O coração de Devon estava aos saltos quando um alerta surgiu na sua
IA particular, lhe chamando para a sala do professor Lawliet. Seu
coração parecia carregar um peso, como quando ele tinha despertado
no laboratório construindo uma bobina de Tezla a base de energia
mágica, com o objetivo de bugar a magia em toda a cidade. Devon se
sentia perdido em meio a tantos projetos destrutivos que estava
criando ultimamente, ainda mais por não conseguir se lembrar de
quando os criava.
O alerta no seu IA continuava apitando e Devon decidiu abrir a
mensagem e ver o que se tratava. Sua surpresa foi quando viu surgir a
cara do professor Lawliet, lhe olhando criticamente. Devon não
estava acostumado a ter os olhares críticos dos professores
direcionados para si, mas sentiu alguma satisfação ao ver o
professor me encarando como se eu fosse um pária que almeja a
destruição mundial.
— Senhor Ackles, solicito sua presença imediatamente na minha
sala. Preciso ter uma conversa a sós com você. — o holograma do
professor crocitou para Devon.
Com um arrepio na espinha, Devon começou a arrumar suas coisas para
não deixar que seus amigos de quarto perceberem o que ele estava
construindo inconscientemente. Não queria que ninguém ficasse
olhando torto para ele como quando lhe disseram que ele tinha criado
um exterminador de dados. Isso foi muito, muito tenso. Se não fosse
pelos três amigos, Devon poderia ter dado adeus a sua vaga no
Instituto. Com tudo já arrumando, ele deu alguns passos em direção
a porta, respirou fundo, abriu-a e desceu ao segundo andar.
— Yo, Devon. Você está indo aonde? Foi chamado na diretoria por
mais alguma palhaçada que você fez? — o sorriso irônico de Peter
guardava um pouco de compaixão. E ele era o que menos era compassivo
dos três.
— Haha, Pete. E sim, Lawliet quer me ver na sala dele,
provavelmente para me dar o prêmio de aluno do ano. Eu vou indo,
antes que ele me ligue de novo.
E se apressando, Devon começou a correr em direção a sala de aula
de criptografia. Já fazia anos que não ia até lá. Desde que era
uma criança e tivera aulas com Lawliet sobre os códigos e
critografias avançadas para se usar na internet. Programação tinha
sido bem mais fácil do que as últimas aulas do professor, como
Psicotecnomagia. Já sem fôlego, Devon alcançou a porta da sala de
aula cheia de computadores e mesas universitárias. Uma nostalgia se
abateu sobre ele, demonstrando que até mesmo os tempos ruins tinham
algo valioso. Ele abriu a porta, passando a mão nos cabelos rubros,
que outrora foram castanhos.
Lawliet o esperava já produzido na sua casualidade, como todo bom
professor holográfico. Ao vê-lo, alguma coisa se acendeu e apagou
em Devon, como se uma emoção muito negativa piscasse dentro dele,
emitindo uma poderosa e maligna onda de calafrios e sadismo. Ele
sentia aquele poder maligno pulsando, o mesmo poder que tinha tornado
seus cabelos vermelhos anos atrás. Contudo, o aluno manteve a
compostura de um lorde inglês e caminhou seguramente até seu
professor, tentando aparentar frieza.
— Desejava falar comigo, professor? — perguntou o ruivo, com um
sarcasmo adicionado contra a sua vontade na frase
— Certamente, sr. Ackles. Gostaria de saber um pouco mais sobre os
seus atos de vandalismo na escola, tanto para com os alunos quanto
para com os outros professores. — o professor acionou uma tela
holográfica e começou a passar vários vídeos e fotos de Devon
praticando atos de cunho predatório e maldoso.
Para seu horror, Devon viu que tinha destruído muito mais do que
coisas materiais. Coisas preciosas demais para serem reparadas. Mas
uma parte dele se animou e regozijou com tudo o que estava sendo
exposto. Algo podre e malévolo se revirou em suas entranhas,
deliciando-se com os absurdos cometidos. O menino sabia o que era.
Era o mesmo poder que tinha pego um pouco antes de entrar para o
Instituto, o mesmo que tinha salvo seus pais da morte. E agora ele
estava cobrando seu preço mais caro. Devon seu seus lábios se
contorcerem em um sorriso cruel, e mesmo que tentasse parar de
sorrir, seus músculos da face apenas doíam enquanto se via falando:
— Acha que eu me importo com esses fracos que não conseguem
segurar as lágrimas? Não, meu caro Lawliet. Eu não me importo com
nada disso. Você devia saber que eu só me importo com uma coisa,
afinal, você perdeu muito do que tinha para mim.
Lawliet percebeu nesse momento que Devon já ia longe de seu corpo.
Talvez nem estivesse consciente do que estava fazendo, e não tinha
escolha a não ser observar o que ocorria ao seu redor, como um mero
espectador. Estreitando os olhos quando para a presença assustadora
que se assomava a sua frente, o professor se preparou, assumindo seu
avatar. Ele iria se aproveitar de tudo o que os três patetas tinham
feito no primeiro trabalho deles, quando abriram a fenda.
— Sim, Degeneração. Você tirou muita coisa de mim. Você me
tirou Olivia, tirou meu corpo, mas foi por ter te banido que eu
cheguei aonde cheguei. Eu posso te banir quantas vezes eu quiser, e
você sabe disso.
