Loktar se sentia exultante. Depois de finalmente meditar por longos
dias de forma quase incessante em sua cidade natal, ele finalmente
descobrira uma maneira de derrotar a Bunny Woman. Seu contentamento
era evidente. Desde quando o mundo era mundo, sua mestra Bo tentava
derrotar a Bunny Woman e a Bruxa Milenar, mas ela nunca conseguira
descobrir uma forma. Loktar não se preocupava com a Bruxa Milenar,
já que ela tinha sumido fazia séculos, mas a Bunny Woman era um
perigo constante. Ariana Flemence tinha se provado uma mulher
perigosa e temperamental, difícil de ser contida ou até mesmo de
conversar.
Nas vilas de Ferália, cheia de Kemonos e Feralianos, ou você era a
presa ou era o predador. Loktar era com certeza um predador, e agora
ele conhecia a fraqueza da inimiga de sua mestra. De sua inimiga. Ele
já estava se preparando para voltar à sua cidade de treino, dono de
um segredo poderoso, que seria compartilhado com sua mestra quando se
deu conta do que estava acontecendo ali. Afiando seus sentidos, ele
escutou ao longe, o som de pulos. Pulos estes que pertencia a coisas
grandes e pesadas, mas que se moviam a uma velocidade impressionante.
Ferália era um local modesto. Apenas algumas vilas aqui e ali,
habitadas por seres animalescos, que eram donos da selvageria e
detentores das graças da natureza, mas nenhum ser em Ferália
chegava a ser tão grande e pesado, mas, ao mesmo tempo, ágil e
veloz como o que ele estava escutando. Seu coração deu um salto
quando viu a silhueta de um coelho gigante com marcas vermelhas no
corpo, grandes olhos amarelos e uma boca cheia de dentes afiados. E
eles corriam em direção ao seu vilarejo.
Sua audição já estava sensível, e ele pode ouvir sons que feriram
profundamente seu interior, como o som de gritos de dor dos aldeões,
o choro de crianças, o rasgar de carne e a horrível mastigação
dos coelhos. A Bunny Woman tinha descoberto sobre ele, e agora ela
não seria piedosa. Loktar encerrou sua audição aguçada e passou a
correr em direção ao seu vilarejo. Existiam pessoas ali que ele
queria salvar, que ele precisava salvar. E ele correu de volta ao seu
lar, com o intuito de lutar até a morte pelo seu lar.
Loktar chegou a tempo de ver as pessoas correndo dos coelhos, e isso
não fazia sentido. Os habitantes de Ferália tinham sido
considerados por muitos anos os mais bravios e destemidos de todo o
continente, e agora eles corriam de coelhos gigantes pavorosos como
se os mesmos fossem invencíveis. Simplesmente não fazia sentido que
isso estivesse realmente acontecendo. Acumulando energia em seu
corpo, Loktar começou a desferir tantos golpes quanto pode nas
criaturas, mas era a mesma coisa que bater em argila molhada.
A textura dura e mole do corpo dos coelhos demoníacos fazia com que
todos os golpes fossem doloridos na carne do meio-urso, mas mesmo
abrindo buracos nos corpos dos coelhos, eles se reconstituíam e se
fechavam. Da mesma forma que Ariana. Amaldiçoando a demonia com
todas as suas forças, Loktar deu por si esfarelando os coelhos com
todo o seu ódio sendo liberto. Não era possível que ele fosse
chegar tão perto de matar a Bunny Woman e fosse falhar. Ele
simplesmente precisava sair vivo dali de alguma forma, mas jamais
abandonaria seus compatriotas.
Loktar continuou quebrando, socando chutando e matando quantos
coelhos pode, mesmo que eles se reconstituíssem, ele morreria
lutando, como o exército de um homem só. Ninguém mais se
machucaria em sua vila. Todos os seus amigos, todos os seus
conhecidos, de quem ele gostava, ele seria o escudo entre eles e os
demônios, a qualquer custo. Mesmo quando o primeiro dedo-agulha dos
coelhos o acertou, ele continuou lutando, até que lhe acertaram mais
outro e o suspenderam, para arrancar sua cabeça, beber seu sangue e
comer seu corpo.
