Lucifer observava tudo. Mesmo sem saber porque, Lucifer observava
tudo, as vezes pela diversão, outras vezes pela necessidade de
aprender. Algumas pessoas diziam que Lucifer era alguém com sede de
conhecimento, aprendizado rápido e mente precoce. Nunca viu isso em
si, mas continuava observando tudo. Observou como os seus destruíram
Nyxsage e como Tess os impedira. As vezes, Tess podia ser um cuzão,
mas Lucifer sabia do que seu coração era feito.
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Remiel andava preocupado com
tudo o que estava acontecendo. Seus iguais estavam divididos em uma
disputa política que não tinha fim. Os arcanjos sob o comando de
Aziel e Salatiel estavam devastando todos os pontos que tinham
energias conflitantes com sua forma energética. Os anjos se
recolheram em sua esfera, o Hall, e nem mesmo Lucifer conseguia
tirá-los de lá. Certamente, a decisão de Salatiel de ordenar aos
anjos usando a Aura Imperial tinha sido impactante até demais.
Remiel sabia onde isso ia acabar.
A Voz
da Justiça se encaminhou
até os aposentos de seu irmão mais velho. Precisava de um auxílio,
de um conselho que fosse, mas não conseguia mais aguentar a pressão
de ficar sozinho em sua bolha. Ele precisava da
Lâmina
de Alabastro, mas esse
guerreiro tinha se trancado dentro de Uriel há muito tempo. Um medo
cresceu dentro do arcanjo, ao pensar que seu irmão não quisesse
mais lutar pelo que fosse certo. Com um estremecimento, afastou essa
ideia da cabeça. Só saberia do posicionamento de seu irmão, depois
de falar com ele.
— Acha mesmo que vai tirar
Uriel de seu confinamento? Eu já tentei de todos os jeitos fazer
isso, mas ele parece que ficou mais teimoso esses últimos
tempos. Acredite, eu
mesma já tentei. — Anael clamou, surgindo para seu irmão.
— Que bom ver você de novo,
minha irmã. Foi muito gentil da sua parte me avisar quando eu
finalmente crio coragem para falar com ele dentro da bolha dele. —
havia sarcasmo na voz de Remiel, mas estava balanceado com a alegria
de rever a pequena Anael.
— Você sabe que eu sempre
venho na hora certa. Como quando você precisava daquela lança que
atingiu Lillith de forma perfeita. Ou daquela vez que eu arranquei o
coração de Abaddon enquanto você apanhava feito uma vadia para
ele. Ou ainda daquela vez que…
— Já deu pra entender,
Valquíria Solar. Eu sempre preciso de ajuda quando se trata de
vencer meus inimigos. Por isso vim pedir a ajuda do meu irmão, e a
sua também, querida irmã. Salatiel está dizimando todos os focos
de energia negativa que podem existir nesse plano, e nós mais do que
ninguém sabemos o quão perigoso isso pode ser.
— Ai ai, Salatiel. Esse cabeça
de vento sempre foi meio egocêntrico. Mas realmente, eliminar todos
os focos de energia negativa desse mundo vai culminar com o mundo
entrando em Colapso. Bem, já que eu não tenho nada melhor pra
fazer, eu topo dar uma coça nele com você.
Com um sorriso torto, Remiel
olhou para a garota que estava a sua frente. Ela era jovem, por assim
dizer, e ainda não entendia completamente toda a questão política
em que se metera ao ser tão forte. Mas ela ainda não era Uriel, e
ele precisava da força dele, de Zadkiel e de Lucifer. Só esperava
que todos estes estivessem tão interessados em pegar Salatiel e
Aziel como ele estava, e assim restaurar o equilíbrio energético de
Zahalysne.
— Você não precisa ir se for
levar desse jeito. Quero que só venham os verdadeiros interessados
em deter aqueles insanos. Você sabe que eles começaram a limpeza
hoje mesmo fazendo a desgraça e Nyxsage? A destruição daquele
local vai ser catastrófica se o Tess não resolver isso logo.
A Valquíria começou a pesar as
palavras de seu irmão, medindo cada consequencia do ato de tomá-las
como verdadeiras. Tess Leon. Tinha que admitir que o cara era ousado
por ter feito tantas coisas insanas no mundo e ainda estar vivo. Ela
tinha um pouco de apreço por ele desde quando o mesmo tinha lacrado
o cú dos Aspectos dentro da zona deles, selado as Pontas do
Pentagrama no Abismo, e impedido o deus do Vazio de assumir o trono
dos deuses de novo. Ele era um prodígio, mas, ainda assim, fraco em
comparação ao que poderia ser.
