer não apenas as revoltava,
as tornava cegas de ódio.
*
Chuck aproveitava o momento para extravasar os hormônios.
Elizabeth contudo se dirigia em silencio ao local que sabia que Paradoxo
estaria... Eram apenas suspeita no inicio, mas agora ela sabia, como podia não
saber? E mesmo que fosse arriscado, ela não se importava, precisava de algumas
respostas.

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