Na mesma medida que Loktar morria, longe dali, uma mulher toda
vestida de preto se felicitava e se congratulava pela sua brilhante
ideia de dizimar todos os habitantes de Ferália, em busca do bestial
prometido. Baphomet tinha alertado-a sobre um monge meio-urso que
descobriria a fraqueza de seu corpo de argila um dia, e iria
derrotá-la, mas mesmo ela foi em frente com o plano de realizar seu
desejo pelos poderes da consciência sem corpo. Não importava
quantas vezes ele renascesse, ela sempre o mataria, até não sobrar
nenhum bestial vivo.
Ela ainda se lembrava de quando era uma menina pequena e indefesa,
que habitava Nyxsage com Beatriz e Bo. Ainda achava muito bizarro o
fato de Bo ser uma das raras humanas de Nyxsage, e de hoje em dia ela
se dedicar a essa filosofia de monge. Ela poderia ter tido tanto
poder quanto ela ou Bia, mas ela não quis se arriscar a pedir ajuda
ao poderoso ser dos desejos, como ela pedira. Chegava a ser engraçado
como acontecera tudo.
Um dia, ha muito tempo, Bia e Ariana estava conversando sobre a
possibilidade de serem as rainhas do mundo, e de quem conquistasse
primeiro, aceitar a outra como ministra de sua vontade e portadora de
seus desejos. Uma para reinar, e outra para governar. Bo, era a única
que achava a ideia ridícula, e que disse que faria de tudo para que
nenhuma das duas fosse capaz de alcançar seus objetivos. Quem
poderia imaginar que o desejo de monja seria tão forte a ponto de
parar o envelhecimento de seu corpo mortal?
Ariana ainda lembrava como ela e Bia se tacaram para o fundo da
cidade para encontrar a caverna que Baphomet descansava, para que
cada uma tivesse um desejo concedido. Ah, tinha sido um dia tão
divertido. Ela tinha saltado riachos, se pendurado em pontes e se
forçado mais do que qualquer pessoa viva da cidade. Bem, talvez um
pouco menos do que Beatriz. Nunca vira a amiga desejar algo com tanta
força quanto naquele dia. Era quase divertido ver o desespero no
rosto da bruxa quando ela se afastava do alvo dos desejos.
— Foi realmente divertido esse dia, Ari. A gente poderia ter
repetido mais vezes se eu não tivesse ficado tão ocupada tentando
conquistar o mundo, e você mais ocupada ainda em fazer isso antes de
mim. — uma voz melodiosa surgiu através do aposento da dama de
preto, fazendo com que os pelos da nuca da mesma se eriçassem.
— Bia, minha querida. Eu vou conquistar o mundo antes de você, e
serei sua Rainha e Soberana. Você sabe que eu estou certa, e que
você está apenas adiando o inevitável.
— Você também está adiando o inevitável, minha amiga. Você é
invulnerável, não invencível. Eu que desejei a invencibilidade,
enquanto você quis ser indestrutível. Mas sabemos que Bo também
desejou alguma coisa. Mesmo que não tenha desejado diretamente à
Baphomet, ela desejou com força o suficiente para se realizar. Você
só adiou o inevitável.
— Eu sei disso. O protegido de Bo vai me matar algum dia, mas eu
serei a Rainha do Mundo antes disso. Bem antes disso. Eu superarei os
deuses, e juntas vamos ser as mais fortes de todo este plano. E você
também tem suas fraquezas. As gêmeas já nasceram, sabia? Você não
fez nada porque?
— Enquanto as gêmeas não encontrarem Nariki e Raven, não
existirá motivos para que eu tema minha destruição. Eu ainda tenho
o Horror Ensanguentado e o Coração Negativo para lutar ao meu lado.
Eu ainda sou a Bruxa Milenar. E você, Bunny Woman, o que você tem
ao seu favor?
0 comentários:
Postar um comentário