— Tess não vai mais agir. Ele
parou de agir no momento que salvou as almas de Nyxsage do
Ostracismo. Ele salvou a Lola Nightshadow, e deu a chance da mesma
restaurar a vida em sua cidade. Ele fez o suficiente. Agora está em
nossas mãos abrir o cú da Aziel e escarrar com pus lá dentro. —
Anael olhava distraída para suas unhas. Tinha medo de estar certa,
mas sabia que não estava errada.
— Agora mesmo que temos que
agir. Preciso falar o quanto antes com Uriel, e você, vá procurar
Zadkiel. Precisamos de todas as nossas forças unidas, pois o perigo
que se abate sobre nós é imenso. Quando todos nós tivermos
concordados, iremos até Lucifer.
Quando a menina aquiesceu,
Remiel virou-lhe as costas e adentrou na bolha de seu irmão. Havia
muito que tinha estado ali, e agora várias coisas tinham mudado,
refletindo como a personalidade de Uriel tinha mudado ao longo das
eras. Seu irmão costumava ser organizado com as suas armas, suas
armaduras e roupas, mas hoje ele estava muito mais desleixado. Havia
armas espalhadas pelo chão, mostrando que a organização tinha
passado longe daquela bolha, e pedaços de armadura pendendo por
todos os lugares. Roupas sujas se amontoavam aos cantos e montes. Era
surpreendente que ela ainda encontrasse seu caminho pra Paradise
Alley.
— O que você pensa que está
fazendo na minha bolha sagrada? Saia imediatamente com as mãos para
cima! — uma voz gritou de dentro do quarto. Algo estava errado.
— Uriel! Eu não saio daqui
até falar com você! Apareça, por favor, e me escute!
Um ser selvagem pulou do meio de
roupas sujas, fedendo, com a barba já desgrenhada e os cabelos
engordurados e sujos. Seus olhos eram belos, mas seu rosto parecia
ter ficado esquálido e sem graça ao longo dos tempos. Algo de muito
errado estava acontecendo ali. Remiel sabia que seu irmão jamais se
entregaria à decadência como ele tinha se entregado agora. Não
podia ser só pelas disputas políticas entre os arcanjos ou pela
deserção de todos os anjos. Tinha algo mais.
— Eu já disse para sair da
minha bolha e voltar para sua preciosa Paradise Alley. Eu não quero
ver você e nem nenhum dos outros filhos da puta que se intitulam
donos do mundo. Vocês são um bando de merda, e eu não tenho nada a
tratar com vocês. — Uriel pressionava a garganta de seu irmão com
força o bastante para esmagar granito, mas Remiel mantinha a
expressão impassível.
Alguns minutos se passaram, com
ambos se encarando nos olhos. Uma espécie de faísca saltava de
ambos, tentando desesperadamente se conectar uma com a outra e
acender a chama da velha amizade que existia entre ambos. Remiel
estava aberto ao contato, embora a Espada de Alabastro permanecesse
na defensiva. Por fim, Uriel não aguento e abraçou seu irmão de
tantas eras com força e se pôs a chorar as dores do âmago da alma.
Dores que não sentia desde que tudo ruiu.
Remiel pacientemente pegou seu
irmão no colo e se pôs a acalmá-lo. Sentia vontade de chorar junto
dele, mas precisava ser mais forte do que isso. Precisava ser forte
por ambos, pois agora viria a briga definitiva. Depois de acalmá-lo,
se encaminhou para o banho com seu irmão, para lavá-lo, cortar-lhe
o cabelo, aparar sua barba e alimentá-lo, nessa ordem e não nesse
mesmo local. Por fim, deitou seu irmão, já mais calmo, em sua cama
e pôs-se a conversar com ele.
— Depois que o Lúcifer levou
um quarto de nossas legiões na Terra, eu pensei que fossemos nos
unir ao ponto de nunca mais termos brigas na vida. Mas eu estava
errado. Depois que viemos para cá com metade das legiões
remanescentes, não demorou muito para que surgisse a família dos
Planinaltas arcanjos, e foi onde toda a treta começou. Queria eu que
nunca tivéssemos feito aquela maldita família, que hoje vive
isolada na Terra, longe de nossas vistas. Nunca pude conhecer meus
sobrinhos planinautas. — Uriel discorria entristecido, com a cabeça
no colo de Remiel, enquanto o mesmo lhe fazia cafuné.