Era um blefe, é claro. Lawliet perdera o poder necessário para
banir o Aspecto de volta para sua esfera. Assumir o controle da
CyberZone o deixara completamente invencível lá dentro, mas lhe
custara o preço de nunca mais fazer nada fora dela. Ele apenas
esperava que não precisasse recorrer à Terence e a seu poder
descomunal, mas faria de tudo para salvar Devon. Não permitiria que
ninguém mais sofresse o destino de sua querida Olivia.
Devon cresceu a olhos vistos em poucos minutos, formando a imagem da
Decadência: corpo desnutrido e pelancudo, pele doentia e dentes
podres. Uma presença esmagadora assolou os quilômetros próximos,
fazendo todos sentirem os efeitos da podridão interior assolando,
seja se afogando nos vícios, seja se degenerando biologicamente mais
rápido. Lawliet sentiu a placa de circuitos que o sustentava no
holoprojetor enfenrrujando lentamente, ficando cada vez mais
obsoleto.
— Você mente muito mal, meu caro Lawliet. Já faz muito tempo que
você não consegue mais me banir, nem ao menos me tocar. Eu sou a
degradação dos mundos, eu serei a causa de todo o fim, tanto das
raças quanto de seus legados. Você acha mesmo que um deus franzino
como você vai ser capaz de me deter sem ser um Atame?
E o professor sentiu a verdade nas palavras do adversário. Jamais
venceria aquela coisa sem um Atame. Ele fora um Atame já juventude,
mas agora não detinha mais esse poder. Não poderia mandar a
Degeneração para sua zona agora. Com suas forças restantes,
Lawliet abriu a fenda que o triunvirato tinha feito a tantos anos
para a CyberZone, e sugou o Aspecto para dentro. Uma vez ali, ambos
poderiam lutar pau a pau, mesmo que Lawliet aparentemente estivesse
com a vantagem.
— Ainda tenho alguns truques na manga. Nos meus domínios, eu sou
invencível, indestrutível e imortal. Você não vai ter o que quer
tão fácil, porque eu não vou deixar!
A batalha terrível se iniciou, com a Degeneração apodrecendo os
dados ao seu redor e Lawliet mandando todas as suas forças ofensivas
para o ataque, tendo que se defender dos ataques de podridão a
qualquer custo. Seu objetivo maior era cansá-la. Ele não tinha
poder para vencê-la, nem mesmo na CyberZone. Mas ainda podia
contê-la com toda a sua força. A batalha prosseguiu por mais alguns
momentos, mas terminou no exato momento em que signos começaram a
surgir ao redor do Aspecto personificado.
— O que está acontecendo?! O que você fez comigo?! Eu não posso
ser vencido, nem destruído! Você não vai conseguir me derrotar
nunca, seu desgraçado de merda!!! — Devon gritava com sua voz em
dois tons, enquanto algo era extraído de dentro dele.
— Tem razão, Dee, eu não posso te derrotar. Mas eu posso te
aprisionar aqui pelo resto da minha eternidade. E acredite quando eu
digo que tenho todo o tempo do mundo ao meu favor. Você nunca sairá
daqui! — o corpo de Lawliet vertia dados das chagas abertas e
pútridas, tentando se regenerar, mas com todas as forças restantes,
o deus abriu um buraco no chão e aprisionou a Decadência, já
separada do menino, no abismo mais fundo da CyberZone. Uma vez tudo
mais calmo, ele se permitiu respirar e descansar.
— Então era contra um dos Aspectos malignos que você estava
lutando? Você não brincou quando disse que o inimigo era barra
pesada. — uma figura de cabelos louros espetados saiu das sombras
de onde estava, segurando um objeto muito esquisito, e encarando a
cena com tédio. A maior parte do seu corpo era feita de carne, e não
de dados, mas estava completamente coberta por panos e roupas longas.
— Eu sempre disse a você quem era meu inimigo, Terence. E a
propósito, muito obrigado por vir aqui me ajudar com a Runa Prima.
Espero que a viagem de Lampazu até aqui não tenha sido muito
tumultuada. — o sorriso de Lawliet se transformou em uma careta de
dor, quando um pedaço particularmente grande de seu corpo foi
apagado e reposto.
— Não se preocupe, meu amigo. Não é incomodo nenhum ajudar
aqueles que eu gosto. Até porque, a Runa Prima serve para ajudar
meus camaradas sempre que eles se metem em problema. Mas enfim, se
você prendeu a Degeneração, vai atrás da Barbárie e da
Insanidade também? — Terence replicou, guardando a Runa Prima no
casaco.
— Não tenho forças para aguentar os três malvados. Temos que
torcer para que a Inocência, a Esperança e a União estejam prontas
para uma boa e velha briga caso essas outras deem as caras.
— E quanto ao garoto? Devo apagar as memórias dele? Seu cabelo
ainda está vermelho, e isso pode significar que ainda existe
Decadência nele.
— Todos temos algo de podre, Terence. Eu tenho muito, mas isso não
vem ao caso. Use seu poder para reescrever um pouco do que ele
passou. Não quero que ele fique com a corda no pescoço quando
voltar para o instituto, que deve ser breve. Ele não é como você
que pode passar tanto tempo assim aqui dentro. Apenas faça com que
ele não lembre do que fez, ou que as pessoas lembrem do que ele fez
a elas. Vamos deixar o senhor Ackles viver em paz.

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