“Quando Salatiel propôs ao
Concílio Sacrossanto a limpeza do mundo da energia negativa, eu não
imaginava que tivesse tantos ignorantes que fossem concordar com a
ideia dele de expurgar do mundo algo que é necessário para o
equilíbrio das pessoas. Mas concordaram, enquanto metade se opunha
ferrenhamente à ideia. Eu ainda lembro das discussões naquela sala,
e de como aquele rato com asas pode ser persuasivo para conseguir o
que quer.
Ele manipulou os generais mais
influentes para conseguir o apoio das legiões comandantes com
soldados que fossem preconceituosos e corruptos, que estivessem
dispostos a venderem sua alma se assim pudesse se banhar no sangue de
seus inimigos, mesmo que estes fossem crianças. Tentei apelar a
Aziel, mas até mesmo aquela que devia ser a racional se voltou
contra nós, após declarar que estava noiva de Salatiel e que
esperava um filho do mesmo, que uniria duas poderosas linhagens de
nossa estirpe.
Isso foi o escândalo necessário
para que quem estava me apoiando votasse na decisão mais errada
possível: o banimento do casal para Gehenna Wreckage. Uma vez lá,
ambos estava livres para convocar aqueles que lhes apoiavam
cegamente, e assim fizeram, diminuindo nossos contingentes e
engordando suas fileiras com 'guerreiros' que são capazes das
maiores atrocidades se for para ver o sangue rolar. Acho que foi
nesse momento que eu me tranquei aqui em minha bolha. Mas eu tenho
muitos informantes, sabe?
Eu ouvi dizer que Salatiel usou
sua Aura de Imperador em todos os Anjos de Paradise Alley para que
estes lhe jurassem fidelidade. Ah, como eu queria ter visto a cara do
maldito quando Garllahad Byakuya e Niel Razia lideraram o movimento
separatista dos anjos, e de como eles viraram as costas para ele no
instante que ele parou de usar seu poder e fundaram o Hall dos Anjos,
apenas uma esfera abaixo de nós. Sabe, eu bem que gostaria de
cumprimentar ambos pela ousadia, mas acho que eles tem nojo da minha
cara, e isso me dói muito.”
— Bem, acho que você não
precisa se doer tanto, Uriel. Niel brigou com Garllahad pelo controle
do Hall dos Anjos, e desde então ambos mantém feridas abertas um
contra o outro. Niel perdeu uma asa na briga e quase perdeu a vida.
Se não fosse sua filha ter doado metade de sua energia vital, ele
teria morrido logo após ter vencido a briga.
Uriel apenas arregalou os olhos
diante dessa afirmação, mas logo disfarçou a surpresa. Porém,
Remiel continuou atualizando o irmão com as más notícias, mesmo
que isso fosse dolorido para ele ouvir. Ele merecia saber a verdade,
por mais podre que ela fosse.
— E te mais, meu caro irmão.
Salatiel começou a agir. Ele mandou uma hoste de arcanjos furiosos
atacar a cidade de Nyxsage, um dos principais focos de energia
negativa desse mundo. Todos os habitantes foram dizimados, e apenas
Aaron Vaughan sobreviveu ao massacre. Tess Leon conseguiu salvar as
almas dos habitantes, mas não podemos deixar isso passar em branco.
Meu irmão, me empreste sua força, para combatermos esse mal juntos!
Na mesma hora que Uriel levantou
a cabeça com o susto, Remiel se ajoelhou e lhe implorou ajuda. Não
tinha problemas em se humilhar por uma causa justa. Se Uriel topasse,
Lucifer e Zadkiel toparia com certeza. Agora ele tinha de esperar que
Anael fosse tão persuasiva com seu irmão quanto ele era com Uriel.
Sua cabeça estava abaixada, mas ouviu claramente o barulho de coisas
caindo no chão e peças de metal sendo reviradas. Quando se atreveu
a olhar, Uriel estava vestido em sua armadura de metal branco,
reluzindo de ódio, com uma expressão de pesar e raiva. A Lâmina de
Alabastro tinha voltado.

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